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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Janeiro de 2013 às 01:00

Portugal tem as costas voltadas para Castela e o rosto virado para o mar desde que as mais antigas fronteiras europeias foram fixadas em Alcanizes. Coisa estranha para países filhos do romantismo nacionalista do final do século XIX como a Alemanha ou a Itália, para não falar do borbulhar de novas pátrias depois da I Guerra Mundial ou da queda do Muro de Berlim.

À identidade feita da antecipação da globalização, sucedeu a página escondida da invenção do Brasil, feita de tráfico negreiro e de chacina de indígenas. O mito colonial africanista é filho serôdio do liberalismo decadente, arrastou a República para as trincheiras da Flandres, de onde não mais recuperou, e deu o golpe de finados no marcelismo atascado nos pântanos da Guiné.

O sonho europeu da nossa democracia é um regresso feliz ao retângulo medieval propiciado pela garganta livre de Abril, pelo otimismo da pertença à Europa próspera e pela autoestima de quem deixara o bisonho tempo de "orgulhosamente sós".

A vergonha dos novos pobres, o desamor de uma elite que emigra em massa e a raiva surda de quem se vê ferido na alma pelo desprezo pela luta de toda a vida são ácido que nos corrói a identidade. A sensação malsã de que o futuro será uma caricatura negra dos sonhos passados dá-nos a ideia de que não existe alternativa e de que o nosso projeto coletivo não fez sentido. Nunca fomos tão qualificados, tão sãos e longevos, mas de nada vale a pena porque a alma já se perdeu.

O laboratório social da nova direita conduz-nos para a secção de fósseis políticos nos escombros da Europa. Desaparecidos todos os mitos, a democracia exige alternativa, exige que o grito seja uma nova palavra. Os regimes políticos não criam bolor, desfazem-se na poeira dos tempos.

É por isso urgente dar rosto à esperança e não adiar o risco de redescobrir o futuro.

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