Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

O PORTO É UMA LIÇÃO

E não fez só isto. Fê-lo sem precisar do servilismo nem da perna aberta de Fernando Gomes ou Nuno Cardoso. Ou seja, Rui Rio conseguiu a coragem de recusar a promiscuidade entre autarquia e futebol.

Francisco Moita Flores 9 de Maio de 2004 às 00:00
1 Obrigações profissionais fazem com que escreva esta crónica a partir de S. Paulo, onde assisti ao jogo que abriu as portas da final ao Futebol Clube do Porto. É sabido que sou sportinguista mas foi com emoção, até orgulho, que saudei com alguns portugueses e uma mão cheia de brasileiros este acontecimento.
E é preciso que se tire o chapéu ao grupo de homens que dirige aquele clube. Construíram uma equipa feita de muitos jogadores que não serviam ao Benfica nem ao Sporting. Buscaram reforços em clubes baratos, como foi o caso de Derlei ou Paulo Ferreira. Nuno Valente não convencia sportinguistas, Deco, Maniche e Jankauskas estavam a mais no Benfica e Pinto da Costa foi às sobras. Com talento, empenho e grande rigor fez o milagre: transformou este naipe de jogadores e outros que tinha na sua posse na mais poderosa esquadra europeia. Há dois anos, esta equipa nas mãos do meu Sporting estaria condenada aos proverbiais terceiros e quartos lugares. Nas mãos de Pinto da Costa ganhou campeonatos, venceu a taça UEFA e aqui está preparada para arrecadar a dos campeões europeus.
E não fez só isto. Fê-lo sem precisar do servilismo nem da perna aberta de Fernando Gomes ou Nuno Cardoso. Ou seja, Rui Rio conseguiu a coragem de recusar a promiscuidade entre autarquia e futebol. Deve ser aplaudido por essa coragem e deu espaço para que o FCP se libertasse desse abraço de serpente. Bem pode Dias da Cunha resmungar contra o sistema, bem podem os adeptos do Porto que não souberam respeitar o seu presidente da Câmara rosnar contra Rui Rio, a verdade é que clube e câmara cresceram sem a repugnante promiscuidade que noutras bandas está a levar à cadeia e às mãos da polícia negócios que as cumplicidades manhosas geraram.
A providência quis que fosse durante o mandato de Rui Rio que o Futebol Clube do Porto atingisse um concentrado curricular que poucos clubes no Mundo se podem vangloriar. Campeão nacional e duas presenças, uma delas já vitoriosa, numa final europeia. Oxalá consiga a segunda vitória. Assim como em nome da verticalidade e honradez política Rui Rio possa conseguir a sua vitória política. Porque soube respeitar e dar-se ao respeito. Dignificou a sua autarquia e permitiu que um dos clubes da sua terra mostrasse o que vale o trabalho e o talento sem favores pífios nem sabujice política.
2 A invasão de campo registada no último Sporting-Benfica foi pretexto para tornar a discutir e a pôr em causa a segurança do Euro’2004. É um mal bem português. A partir de um episódio adivinham-se inevitáveis apocalipses. Não creio que seja possível criar uma relação determinística entre o que se passou em Alvalade e o campeonato da Europa que se aproxima. Apesar de todas as fragilidades, no essencial as forças de segurança revelam conhecer a dimensão do problema que as aguarda. Pode ser que corra mal, mas há condições para acreditar que corra bem. É uma espécie de totobola, coisa a que os portugueses estão historicamente habituados em todos os outros aspectos da vida. Porque haveria este de ser diferente?
3 Conta-se que quando Atila à frente dos seus bárbaros saqueou Roma foi abordado por senadores que lhe imploraram que baixasse a fasquia do tesouro a ser-lhe entregue porque Roma ficaria exaurida e na miséria. Átila ter-lhes-á respondido ‘Vae vectis’(Ai, dos vencidos!) e obrigou-os a humilhação total. As fotografias que têm corrido Mundo sobre a brutalidade dos soldados americanos contra soldados iraquianos indefesos, e presos, é a triste evidência de que a humanidade pouco mudou nestes dois milénios. Ai dos vencidos!, exclamarão Bush e Rumsfeld em voz baixa. À violência tirânica de Saddam Hussein responde esta violência cobarde. Na verdade, como dizia Cássio a Brutus, muitas vezes o problema não é dos astros, mas da política e dos homens que a fazem.
Ver comentários