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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Novembro de 2003 às 00:00
A palavra está em perda acentuada de valor. A erosão regista-se em todos os planos – na escrita e na oralidade. Claro que as palavras conservam o seu valor e significado, mas, também aqui, o relativismo ganha terreno.
O significado de cada vocábulo utilizado depende, cada vez mais, da intenção subjectiva do seu autor. É por isso que uma afirmação feita hoje, com um dado sentido, corre o risco de ganhar outra dimensão no dia seguinte, se tal for do interesse e conveniência de quem a produz.
No mercado das palavras que diariamente circulam à nossa volta consente-se praticamente tudo.
Mais – o mercado semântico há muito consagrou, como prática aceitável, o verbo desdizer. Mas não se pense que desdizer seja sinónimo de contradição – longe disso. Trata-se, por junto, de iluminar no dia seguinte, o sentido da reflexão proferida na véspera.
Nos últimos dias, o mercado português das palavras mostrou, numa mão-cheia de exemplos, a sua imensa sabedoria. O pedido de demissão do Procurador Geral da República durou apenas umas horas: no dia seguinte nunca tinha existido. Depois, surge em tribunal um médico especialista, psiquiatra, que nessa qualidade fala aos jornalistas – no dia seguinte, já não era psiquiatra. E, finalmente, uma medida governamental que mereceu comentários de ministro e gerou polémica no Governo, no dia seguinte sucedeu-lhe o mesmo – já não existia, melhor: nunca existira!
A demissão que não foi pedida, o psiquiatra que não o era e a decisão do Governo que nunca fora tomada são exemplos acabados do valor (não) atribuído à palavra dada.
A facilidade com que num dia as palavras ganham sentido diferente daquele que tinham na véspera, chama a atenção para outro aspecto: ninguém sente que este catavento de opiniões seja verdadeiramente penalizador. No meio do ruído social, disfarça-se a contradição, acusa-se alguém pelo caminho de nada ter percebido e mantém-se polida a imagem da coerência.
Tudo fácil, numa sociedade que depois de se habituar à fast food abraçou, em vertigem, a bem mais indigesta fast word.
A SONDAGEM E O SISTEMA
A mais recente sondagem divulgada pela Rádio Renascença aponta para uma descida generalizada dos partidos políticos. Sobe a abstenção. Quer dizer: aumenta o número daqueles que, no actual momento, não se sentem em condições de escolher.
A descida da generalidade dos partidos deve ser lida com atenção e por todos: comunicação social e políticos. No meio de tantas notícias, escasseia o esclarecimento. No meio de tantos casos, surgem sinais de rejeição.
Acontece que só os regimes ditatoriais podem dispensar o apoio popular. As democracias, essas, apoiam-se por natureza na vontade e na adesão dos eleitores.
Torna-se necessário credibilizar o discurso e a prática das instituições democráticas, evitando a desconfiança que leva, lentamente, ao declínio dos sistemas – qualquer que ele seja.
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