Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Joana Amaral Dias

Trabalhar para aquecer

Imagine que tem de trabalhar 16 horas semanais sem salário. E sem reconhecimento social, sequer. Não gosta de três horas diárias de graça? Se fizer as contas, considerando que um dia de trabalho tem oito horas, concluirá que arregaçaria as mangas à borla 112 dias anuais. E gostará ainda menos.<br/><br/>

Joana Amaral Dias 20 de Junho de 2009 às 00:30

Agora, imagine que, num novo emprego, a única diferença relativamente a um colega seria o leitor acumular as tais horinhas que, descontando os fins-de-semana, representam quatro meses de trabalho gratuito anuais. Que aconteceria? O colega dispunha de mais tempo para a carreira e formação. Para se valorizar. E se divertir. Ao fim de alguns anos, provavelmente, ele seria promovido, ganharia mais e viveria melhor. Já o leitor continuaria a suar as estopinhas pro bono, enquanto o seu ordenado diminuía. Pesando a competição desleal, até poderia ficar desempregado. Finda a carreira contributiva, nada receberia pelos 19 anos que trabalhara ‘pró boneco’. E a reforma relativa ao seu emprego seria bem menor do que a do colega.

Injusto? Escandaloso? Escravatura? O problema é que não se trata de imaginação. Metade dos portugueses encontra-se nessa situação. Faz as 16 horas por semana a mais de trabalho doméstico que numa vida representa dezenas de anos ao serviço e sem salário. Chamam-se mulheres.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)