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Correio da Manhã

Política
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25 DE ABRIL COM TODAS AS LETRAS

Os portugueses celebraramm este domingo o 30º aniversário da revolução que, a 25 de Abril de 1974, ‘enterrou’ o Estado Novo e abriu caminho à liberdade e à democracia. O dia foi mercado por diversas cerimónias, com particulares obrigações protocolares na agenda da elite política nacional, destacando-se a sessão solene na Assembleia da República.
25 de Abril de 2004 às 14:18
As cerimónias oficiais começaram com a alvorada, o içar do estandarte nacional e o descerramento de uma lápide alusiva no Quartel do Carmo, em Lisboa, local onde o então presidente do Conselho de Ministros, Marcello Caetano, entregou o poder aos militares de Abril. Nesta primeira cerimónia estiveram presentes o Presidente da República, Jorge Sampaio, o primeiro-ministro, Durão Barroso, o ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes, e o comandante-geral da GNR, Mourato Nunes.
Após o descerramento da lápide, acompanhado pela leitura de um poema de Sophia de Melo Breyner, a comitiva efectuou uma visita às dependência do Quartel do Carmo, da GNR, tal como o fez, depois, um grupo de crianças de escolas de Setúbal, Vialonga e Loures.
Pelas 10h30 teve início a sessão solene de comemoração dos 30 anos do 25 de Abril na Assembleia da República, iniciada com o Hino Nacional, cantado no hemiciclo pela fadista Mariza. Presentes estiveram o presidente de Timor-Leste, Xanana Gusmão, os presidentes dos parlamentos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, o ex-presidente da República Mário Soares, os militares de Abril Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de Carvalho, o Procurador-Geral da República, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e representantes de todos os ramos das Forças Armadas. A sala de plenário estava engalanada com flores e todos os deputados da Oposição (mas só estes) levaram o tradicional cravo vermelho na lapela.
O desfile de discursos – primeiro os de um representante da cada bancada parlamentar, depois o do Presidente da Assembleia da República, Mota Amaral, e, a encerrar, o do Presidente da República – ficaram marcados por críticas ao slogan escolhido pelo Governo para a ocasião (“Abril é Evolução”, ou seja, Revolução sem o “r”) e por alusões ao recente acordo constitucional concluído entre a coligação governamental (PSD/CDS-PP) e o PS e à presença da GNR no Iraque.
Mota Amaral optou por chamar a atenção para o défice democrático existente na União Europeia, declarando que os parlamentos nacionais são o “derradeiro e mais forte garante” da democracia dentro do espaço comunitário europeu.
Jorge Sampaio, que proferiu o discurso mais aguardado do dia, denunciou a continuidade da crise orçamental e o aumento do desemprego de longa duração e exigindo soluções políticas de coesão social e de crescimento económico. O Presidente da República desafiou o Governo a procurar um modelo de desenvolvimento alternativo, sem recuos nas políticas sociais, e alertou ainda para os perigos de concentração da propriedade na Comunicação Social.
FRASES DA SESSÃO SOLENE
“Festejar Abril não é apenas recordá-lo, mas acreditar no Portugal do futuro, alimentar a confiança nacional (...) Abril, a liberdade, a democracia não têm dono, nem à esquerda, nem ao centro, nem à direita (...) É bem verdade que Abril abriu portas à evolução” Victor Cruz (PSD)
“o 25 DE Abril fez-se para, justamente, ultrapassar uma situação de impasse, para outorgar ao País um sentido de verdadeira evolução (...) Seria tapar o Sol com a peneira esquecer que existe um grande desencanto pela política e que são visíveis marcas de uma crise de cidadania, que tem de ser ultrapassada” Miguel Anacoreta Correia (CDS-PP)
“Em nome do Partido Socialista, saúdo o 25 de Abril com todas as letras da palavra revolução (...) A vitória dos três ‘D’ (democracia, desenvolvimento e descolonização) pode vir a ser ensombrada por outros três ‘D’ (desemprego, desigualdade e desânimo)” Manuel Alegre (PS)
“(sobreposição do direito comunitário às normas constitucionais portuguesas) É a política do revanchismo contra Abril e os seus valores, da deturpação da História, do regresso ao passado, do comprometimento do futuro (...) O Governo envolveu o País num novo colonialismo (Iraque) (...) Trinta anos depois de Abril há quem queira esconder que Abril foi uma Revolução” Bernardino Soares (PCP)
“(...) colonialismo e absolutismo a que o Estado português se vergou, aceitando ceder homens e mulheres da GNR para se juntarem aos sipaios do Império na ocupação do Iraque (...) A actual elite dominante, reaccionária e passadista, fracassou sempre (...), essa elite precisa de ser derrotada” Francisco Louçã (BE)
“Abril é Revolução. Há quem queira fazer esquecer e esconder a força da Revolução (...) Mas é preciso que se saiba que Abril não foi uma evolução natural, foi ruptura com a opressão, foi conquista” Heloísa Apolónia (PEV)
“Os parlamentos nacionais são o derradeiro e mais forte garante da democracia dentro da União Europeia” Mota Amaral (presidente da Assembleia da República)
“Parece-me óbvio que Portugal se deixou atrasar (...) as dificuldades derivam de inegáveis dificuldades estruturais e de uma conjuntura económica europeia adversa, mas também, nomeadamente, de opções sobre o investimento público e a gestão de expectativas (...) A crise orçamental não está superada (...) A luta contra a pobreza e a exclusão é uma questão de dignidade social e uma obrigação moral indiscutível” Jorge Sampaio (Presidente da República)
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