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Correio da Manhã

Política
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“Abdico sempre de parte do salário”, diz Marisa Matias em entrevista à CMTV

Candidata recusa ideia de enriquecer com a política e revela que ajuda cidadãos com o que ganha no Parlamento Europeu.
Octávio Ribeiro(octavioribeiro@cmjornal.pt) e Diana Ramos 15 de Janeiro de 2021 às 02:43
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“Abdico sempre de parte do salário”, diz Marisa Matias em entrevista à CMTV
Quase a completar 45 anos, a eurodeputada Marisa Matias diz que mantém valores da menina da aldeia. Abdica de parte do que ganha e garante que não se aburguesou.

CM – Em 2016 passou os 10%. Qual a fasquia agora?
Marisa Matias - Quero reforçar o resultado. Estava cá antes das eleições e estarei no dia a seguir, e o resultado não é indiferente. Em 2016, pude dar seguimento a bandeiras como a dos cuidadores informais. Tenho e espero ter uma expressão eleitoral que permita dar seguimento a essas lutas.

–O que a distingue de Ana Gomes?
- Tantas coisas. Não há esquerda a mais nestas eleições.

–Não se podiam ter concentrado mais?
- Nunca vi a política de forma utilitarista. Estou na campanha porque precisamos de compromissos firmes em áreas em que temos bloqueios: na precariedade , na banca. Apresento-me para fazer essa campanha, há espaço para ela e há necessidade. O Governo e o Presidente a República, com convergências que tiveram, criaram bloqueios.

–O BE foi penalizado em sondagens por não votar a favor do OE. Teme que haja efeito?
- Quando ouvimos o Governo anunciar apoios para os trabalhadores independentes, e essa foi uma razão para não houvesse entendimento, percebemos que não só tínhamos razão como o Governo vai buscar mais apoios para estes trabalhadores. Há um reconhecimento de que os apoios que dizíamos serem necessários não estavam garantidos no OE.

–O que vai mudar na campanha com o confinamento?
- Pensei a campanha para a pandemia. Não vou cancelar arruadas, comícios e jantares porque não tenho. As ações foram pensadas para cumprir as indicações das autoridades de saúde. Mas as pessoas têm de ser ouvidas e a campanha é o período para dar visibilidade a lutas. Farei ações mais modestas, mas as vozes das pessoas têm de ser ouvidas.



–O BE tem a Marisa, Catarina Martins, as irmãs Mortágua. É símbolo do poder feminino?
- Em Portugal não temos mulheres a mais na política. Chegará o dia em que não tenhamos de questionar a presença.

–Fez uma lista só com mulheres numa junta em Coimbra...
- Porque 99,9% das listas às juntas só tinham homens.

–A ação de Merkel e Von der Leyen. Não há qualquer coisa de feminino no que traçaram no último ano para a UE?
- Tendo a discordar das políticas de Merkel, mas o que nos aproxima ou distingue não é o facto de sermos as duas mulheres, é o que defendemos.

–Cresceu numa aldeia, em Alcouce, no seio de uma família modesta. Tinha de percorrer quilómetros a pé para ir à escola. Isso marcou-a?
- Marcou-me de forma clara na defesa profunda dos serviços públicos, para que não seja o facto de nascermos pobres que determina oportunidades.

–Desde 2009 que pertence à elite da política europeia. Os eurodeputados têm salários acima do Presidente.
- Sim, são muito elevados.

–Isso mudou a menina da aldeia. Aburguesou-se?
- Não, basta olhar para mim [risos]... Os salários são elevados, sobretudo se compararmos com Portugal, mas não deixei em momento nenhum de abdicar de uma parte do salário.

–Abdica a favor de quê?
- Há situações que são públicas de apelos para projetos artísticos ou ajudas a quem não tem dinheiro se defender em processos judiciais. E há outras que merecem privacidade. Não entrego dinheiro ao partido, mas mantenho essa prática. Defendo que ninguém deve enriquecer à custa do exercício de cargos políticos.

–Os eurodeputados deviam ganhar menos?
- A minha luta é combater os salários de miséria que ainda temos. Estive com mulheres que estão em risco de despejo e ver que ganham o salário mínimo e pagam 400 € de renda... É impossível viver assim. Não precisam de mo explicar porque já ganhei o salário mínimo.

–O que fez Marcelo no mandato que nunca faria?
- Uma das áreas tem a ver a com a relação com a banca. Estivemos sempre em campos opostos, desde o Banif ao BES. Outra é a precariedade: Marcelo devia ter vetado a lei que alargou o período experimental e foram essas as pessoas que perderam o chão na pandemia.
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