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Ana Gomes aplaudida por comunidade cigana e compara Ventura a "aldrabões de feira"

Candidata recordou que André Ventura a chamou de "candidata cigana", classificação que disse ter recebido "com muita honra".
Lusa 17 de Janeiro de 2021 às 19:27
Ana Gomes
Ana Gomes FOTO: Tiago Petinga / Lusa
A candidata presidencial Ana Gomes recebeu este domingo palmas de apoio de membros da comunidade cigana num bairro social em Porto Salvo, e comparou André Ventura a "aldrabões de feira que vendem banha da cobra".

Na agenda estava marcada uma reunião com a Associação de Moradores do Bairro dos Navegadores, em Porto Salvo (concelho de Oeiras), que rapidamente se transformou numa visita, até pela insistência da representante da comunidade cigana, Alexandra Gameiro, para que fosse conhecer a parte de baixo do bairro.

Foi nesse local, onde se concentram os moradores de etnia cigana, que Ana Gomes recebeu apoios mais entusiásticos e até aplausos, e em que as conversas giraram sempre à volta do adversário a Belém e líder do Chega, André Ventura, pela negativa.

"Temos de derrotar André Ventura", "André Ventura tem de cair", "é racista", "é outro Hitler" foram algumas das frases de vários moradores, que Ana Gomes não deixou sem resposta.

"Os portugueses não se podem enganar: o Hitler também foi eleito e quando chegou ao poder tratou de proibir os outros partidos e retirou a cidadania primeiro aos judeus, depois aos ciganos, depois aos negros. Já começou a dizer que eu não era bem-vinda", afirmou a candidata.

A diploma e ex-eurodeputada do PS prosseguiu: "Há uns aldrabões de feira como esse que vendem banha da cobra, o pior são os que estão escondidos atrás desses vendedores de banha da cobra, que esses têm um projeto de ditadura para o país", alertou.

Em resposta, recebeu garantias de voto quer de "toda a família" por parte de alguns dos moradores, quer até "de toda a etnia cigana", havendo quem assegurasse que a comunidade rondaria um milhão de pessoas.

"Temos de combater estes racistas que têm um projeto de voltar à ditadura, todos somos pessoas de bem e queremos liberdade e democracia", respondeu Ana Gomes.

A candidata recordou que André Ventura a chamou de "candidata cigana", classificação que disse ter recebido "com muita honra".

"Vou trabalhar para que a comunidade cigana se sinta integrada, para que todos se sintam portugueses, ciganos, ucranianos, africanos, precisamos de todos, reconhecendo a sua diversidade cultural", disse.

Apesar das várias promessas de voto, nem todos no Bairro dos Navegadores acreditavam na vitória da candidata.

"Pode descansar que a etnia cigana vai votar toda em si, a gente quer votar na Ana Gomes para ela ficar em segundo", prometeu António Romeiro, que só a meio da conversa com a candidata presidencial se lembrou de colocar a máscara cirúrgica que levava na mão.

Questionado por que razão não acreditava na vitória, respondeu: "O primeiro a gente sabe que ela não apanha, pelo menos o Ventura fica em último, havia de se unir a esquerda toda", apelou.

Ana Gomes aproveitou a deixa e criticou também, como faz em quase todas as suas intervenções públicas, o atual Presidente da República e recandidato ao cargo, Marcelo Rebelo de Sousa.

"O professor Marcelo Rebelo de Sousa também tem muita responsabilidade por ele [Ventura] estar onde está, muitas pessoas que apoiam esse partido estão zangadas, desencantadas", afirmou.

A candidata admitiu que se "algumas coisas melhoraram, designadamente com o Governo de António Costa, outras não se resolveram, não avançaram".

"Quando ele [Marcelo] nos Açores permite que o Governo se forme com o apoio desse partido racista, está mal, para que serve ser Presidente da República", questionou a militante do PS, partido que deu liberdade de voto nas presidenciais de 24 de janeiro.

António Romeiro não foi o único a aludir ao atual chefe de Estado como potencial vencedor. Também Nelson Tavares, um jovem morador do bairro nascido em Portugal e com pais cabo-verdianos, considerou que nestas eleições só há dois candidatos possíveis: "Ou o professor Marcelo Rebelo de Sousa, ou a senhora. Mas gosto muito da sua garra".

"Se quiser mais do mesmo vota nele, se quiser a mudança vota em mim", retorquiu a antiga eurodeputada.

A mesma dúvida assaltava uma moradora mais idosa, Maria do Carmo, de 82 anos: "Oxalá que ganhe, se não ganhar, que fique o outro que lá está".

A visita ao bairro, que Ana Gomes considerou "um exemplo de boa convivência entre comunidades, foi conduzida pela presidente da Associação de Moradores, Joana Gama, que destacou o apoio às cerca 400 famílias que aí residem durante a pandemia de covid-19, já tendo sido distribuídas mais de dez mil máscaras.

Entre os moradores que circulavam pelo bairro ao início da tarde nem todos as usavam, sobretudo os jovens, e Ana Gomes até pediu cuidado a umas adolescentes que a cumprimentaram à distância: "São muito bonitas, mas protejam-se", apelou.

As principais queixas feitas à candidata foram sobre a falta de transportes no bairro e de emprego, mas também houve um pedido original: um local para os reformados se poderem juntar a jogar às cartas.

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