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Correio da Manhã

Política
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Ana Gomes: "Presidente deu palco aos privados”

“Há muita gente interessada” nos bloqueios dos megaprocessos, “não é só por falta de meios”.
Octávio Ribeiro(octavioribeiro@cmjornal.pt) e João Maltez 18 de Janeiro de 2021 às 01:30
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"Neste momento de emergência nacional, precisamos que os privados ajudem", diz Ana Gomes em entrevista à CMTV

Ana Gomes, candidata à Presidência da República, defende uma urgente requisição civil dos meios de saúde privados para desanuviar a situação de rutura a que os hospitais públicos estão sujeitos no combate à Covid-19. Acusa o recandidato Marcelo Rebelo de Sousa por ter dado "palco aos privados na saúde".

CM – Os maiores hospitais do País estão em rutura. Já deveria ter avançado a requisição civil?

- Fui das primeiras pessoas a dizer que a requisição civil deveria ser acionada. Sei que o Governo bem tem vindo a tentar acordos para envolver a utilização da capacidade instalada dos privados e do setor social. Na sua maioria , sobretudo os privados, estão disponíveis para tratar doentes, mas não Covid.

- O Presidente da República parece não estar muito entusiasmado com a requisição civil. O que faria de diferente?

-Desde logo, respeitaria totalmente o reforço dos meios do SNS. O Presidente da República foi quem, de facto, deu o palco aos privados, mas o que precisamos é de nos juntar todos nesta situação de emergência. É o momento de pagar um custo justo aos privados e de nos reunirmos todos em torno do SNS. E cuidar de Portugal, da Saúde e de outros aspetos que o País precisa para sair da cepa torta. Isso passa pela valorização dos profissionais de Saúde. Quantos enfermeiros e quantos médicos não emigraram? Além dos que foram desviados para os privados.

- Coloca o ónus no Presidente da República sobre o atraso na requisição civil no atual estado de pandemia?

- Não tenho dúvidas nenhumas. Agora penso que essa tem sido a preocupação do Governo, que não quer contrariar o Presidente da República.

- Como viu [ontem] as extensas filas para o exercício antecipado do direito de voto?

- Por um lado, muito positivamente, porque mostra que os cidadãos e as cidadãs estão interessados em votar. Eu própria comovi-me: a minha sogra de 98 anos esteve na fila, na reitoria da Universidade de Lisboa para votar. E votou.

- Não deveria ter havido mais mesas de voto? Os portugueses deixam a desejar quanto ao planeamento?

- Deixe-me prestar homenagem ao poder local, que foi quem teve que aplicar estas medidas, determinadas pela CNE e MAI. E que fez um trabalho notável.

- Portanto, as filas são normais?

-Não. O problema foi o afluxo - mas havia meios de proteção. No entanto, aquilo que me preocupa é que muita gente, se calhar, não vai poder exercer o seu direito de voto. Desde logo, muitos dos nossos emigrantes, pela falta de regulação do voto por correspondência ou do voto eletrónico.

-Vamos abrir o dossiê da Justiça: o que forçaria Ana Gomes enquanto Presidente a República? O que seria mais urgente?

-Como Presidente da República, não me contentaria em fazer um discurso na abertura do ano judicial e depois nunca mais ligar. Foram delineadas 80 medidas no pacto para a justiça defendido por Marcelo Rebelo de Sousa. Mas nunca mais saíram do papel.

- Não é ao Executivo que precisamos de assacar responsabilidades?

- Com certeza, mas o Presidente da República tem que ser vigilante, tem que estar permanentemente a falar.

- António Costa foi ministro da Justiça. Acha que tem tido vontade de melhorar o setor?

- Se calhar, não houve pressão suficiente para melhorar a Justiça. Eu seria muito insistente, em articulação dela com o Governo, para expor o que faz falta, para expor as medidas que não funcionam, como os megaprocessos, que bloqueiam tudo.

- Os megaprocessos poderiam ser mega, se dessem resultados, se existissem meios. O Caso Monte Branco, leva dez anos; o BES vai para sete; o caso Marquês, de José Sócrates. O que faria enquanto Presidente para alterar esta realidade?

- A sensação que muitos de nós temos é que esses bloqueios não acontecem por acaso, não é só falta de meios. E, se calhar, há muita gente com interesse em bloquear a Justiça.

- Toma as críticas de José Socrates como um elogio?

- Acho significativo o facto de José Sócrates me atacar e defender o professor Marcelo Rebelo de Sousa. José Sócrates, sem dúvida, foi um dos organizadores do desvio de recursos do Estado. Como os chamados Esquemas de Regularização Tributária Especial, através dos quais Ricardo Salgado e muitos outros cometeram graves crimes contra os interesses económicos do País.

- Dois jornalistas foram vigiados numa caça às fontes. O que é que a Presidente Ana Gomes faria quanto a este caso?

- Desde já, sem conhecer muitos dos detalhes, expressei a minha opinião, porque é o próprio Estado de Direito que está em causa. Não há democracia sem imprensa livre e se não houver respeito pelo estatuto dos jornalistas, que é uma lei que os preserva no seu trabalho e proteção das suas fontes. Isto preocupa-me e ainda bem que a senhora Procuradora-Geral da República já determinou um inquérito.

- A última sondagem do CM/CMTV põe Ana Gomes a par de André Ventura. A que razões atribui este fenómeno?

- O fenómeno da extrema-direita não é só em Portugal. Vimos o que se passou no Capitólio, nos Estados Unidos, ou no Brasil. Nós temos que perceber que esta não é mais uma opinião: é um real perigo para a democracia. Distingo as pessoas que estão desencantadas de quem quer destruir a democracia.

- Ilegalizar um partido é um caminho que uma Presidente da República pode fazer?

- No Estado porquguês quem tem competência para tal é o Tribunal Constitucional. O que digo é que como Presidente que jura cumprir e fazer cumprir a Constituição, não se pode deixar de fazer um juízo político. O Presidente não pode fingir que esta é uma força como outra qualquer.

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