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Correio da Manhã

Política
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Catarina Martins considera "absolutamente sinistro" UE dar mais dinheiro a Erdogan

Coordenadora do BE sublinhou que "faz agora quatro anos que a UE fez um acordo com a Turquia, para a Turquia reter os refugiados".
Lusa 3 de Março de 2020 às 15:22
Catarina Martins
Catarina Martins FOTO: Carlos Barroso/Lusa
A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, considerou esta terça-feira, em Bruxelas, "absolutamente sinistro" a União Europeia admitir continuar a pagar ao regime turco liderado por Recep Erdogan para reter os refugiados e utilizá-los como "arma humana na sua guerra".

Em declarações aos jornalistas durante uma deslocação a Bruxelas para reuniões com a direção do grupo parlamentar do Grupo da Esquerda Unitária, do qual o Bloco faz parte, Catarina Martins apontou que "houve um tema que se sobrepôs hoje" na agenda, o da situação "absolutamente calamitosa" dos refugiados na fronteira entre a Turquia e a Grécia, e deplorou a atitude que a União Europeia tem tido face a esta crise.

A coordenadora do BE sublinhou que "faz agora quatro anos, em março, que a UE fez um acordo com a Turquia, para a Turquia reter os refugiados", e ao longo deste período "foram seis mil milhões de euros entregues à Turquia, para a Turquia fazer campos de concentração de refugiados, pois foi isso que aconteceu", e agora utilizá-los como "arma".

Lembrando que o seu partido sempre defendeu que o acordo celebrado com "o regime autoritário" de Ancara para dar resposta à crise dos refugiados "era uma péssima ideia", Catarina Martins sublinhou que, "quatro anos passados, seis mil milhões de euros depois, na verdade a situação da crise de refugiados está pior, e não melhor", e o regime de Recep Tayyip Erdogan "está a utilizar os refugiados como arma humana no seu conflito e para pressionar a UE sobre os ataques que quer fazer na Síria".

"Aquilo que nos dizem é que querem renovar o acordo com a Turquia. Ou seja, já foram entregues 6 mil milhões de euros ao regime de Erdogan, que utiliza os refugiados com arma humana na sua guerra, e a UE, em vez de alterar os seus procedimentos, em vez de, com os seus recursos, criar corredores seguros e criar acolhimento, o que está a tentar fazer é continuar a pagar a Erdogan para tratar os refugiados desta forma, e isto é sinistro, é absolutamente sinistro", declarou.

Defendendo a necessidade de as instituições da União Europeia tomarem o quanto antes uma "decisão clara sobre o acolhimento a estes refugiados", e reforçando que "os 6 mil milhões eram a verba necessária para criar corredores seguros para quem está a fugir da guerra e encontrar soluções para estas famílias absolutamente desesperadas", Catarina Martins lamentou que, em vez disso, as autoridades europeias estejam em constantes reuniões com as autoridades turcas e gregas, às quais também aponta o dedo, lamentando designadamente a "atuação muito violenta" do primeiro-ministro da Grécia para com os refugiados.

"Hoje mesmo, [Kyriakos Mitsotakis] veio dizer que tem o apoio de Donald Trump [o presidente norte-americano], e portanto nós sabemos o que isso quer dizer. Não é seguramente a preocupação com os direitos humanos", observou, manifestando por isso "enorme preocupação" quando ouve "as autoridades europeias a dizer que estão a apoiar a atuação do governo grego".

"É preciso apoiar a Grécia, sim. A Grécia tem de ter apoio porque está a sofrer toda a pressão da crise dos refugiados. Mas não é apoiar disparos contra refugiados, isso não pode ser seguramente", disse.

Comentando aquilo que classifica como "um dos piores momentos" da história europeia, a dirigente do BE enfatizou ainda que "a União Europeia não só fez há 4 anos este acordo absolutamente desastroso com a Turquia, como também foi acabando com todos os programas que faziam resgate de pessoas no Mediterrâneo e que combatiam as redes de tráfico de seres humanos", caso da operação Sophia.

"O que nos ofende e é inaceitável é saber que ontem mesmo morreu uma criança afogada a tentar chegar à Grécia, quando a Europa não tem nenhum programa de resgate neste momento no terreno. Nenhum, absolutamente nada. Travou tudo, para dar todos os seus recursos à Turquia, que neste momento está a utilizar os refugiados como arma. Isso é absolutamente inaceitável e é dos piores momentos da nossa história europeia", concluiu.

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