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Correio da Manhã

Portugal
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Assalto de revolucionários a banco da Figueira da Foz foi há 50 anos

Camilo Mortágua, pai das deputadas bloquistas Mariana e Joana, lembra golpe contra a ditadura.
16 de Maio de 2017 às 07:38
Camilo Mortágua recorda o assalto ao banco da Figueira da Foz, há 50 anos
Camilo Mortágua recorda o assalto ao banco da Figueira da Foz, há 50 anos
Hermínio da Palma Inácio, falecido em 2009, foi o mentor do assalto ao banco da Figueira da Foz
Camilo Mortágua recorda o assalto ao banco da Figueira da Foz, há 50 anos
Camilo Mortágua recorda o assalto ao banco da Figueira da Foz, há 50 anos
Hermínio da Palma Inácio, falecido em 2009, foi o mentor do assalto ao banco da Figueira da Foz
Camilo Mortágua recorda o assalto ao banco da Figueira da Foz, há 50 anos
Camilo Mortágua recorda o assalto ao banco da Figueira da Foz, há 50 anos
Hermínio da Palma Inácio, falecido em 2009, foi o mentor do assalto ao banco da Figueira da Foz
Cinquenta anos depois do assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, para financiar ações contra a ditadura, o momento é recordado por um dos protagonistas, Camilo Mortágua, como de viragem na necessidade de combater o regime.

"Hoje, quando penso nesse assunto, acho que o mais importante não foi fazer a Figueira da Foz, o mais importante foi o 'click' em que chegamos a um momento e a gente diz, sim senhora, mesmo que a minha vida acabe ali temos que ir buscar o dinheiro para fazer a revolução", afirmou à Lusa Camilo Mortágua, 84 anos, um dos operacionais do assalto de 17 de maio de 1967.

Camilo Mortágua, pai das deputadas do Bloco de Esquerda Joana e Mariana Mortágua, já tinha participado, em 1961, em atos de denúncia da ditadura de Oliveira Salazar, como o assalto ao paquete Santa Maria e o desvio de um avião para espalhar panfletos sobre Lisboa e o Alentejo, o que o obrigou a viver na clandestinidade: primeiro no Brasil e depois em França.

É em Paris que em conjunto com outros revolucionários decide, já em 1967, vir para Portugal levar a cabo um assalto a um banco que lhes permitisse resolver "um problema intransponível": falta de dinheiro para realizar novas ações que contribuíssem para o derrube do regime.

Camilo Mortágua, na altura com 34 anos, participou no assalto à sucursal do Banco de Portugal da Figueira da Foz juntamente com Hermínio da Palma Inácio (então com 46 anos), António Barracosa (25) e Luís Benvindo (25).

Mortágua disse já não se recordar muito bem tendo ainda assim referido que 80% do capital -- mais de 29 mil contos, valor que equivaleria a cerca de dez milhões de euros hoje, segundo a Pordata - não podia ser utilizado, porque essas notas ainda não tinham entrado em circulação e puderam ser anuladas pelo Banco de Portugal. "Sobraram sete a oito mil contos [2,4 a 2,7 milhões de euros, segundo a conversão da Pordata]".

Perpetrado o assalto, em pleno dia e sem violência, os quatro operacionais conseguem escapar de Portugal com o dinheiro e chegaram a Paris dois dias depois.

"E no dia 19 [de maio] estávamos em França quando, por volta das 11 da manhã, soubemos que quem tinha feito a operação era uma coisa chamada LUAR (Liga de Unidade e Ação Revolucionária)", disse referindo-se à surpresa dos operacionais com a notícia da revindicação da autoria do assalto.

Um episódio que Mortágua não esqueceu e que continua a merecer a seu reparo: "Precisávamos de dinheiro para criar uma organização, não era ter uma organização para ir buscar o dinheiro, era ao contrário, e houve quem quisesse aproveitar a oportunidade de haver dinheiro e ainda não haver a organização para tomar conta dela".

Contudo, a LUAR viria mesmo a ser criada um mês depois, a 19 de junho, sob a liderança de Palma Inácio e envolvendo outros oposicionistas a residir em Paris.

Alguns dos fundadores da organização envolveram-se em polémicas e em acusações de desvio de fundos que chegaram a tribunal nos anos 90, questões que Mortágua resumiu sem ser muito concreto: "Quer dizer, há sempre gente que é útil fazendo em favor de quem está manobrando para se aproveitar do sacrifício dos outros, umas vezes a história salva-os outras vezes a história condena-os".

Insistindo que a missão do grupo que "fez a Figueira da Foz" era a de poder "ser uma espécie de agulha mortal, [dar] umas picadas no sistema", Camilo Mortágua concluiu que "o grande golpe no regime é que nesta sociedade [a do Estado Novo] se chegue a admitir um ato destes e se pratique, que a revolta, que a motivação chegue a esse ponto e atinja esse patamar".


As contrariedades dos revolucionários 

A visita do papa a Fátima, uma pista inundada ou excesso de carga na avioneta foram contrariedades sofridas há 50 anos pelos revolucionários que assaltaram o Banco de Portugal na Figueira da Foz.

Em pleno regime salazarista, o país católico recebeu o papa Paulo VI em Fátima no 13 de maio de 1967, ao mesmo tempo que um grupo de oposicionistas preparava o assalto à sucursal do Banco de Portugal na Figueira da Foz, distrito de Coimbra.

"Quando o papa disse adeus, as forças [de segurança] esvaziaram o espaço [a região centro] e ficámos à vontade", contou Camilo Mortágua, um dos protagonistas do assalto, recordando que aquela zona estaria fortemente vigiada na altura da visita do chefe da igreja católica, pelo que a ação contra o banco ocorreria em 17 de maio de 1967.

Camilo Mortágua, na altura com 34 anos, participou no assalto ao Banco de Portugal juntamente com Hermínio da Palma Inácio (então com 46 anos), António Barracosa (25) e Luís Benvindo (25).

Além de terem de esperar pela despedida papal, "intrometeu-se a chuva", que trouxe lama à pista do aeroclube de Cernache (Coimbra), prosseguiu Mortágua, numa entrevista à Lusa em sua casa, no Alvito, Beja.

O plano dos operacionais que acabou por ser concretizado com sucesso era o de, após o assalto, seguiriam de carro da Figueira da Foz até Cernache (mais de 60 quilómetros), de onde partiriam numa avioneta até perto de Lagos, e de novo de carro até uma zona fronteiriça na região de Mértola.

Para que ao chegarem ao aeródromo não levantassem suspeitas, o líder do grupo, Hermínio da Palma Inácio (1922-2009), que era piloto, já se tornara conhecido no local por anteriormente se ter feito passar por um arqueólogo brasileiro a estudar as ruínas de Conímbriga.

O sucesso da operação também dependia do corte de comunicações na Figueira da Foz: "É evidente que se não tivéssemos conseguido [isolar a cidade do ponto de vista das comunicações] também não o faríamos [o assalto], era condição essencial termos duas horas de avanço na retirada". Neste caso, não se registaram contrariedades.

Mas enfrentaram um contratempo durante o assalto, realizado pelas 15h00, com recurso a uma arma autêntica e várias de plástico: estava ausente do banco um gerente que possuía uma das chaves que permitiam abrir o cofre, pelo que tiveram de esperar pelo seu regresso.

"Foi tudo sereno e calmo. Eu, no meu caso, saí. É estranho sair [assim] de um banco, uma pessoa desconhecida com um saco às costas e ninguém diz, o que é que traz. Um banco não vende batatas, mas eu saí e os outros colegas também, saímos com os sacos às costas", relatou Mortágua, de 84 anos.

"Eu, pela minha parte, cruzei o polícia e disse boa tarde, está bom, passou bem", contou.

Para o antigo operacional, só há uma explicação para esta passividade: "É essa época, esse tempo e esse clima, quem é que imagina que uma coisa dessas se pode fazer?"

Chegados ao aeródromo de Cernache, outro contratempo: devido ao excesso de carga, "os sacos com as notas tinham que ir em cima dos quatro" e o piloto Palma Inácio levava "um saco nos braços", lembrou Mortágua.

"O descolar... ninguém tinha a certeza que [a avioneta] ia descolar, vamos lá ver se isto descola, mas toda a gente preferia tentar do que ficar, de resto, sabíamos que se descolasse teríamos driblado a PIDE [polícia política do regime]", concluiu.

Quando a polícia descobrisse o desaparecimento do avião, pensaria que os homens tinham saído do país. "Quem é que vai buscar um avião para continuar dentro do país?", disse Camilo Mortágua.

Como planeado, voaram até perto de Lagos, onde deixaram a aeronave, rumando de carro pelo Alentejo.

Com os ouvidos postos no rádio, saíram de carro de madrugada para Espanha pela zona de Mértola: "Não vimos um polícia sequer".

Também neste caso, ocorreu um episódio caricato: "Tínhamos colocado uma pessoa que conhecia bem aquele território com um 'walkie talkie' para avisar se havia controlo da ponte (...). Chamámos e ninguém respondeu e um de nós foi a pé fazer o reconhecimento do terreno e fomos encontrá-lo. Tinha esperado tanto tempo que adormeceu".

Passada a fronteira portuguesa com Espanha, atravessaram o país vizinho de carro. A exceção foi a zona fronteiriça com França, ultrapassada "a salto" pela montanha com os sacos do dinheiro às costas. Do outro lado, tinham carros à sua espera.

Os homens e o dinheiro chegaram a Paris em 19 de maio

Em Portugal, foram feitas prisões de cúmplices deste assalto e os principais réus julgados à revelia em tribunal comum, a forma de o regime não reconhecer o caráter político ao crime.

Camilo Mortágua foi condenado a 20 anos de prisão, a pena mais pesada, Palma Inácio a 16, e António Barracosa e Luís Benvindo a 13 anos.
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