Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
3
Ao minuto Atualizado às 19:03 | 27/10

José Miguel Júdice arrasa Rui Pinto no julgamento: “Esse senhor, a quem só posso chamar ladrão”

Decorreu esta terça-feira a 17ª sessão do julgamento do hacker.
Pedro Zagacho Gonçalves(pedrogoncalves@cmjornal.pt) 27 de Outubro de 2020 às 09:51
Rui Pinto
Rui Pinto FOTO: David Cabral Santos
Decorre esta terça-feira a 17.ª sessão do julgamento de Rui Pinto, no âmbito do processo Football Leaks, no qual o hacker português está acusado de 90 crimes, incluindo tentativa de extorsão, sabotagem informática, violação de correspondência, acesso ilegítimo e acesso indevido.

Na sessão desta terça-feira serão ouvidos vários advogados da PLMJ que terá sido um dos alvos de Rui Pinto. Segundo o MP, Rui Pinto terá acedido aos sistemas da sociedade de advogados para retirar documentos racionados com vários processos, nomeadamente o caso E-Toupeira, que envolve o Benfica, assim como alegadamente acedeu e divulgou caixas de email de advogados e funcionários da PLMJ.

Durante a manhã serão ouvidos como testemunhas Paulo Farinha Alves, Miguel Reis, Sandra Lopes, António Faria e João Ramalho.
Já após a pausa para almoço, durante a tarde desta terça-feira, serão ainda ouvidos José Miguel Júdice (um dos fundadores da PLMJ), o ex-ministro Nuno Morais Sarmento (à data advogado na PLMJ, assim como as advogadas Inês Pinto da Costa e Carmen Vásquez.

Miguel Reis só será ouvido esta quarta-feira à tarde, informa o oficial de justiça.
Ao minuto Atualizado a 27 de out de 2020 | 19:03
17:13 | 27/10
"Circulava no seu email matéria sobre futebol?", perguntou a procuradora do MP. "Não a única ligação era o meu apelido, mas não está relacionado", disse Inês Pinto da Costa, referindo-se ao presidente do FC Porto.
"E Luanda Leaks?", voltou a questionar a procuradora. "É um tema coberto por sigilo...", respondeu a testemunha.

Logo depois, a defesa de Rui Pinto questionou a advogada de Isabel dos Santos. Confrontada com o perfil que tem na página da PLMJ, admitiu estar ativa "no mercado de Angola e Moçambique, países africanos onde a PLMJ está".
Foi mostrado a Inês Pinto da Costa uma cópia das pastas do seu computador, encontrados nos discos apreendidos a Rui Pinto, que a advogada confirmou serem suas. Depois, foi confrontada com uma notícia sobre o caso Luanda Leaks, referindo Luísa Teixeira da Mota, advogada de Rui Pinto, que já teria existido um anterior acesso às referidas pastas, uma vez que a PLMJ apresentou uma queixa contra jornalistas por causa do caso. "Sim, mas não vou responder a perguntas sobre notícias de jornal", disse Inês Pinto da Costa, que confirmou que a notícia era sobre Isabel dos Santos e que haveria queixa relacionada com a notícia que lhe foi mostrada.
17:06 | 27/10
Finalmente, foi ouvida Inês Pinto da Costa, advogada de Isabel dos Santos, que recusou muitas vezes, durante o seu testemunho, confirmar que representava ou representou em dado momento a empresária angolana, escudando-se no sigilo profissional. Advogada na PLMJ desde 2018, admitiu que foram documentos publicados, alegadamente por Rui Pinto, que estariam no seu computador, mas também noutros da sociedade de advogados. "Como se regeram a temas profissionais, não posso dizer", respondeu Inês Pinto da Costa a uma pergunta da procuradora sobre o teor e tema dos documentos divulgados.

A procuradora Marta Viegas perguntou como soube da publicação e a advogada explicou que viu "a referência em alguns jornais", que não diziam a fonte dos documentos divulgados.

"Enquanto advogada, é uma violação de todos os princípios. Como pessoa é só violação", considerou sobre a alegada intrusão no seu email e pastas.
17:00 | 27/10
Questionado em seguida pelo advogado de defesa de Rui Pinto, Francisco Teixeira da Mota, que se alguma coisa fosse publicada, viria ao seu conhecimento, voltou a referir José Miguel Júdice: "Não pesquiso coisas sobre mim". A testemunha aproveitou para mandar uma ‘boca’ a Teixeira da Mota: "Deu-me a honra de aceitar ser meu advogado numa queixa apresentada por um procurador e não gostaria de ver a nossa comunicação publicada...". O advogado de Rui Pinto assentiu e a juíza Margarida Alves comentou: "Não há nada como um bom exemplo..."
16:51 | 27/10

José Miguel Júdice relatou que foi informado por outro dos sócios da PLMJ, Pais Antunes, do alegado ataque, e que só depois que as suas pastas e emails tinham sido espiadas. "Por esse senhor, a quem só posso chamar ladrão", disse a testemunha sobre Rui Pinto, sublinhando a "grande violência moral e psicológica com que veio furtar a documentação".

Admitiu ter estado ligado ao futebol, tendo sido advogado do Benfica no mandato de Vilarinho, mas que desde então não está ligado ao mundo desportivo. Respondeu também à procuradora que "não tinha nenhuma pasta com o nome de Isabel dos Santos", mas admite que tratou de processos relacionados com a empresária angolana. "O cliente era empresa da qual ela era controladora, em processos de arbitragem", explicou.

Sobre o caso Football Leaks, e o papel de Rui Pinto como eventual denunciante, Júdice foi direto e criticou o "outsourcing de investigação criminal e recolha de prova". "Não posso admitir, enquanto cidadão, em qualquer circunstância, mesmo com aparentes motivos nobres, que façam o que foi feito comigo", considerou o advogado.

"Qualquer pessoa, se esse senhor fez, pode fazer o mesmo, se invocar interesse geral, a entrada no cerne mais íntimo da personalidade", disse a testemunha.
16:42 | 27/10
Depois, testemunhou José Miguel Júdice, advogado fundador da PLMJ, que saiu da sociedade já este ano. Contou ao tribunal que, na altura dos factos tinha um "arquivo virtual" na sua caixa de email profissional e nas pastas do computador do escritório. "Era a minha memória, toda a informação e documentos pessoais e profissionais estavam no sistema, acessíveis através do meu email. Coisas íntimas, mensagens com a minha mulher... Tive cancro da próstata e estavam lá todas as análises, viagens, hotéis, o que paguei, os meus impostos, tudo", afirmou.

Questionado pela procuradora se viu algum documento seu publicado, defendeu que não tem acompanhado o processo. "Nunca vi nada, mas com franqueza é tema do qual me tenho afastado mentalmente. Não tenho procurado informar-me sobre o caso", disse a testemunha, ouvida também por Skype, que no entanto relatou temer que os documentos alegadamente roubados possam aparecer "em qualquer momento". "Todos os documentos da minha vida, até desenhos do meu neto!", lamentou José Miguel Júdice.
16:34 | 27/10
Seguiu-se testemunho do advogado Nuno Morais Sarmento, na PLMJ há mais de 25 anos. Confirmou à procuradora a sua conta de email e referiu que a usava para efeitos "pessoais e profissionais". Questionado pela procuradora Marta Viegas, sobre se algum documento seu foi publicado após a intrusão, referiu o seu envolvimento na defesa do ex-espião Jorge Silva Carvalho, no processo das Secretas: "Nem consigo confirmar, penso que não mas foram publicados emails de Jorge Silva Carvalho e houve emails desse cliente publicados que estavam também no computador do Dr. João Medeiros", afirmou, admitindo não saber "de onde saíram" e que a informação divulgada "estava em Segredo de Estado".

A testemunha falou em "devassa, violação da privacidade e negou que tratasse de processos relacionados com desporto ou o caso Luanda Leaks. Admitiu que o alegado ataque de Rui Pinto se tenha devido com a "dimensão pública" do nome do advogado.
16:20 | 27/10
Antes do episódio com problemas técnicos na ligação ao Skype, foi ouvida a secretária Carmen Vásquez. Relatou que tinha no email, alegadamente acessado por Rui Pinto, "correspondência privada entre advogados e entre advogados e particulares, naturalmente sujeitos a sigilo". A testemunha contou ter também documentos pessoais na caixa de email e nas pastas do sistema da PLMJ, como fotografias da família. "Que interesse poderia ter alguém em aceder à sua caixa de email?", questionou a procuradora Marta Viegas. "Não sei dizer, para ter acesso a outras caixas, talvez", disse a testemunha, já que passavam por ela várias comunicações sigilosas entre advogados e clientes da sociedade.
14:53 | 27/10
É retomada a sessão.

Os juizes do coletivo registam problemas a ligarem o skype para ouvirem Nuno Morais Sarmento. "É uma pena não termos ninguém na sala que percebe de informática", diz um dos juízes e Rui Pinto ri-se, visivelmente divertido com a ‘boca’. O tribunal irrompe em gargalhadas.
13:34 | 27/10
A sessão foi interrompida para almoço. José Miguel Júdice e Nuno Morais Sarmento pediram para serem ouvidos por Skype e o tribunal acedeu ao pedido. Serão ouvidas também a advogada Inês Pinto da Costa e a secretária Carmen Vásquez.
13:31 | 27/10
Foi ouvido em seguida António Faria, de 52 anos, que é coordenador da área de infra-estruturas informáticas da PLMJ desde 2002. A pedido da procuradora Marta Viegas, explicou que a sociedade de advogados tem entre 80 a 90 servidores e cerca de 400 máquinas (entre computadores de secretaria e portáteis). Detalhou como funciona a atribuição de credenciais e a entrada nos sistemas.

Recordou que, após o ataque, foram publicados documentos alegadamente roubados à PLMJ no blogue Mercado do Benfica.

À procuradora, a testemunha explicou que, internamente, chegaram a desconfiar do técnico de informática Luís Fernandes, a quem Rui Pinto terá roubado os acessos ao sistema da PLMJ, através de um esquema de ‘phishing’.

"Tínhamos detetado a conta. Tudo apontava para que fosse quem fazia o acesso indevido... A conta era dele", justificou António Faria, que contou que só percebeu a verdadeira dimensão da invasão dos sistemas quando foi confrontado pela PJ. O coordenador da área de informática da PLMJ também revelou em tribunal que, na sociedade de advogados, a página Mercado do Benfica era consultada numa "sala segura", para que fosse feita correspondência entre os documentos alegadamente roubados e os que eram publicados no blogue.
11:53 | 27/10
Paulo Farinha Alves foi ouvido depois. O advogado, de 48 anos, está na PLMJ desde 1994, e diz à procuradora que está relacionado com Direito Desportivo. "Presto alguma assessoria a federações, altezas, clubes...", explica a testemunha.

Sobre o alegado ataque, atribuído a Rui Pinto, lembrou em tribunal: "Não tínhamos noção do impacto. Havia uma situação muito complexa... É uma vida inteira de contactos, documentos de clientes, da nossa vida financeira... uma tensão muito grande". O advogado disse que temia que todo o seu conteúdo da caixa de email fosse divulgado, à semelhança do que se passou com o colega João Medeiros.

Paulo Farinha Alves falou de "documentos a circular alegremente" no blogue Mercado do Benfica, e referiu que um dos seus emails "esteve nesse circuito". O coletivo questionou se o advogado trabalhava em assuntos relacionados com o Luanda Leaks, e a testemunha escudou-se no sigilo profissional: "É matéria de sigilo... Mas não vi nada meu publicado", disse Paulo Farinha Alves sobre o tema
11:26 | 27/10
"O que aconteceu não é uma brincadeira", considerou João Ramalho sobre o caso. Questionado pela defesa de Rui Pinto sobre a divulgação de documentos feitos no Football Leaks defendeu: "Não me agrada minimamente este tipo de operações que foram divulgadas. Mas há uma ponderação de valores e não vale tudo! Há um valor maior que é o da nossa liberdade". Admitindo ser do Benfica, disse sobre as divulgações que envolvem as águias: "Não me revejo naquele tipo de atitudes. Não pode acontecer nem no futebol, nem nas empresas, não é uma selva! Há hierarquia de valores à luz da Lei!".

Disse não ter clientes relacionados com o futebol mas admitiu que, como dirigia a área de Direito Fiscal, alguma matéria que envolvesse Isabel dos Santos, no caso Luanda Leaks, poderia ter sido retirada do seu email.

"Nunca trabalhei a engenheira Isabel dos Santos, mas hei de ter vários emails dessa natureza", admitiu à juíza, recordando-se de uma notícia da altura que citava documentos divulgados, e que a testemunha indica como possível que tenham sido retirados da sua caixa de correio electrónico.
11:16 | 27/10
Questionado sobre o impacto do alegado ataque à sua caixa de email considerou: "é suporte de toda a vida, pessoal e profissional. Tenho 3 filhos, escolas, médicos. Tenho uma área pessoal no email, que tem informação dos meus filhos, seguros, coisas do carro. E na parte profissional tudo dos clientes. Houve um grande valor que se investiu em apoio e melhoria do sistema informático. Foram gastos milhares e milhares de euros", referiu. O advogado lamentou que tenham havido impactos na "gestão e saída de clientes internacionais" da sociedade de advogados.
11:03 | 27/10
João Ramalho foi o primeiro a prestar depoimento. Saiu da PLMJ após 19 anos, em 2019, após o alegado ataque de Rui Pinto.

Explicou que só soube do ataque e divulgação de documentos (alguns possivelmente seus) depois, quando foi questionado no DCIAP, e quando foi alertado pelos técnicos de informática que efetuaram o relatório após a intrusão nos sistemas da sociedade.

"A minha caixa de email foi hackeada", referiu, respondendo à procuradora Marta Viegas que tinha conhecimento que a sua caixa de email foi encontrada por inteiro copiada num dos discos apreendidos a Rui Pinto.
Ver comentários