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Correio da Manhã

Portugal
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Incineradora rebentou

A única incineradora de resíduos hospitalares perigosos de Portugal, localizada no Parque de Saúde de Lisboa, nos terrenos do Hospital Júlio de Matos, explodiu na quinta-feira passada, provocando o pânico nos trabalhadores. Desde então, o processo de tratamento de resíduos hospitalares está suspenso naquela unidade.
29 de Junho de 2006 às 00:00
O Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH), empresa responsável pela incineração, confirma o incidente e garante que já foi aberto um inquérito para apurar as causas.
Lurdes Hill, do conselho de administração do SUCH, instalado na Avenida do Brasil, em Lisboa, explica ao CM que “este tipo de situações por vezes acontecem quando algum material é colocado incorrectamente nos contentores depois recolhidos pela empresa”. “Suspeitamos que tenha sido essa a causa deste problema. Ainda não sabemos se terá sido exactamente isso, mas já foi aberto um inquérito para apurar a origem”, acrescentou, tranquilizando: “Não houve feridos. Foi mais o barulho do que os danos provocados.”
A situação não deixou, porém, de preocupar os trabalhadores. Como é do conhecimento geral que a incineradora só trata os resíduos do ‘Grupo Quatro’, considerados os mais perigosos, o enorme estrondo provocou inquietação. No entanto, Isabel Santiago, do gabinete de comunicação do SUCH sossega, dizendo que não há qualquer risco para a saúde pública.
Neste momento, a incineradora do Parque de Saúde de Lisboa não está em funcionamento, uma situação que obriga à exportação dos resíduos para o estrangeiro – Bélgica e Espanha são, em regra, o destino. A responsabilidade do transporte dos resíduos hospitalares é do SUCH.
Os valores envolvidos nesta operação não foram revelados. No entanto, em Março de 2005, foram gastos cerca de 100 mil euros na exportação devido a uma paragem na incineradora.
“Naturalmente, existe um plano de contingência para as situações de avaria, que prevê a exportação dos resíduos para Espanha e Bélgica”, disse Lurdes Hill, confirmando a paragem da unidade: “Não está a funcionar. Como em todos os casos semelhantes, existe um determinado período em que se faz um levantamento do que se passou. Como somos uma entidade certificada, já foram accionados todos os mecanismos para resolver o problema.”
O SUCH recebe resíduos hospitalares de todo o País e, além da incineradora do Parque de Saúde de Lisboa, tem mais dois centros de autoclavagem, um em Beja e outro em Vila Nova de Gaia, recentemente inaugurado. Estas unidades servem para proceder ao tratamento de resíduos de ‘Grupo Três’ (resíduos biológicos contaminados ou suspeitos de contaminação) que, garante o gabinete de informação do SUCH, não são incinerados em Lisboa.
'MERCADO COMUM' DOS HOSPITAIS
O Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH) foi criado em 1965, entrando em funcionamento um ano depois. A ideia que presidiu à sua criação passava por libertar os hospitais de um conjunto vasto de actividades paralelas, em detrimento de uma maior dedicação aos doentes. Com mais de 1400 clientes, entre instituições públicas e privadas, o SUCH tem a seu cargo tarefas como a manutenção de equipamentos, lavagem de roupa hospitalar, limpeza, alimentação e, obviamente, gestão e tratamento dos resíduos hospitalares. Para desempenhar este papel, o serviço conta com mais de 2200 trabalhadores, distribuídos de Norte a Sul nas instalações dos hospitais e clínicas. Foi objecto de polémica no tempo em que Leonor Beleza teve a seu cargo o Ministério da Saúde.
LOCALIZAÇÃO PREOCUPA QUERCUS
O facto de a incineradora estar localizada no centro de Lisboa, mais concretamente na Avenida do Brasil, próximo do Aeroporto da Portela, continua a ser um dos aspectos mais preocupantes para a associação ambientalista Quercus. Em Dezembro de 2005, responsáveis manifestaram-se contra a emissão de poluentes que, no ano anterior, ultrapassaram os limites legais. Ao CM, Rui Berkmeier diz que o funcionamento da incineradora está melhor do que há uns anos, mas “a localização continua a preocupar”. Aquando da aprovação do Estudo de Impacte Ambiental, por parte do Instituto do Ambiente, a Quercus alertou para a proximidade “de uma unidade de incineração de resíduos hospitalares perigosos numa área que inclui instalações de cuidados de saúde, com uma forte envolvente de habitação, para além da proximidade de um infantário”. No documento, a associação ambientalista refere ainda a proximidade do Aeroporto da Portela.
RESÍDUOS
GRUPO I
Equiparados a lixo urbano, não apresentam exigências especiais no tratamento. Exemplo: papel e cartão, entre outros.
GRUPO II
Resíduos não perigosos – não estão sujeitos a tratamento específico, podendo ser equiparados a urbanos. Exemplo: fraldas ou gessos.
GRUPO III
Risco biológico – resíduos contaminados ou suspeitos de contaminação, susceptíveis de incineração ou de outro pré-tratamento eficaz, permitindo posterior eliminação como resíduo urbano. Exemplo: material em contacto com sangue.
GRUPO IV
Resíduos específicos de vários tipos de incineração obrigatória. Exemplo: material cortante e perfurante, como agulhas ou catéteres.
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