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Correio da Manhã

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O passado do novo suspeito do caso Maddie: abandonado pela mãe, 17 crimes no cadastro e suspeito de raptar menina alemã

Conheça os antecedentes de Christian Bruecker e como o seu percurso de vida se encaixa na investigação da Operação Grange.
Pedro Zagacho Gonçalves 5 de Junho de 2020 às 19:32
Conheça os antecedentes de Christian Bruecker e como o seu percurso de vida se encaixa na investigação da Operação Grange.
Por Pedro Zagacho Gonçalves 5 de Junho de 2020 às 19:32

Foi esta quarta-feira que surgiu a notícia que causou impacto em todo o mundo: 13 anos depois do desaparecimento de Madeleine Mccann, desaparecida na Praia da Luz, Lagos, em 2007, as autoridades têm um novo suspeito de envolvimento no desaparecimento da menina inglesa. A polícia britânica, em simultâneo com as autoridades alemãs, revelaram que o suspeito, de 43 anos, é alemão e viveu em Portugal de forma intermitente entre 1995 e 2007, em zona muito próxima da Praia da Luz. Foi feito o apelo, pela Scotland Yard e pala Bundeskriminalamt (BKA) por quaisquer informações sobre o suspeito. A sua identidade foi entretanto revelada: Christian Bruecker, preso na Alemanha e com cadastro por vários crimes, entre os quais abuso sexual de menores.

Os investigadores já traçaram o perfil do suspeito e agora tentam encaixar as peças do puzzle, refazendo os passos de Bruecker quando esteve em Portugal, na esperança de conseguirem desvendar o mistério do caso de desaparecimento de Madeleine McCann.

A génese de um predador – Os crimes da juventude

O passado de Christian Brueckner está envolto em mistério e pouco se sabe sobre a infância do suspeito. Sabe-se que nasceu em 1976, na localidade de Wurtzburgo e, segundo a imprensa alemã, o seu nome de nascimento é Fischer. O alemão terá sido abandonado pela mãe ainda bebé e viveu num orfanato até ser adotado pela família Brueckner, ainda criança, assumindo o nome pelo qual hoje é conhecido em todo o mundo, pelas piores razões.

Logo em 1992 há registo do primeiro crime de Brueckner. Na altura com 15 anos, o alemão é detido por suspeitas de um roubo precisamente na sua cidade natal, Wurtzburgo. Acabaria condenado pelo roubo naquele que é o primeiro crime de uma longa lista que consta no cadastro do suspeito do desaparecimento de Maddie. Segundo as autoridades alemãs, são mais de 17 crimes.

Ainda menor, com 17 anos, em 1994 Christian é condenado pela primeira vez por um crime de abuso sexual de crianças. Segundo o Der Spiegel, Christian atacou uma menina de seis anos num parque infantil. Terá agarrado, tocado e apalpado a criança até está começar a chorar e gritar por ajuda. Antes de fugir do local, ainda baixou as calças e exibiu os genitais a um rapaz de nove anos que estava no mesmo local, escreve o ‘Bild’.

Acaba condenado a dois anos numa casa de correção, mas cumpre apenas parte da sentença. Será nesta altura que, com uma namorada (alegadamente uma menor de idade de ascendência kosovar), e acabado de tirar a carta de condução, Christian decide vir para Portugal.

17

anos
Em 1994 Christian é condenado pela primeira vez por um crime de abuso sexual de crianças. Atacou uma menina de seis anos num parque infantil e, antes de fugir, exibiu os genitais a um rapaz de nove anos.

A vida de ‘Playboy’ em Portugal – Carros, roubos e tráfico de droga

Christian chega a Portugal em 1995 com a namorada. O Bild cita que o suspeito terá dito a amigos na altura: "Não sabíamos nada sobre Portugal. Escolhemos Lagos porque gostámos muito do nome da localidade. Tínhamos uma tenda e acampávamos no meio do mato".


O alemão acaba por se fixar na zona da Praia da Luz, numa casa delapidada em zona remota. Os amigos contam que não havia muita decoração na casa "apenas o essencial, que se espera na casa de um homem solteiro". Dizia aos amigos mais próximos que trabalhava como empregado de mesa e ‘faz-tudo’. Na realidade era traficante de droga e aproveitava o acesso que tinha a hotéis e restaurantes para efetuar roubos. Terá assaltado quartos em algumas unidades hoteleiras do Algarve, mas sempre terá escapado às autoridades portuguesas. O Bild admite que, nesta altura, o alemão terá sido apanhado a roubar combustível e que também vendia bens roubados.

"Não sabíamos nada sobre Portugal. Escolhemos Lagos porque gostámos muito do nome da localidade. Tínhamos uma tenda e acampávamos no meio do mato"

Christian Brueckner
Com o dinheiro que fazia comprou o Jaguar XJR6 de 1993, segundo os amigos "o seu bem mais valioso". Este veículo é agora uma das provas na investigação da denominada Operação Grange. O carro dava nas vistas, mas Christian Brueckner mantinha-se reservado. Falava pouco com os vizinhos, que o descrevem como "um vendedor de carros que estava sempre zangado e acelerava pelos caminhos de terra batida", segundo o Daily Mail.
Jaguar de Christian Bruecker
Jaguar de Christian Bruecker
Jaguar de Christian Bruecker
Jaguar de Christian Bruecker

Fez uma vida desafogada, acredita-se que com a mesma namorada - os amigos referem que Christian sempre teve namorada -, durante 10 anos na zona da Praia da Luz, continuando a vida de crime. É em 2005 que a cronologia desta investigação volta a ter um dado da máxima importância: um novo caso de crime sexual.

Christian torturou e violou mulher de 72 anos no Algarve

Em setembro de 2005, o alemão invade a casa de uma turista norte-americana, de 72 anos, viúva, na zona de Lagos. Entra em casa da mulher de cara tapada, com um sabre de 30 centímetros na mão para a assustar. Ata as mãos e pés da vítima, tapa-lhe os olhos e a boca e agride-a violentamente com um bastão metálico. Depois violou-a durante 15 minutos. Todo o crime foi gravado. "Senti que ele gostou de me torturar", contou a vítima aos investigadores. Christian ainda roubou cerca de 100 euros e um computador à mulher antes de fugir.

Christian só viria a ser julgado por este crime em 2019.

"Senti que ele gostou de me torturar"

Vítima de Bruecker, violada aos 72 anos
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A casa onde ocorreu a violação
Em abril de 2007, já sem namorada, Christian muda-se para a carrinha VW Vestefália branca e amarela. A casa onde o alemão vivia é limpa, mas deixa uma caixa com "roupas exóticas" e perucas na habitação.
VW de Christian Brueckner
VW de Christian Brueckner
VW de Christian Brueckner

No dia 3 de Maio de 2007, enquanto os pais jantavam com amigos no Tapas Bar, a escassos metros do apartamento 5A do Ocean Club, Maddie desaparece do quarto onde dormia com os irmãos. Ao mesmo tempo, entre as 19h32 e 20h02, Christian (com o número + 351 912 730 680) recebe uma chamada de outro número português (+351 916 510 683).

No dia seguinte, 4 de Maio, Christian mudou o nome no registo do seu ‘precioso’ Jaguar.

Nos dias que se seguem, testemunhas vêm a relatar à PJ a presença de suspeitos, de cabelo claro, que atuavam de forma suspeita próxima do resort de onde desapareceu Maddie, nos dias anteriores ao desaparecimento. Surgem os primeiros retratos robô segundo estes relatos, que têm algumas semelhanças com Bueckner.


Pouco tempo depois Christian regressa à Alemanha.
Retratos robô feitos na altura do desaparecimento de Maddie
Christian Brueckner
Retratos robô feitos na altura do desaparecimento de Maddie

Novos crimes na Alemanha e viagens ocasionais a Portugal

Christian regressa a Alemanha e instala-se em Augsburgo. Segundo um conhecido, Alexander Bischof, Christian mantinha o Jaguar, que foi tema inicial de conversa quando se conheceram "através de um amigo em comum". Em entrevista ao Daily Mail, o homem conta que Christian lhe pediu ajuda para arranjar um apartamento. O homem terá oferecido o seu sótão, onde o alemão ficou algumas vezes, e relata que Christian "às vezes viajava para Portugal, onde tinha uma namorada, com quem falava em inglês".

Alexander Bischof diz que depressa percebeu que algo não batia certo nas histórias de Christian. "Cheguei à conclusão que ele andava metido na droga. Passou-me o Jaguar durante dois ou três meses. Acho que esteve preso em Portugal por tráfico. Quando saiu da prisão voltou logo para cá e depois ofereceu o Jaguar a um amigo. Tomava muitas decisões precipitadas", recorda o homem alemão que teve contacto com o suspeito do desaparecimento de Maddie. Nesta altura o amigo distanciou-se de Christian: "Não queria estar envolvido", lembra, referindo que, alguns anos depois a polícia viria a bater-lhe à porta para perícias num novo caso que envolvia Christian Brueckner.

Em 2011 acaba condenado a um ano e nove meses depena suspensa por tráfico de droga.

Christian muda-se para Braunschweig, perto de Hanôver, em 2014 e abre um quiosque. Christian ainda terá voltado a Portugal nesta altura, com uma alegada namorada. A falta de retorno no quiosque e, segundo testemunhas, o final da relação com a namorada, levam Christian a entregar-se ao álcool algum tempo depois. Nesta altura o alemão vive de apoios sociais.

Em 2016 Christian volta a ser condenado por crimes sexuais contra menores pela segunda vez. O alemão é condenado a um ano e três meses de prisão por posse de pornografia infantil.

"Cheguei à conclusão que ele andava metido na droga. Passou-me o Jaguar durante dois ou três meses. Acho que esteve preso em Portugal por tráfico."

Alexander Bischof, conhecido de Brueckner

A confissão num bar e nova condenação por abuso sexual de criança

Depois de sair da prisão, em 2017, Christian está num bar e a televisão mostra uma reportagem sobre o 10.º aniversário do desaparecimento de Maddie. O alemão alegadamente gaba-se a um amigo que sabia "tudo" sobre o caso e depois mostrou-lhe o vídeo da violação ocorrida em 2005 no Algarve. O amigo terá contado o episódio à polícia.

Em Junho de 2017 Christian terá voltado a Portugal, mas acaba extraditado para a Alemanha, depois de ser sentenciado a 15 meses de prisão por novo crime de abuso sexual de crianças.
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Vídeo maddie desapareceu há 10 anos

A vida nas ruas e a condenação (tardia) pelo crime de 2005

Christian Brueckner sai da prisão em agosto de 2018 e vive como sem-abrigo. Dorme em bancos de jardim e continua a traficar droga para se sustentar. Viaja para Milão, Itália, mas em setembro é detido e extraditado para a Alemanha pelo crime de tráfico de droga. Em outubro de 2018 é condenado e preso na cadeia de Kiel, onde ainda se encontra detido.

Nesta altura, as autoridades alemãs já têm todas a provas para o acusarem pela violação da norte-americana, ocorrida em 2005. É nesta altura que os investigadores começam a encaixar as primeiras peças entre os devaneios criminosos de Christian e o desaparecimento de Madeleine McCann.

Cabelos no local do crime viriam a corresponder ao ADN de Christian Brueckner. Em tribunal o alemão pede que as anteriores namoradas sejam ouvidas, para atestarem que a sua vida sexual era "normal". Nega todos os factos e diz que os cabelos encontrados na casa da vítima foram lá parar numa visita que Christian Brueckner fez, e que apareceram na cama da mulher quando fez festas ao gato desta. Foi condenado a sete anos de prisão.

Christian interpôs um recurso em tribunal, alegando que, quando foi extraditado de Portugal, foi devido a outro crime que não o de violação. O alemão será presente a tribunal em breve neste caso e será também esta uma das razões que justificam os novos avanços na investigação.

A ‘Maddie alemã’: a peça que falta?

Christian Brueckner está também a ser investigado pelo desaparecimento de Inga Gehricke, que desapareceu em Diakoniewerk Wilhelmshof a 2 de maio de 2015, quando passeava com os pais. O caso da menina depressa foi apelidado de ‘Maddie alemã’, devido às semelhanças, mas a coincidências ainda estavam para ser descobertas.
Inga
Madeleine McCann
Inga
Maddie McCann
Inga

Brueckner tinha uma casa a cerca de 70 quilómetros do local do desaparecimento e, segundo o Der Spiegel, o alemão relatava em chats online as suas fantasias de rapto e abuso de menores desde setembro de 2013. "Apetece-me capturar algo pequeno e usá-lo dias a fio", escreveu o alemão numa destas conversas. Terá também sido visto próximo da área do desaparecimento de Inga.


Todas estas novas pistas são peças que parecem encaixar. A investigação continua, das autoridades britânicas, alemãs e também portuguesas, na esperança que, quer os pais de Maddie, quer os de Inga, tenham as respostas que procuram desesperadamente.

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