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Correio da Manhã

Portugal
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QUARESMA SALVA SALÁRIO DOS PADRES

Para além de ser o tempo de estabelecer os mais estreitos laços com Deus, através da reflexão e de tudo o que envolve a preparação da Páscoa da Ressurreição, a Quaresma – iniciou-se na passada quarta--feira e prolonga-se até 17 de Abril, quinta-feira Santa – também tem uma vertente materialista que se manifesta na oferta de dádivas à Igreja.
9 de Março de 2003 às 00:00
É neste período que, entre outros contributos, nomeadamente de carácter diocesano, os fiéis são convidados a pagar os 'direitos paroquiais', a parte mais significativa das receitas que garantem a subsistência dos sacerdotes.

Até meados dos anos sessenta, os padres, sobretudo nas terras rurais, recebiam géneros agrícolas (feijão, milho, centeio e vinho), cuja quantidade eles próprios estipulavam, mediante o poder económico de cada agregado familiar.

Com o passar dos tempos, essa forma de pagamento tornou-se impraticável e, em finais dos anos 70, a Igreja decidiu que os 'direitos' deviam passar a ser pagos em dinheiro, tendo como base o que cada pessoa aufere num dia de trabalho.

É certo que nem todos os católicos praticantes cumprem a “obrigação” de contribuir para o sustento do pároco da freguesia, mas a Igreja estima que, hoje, haja cerca de um milhão e meio de pessoas a cumprir esse preceito.

Num estudo realizado na arquidiocese de Braga, foi possível concluir que, em média, cada pessoa em idade adulta e com emprego, oferece cerca de 20 euros para o sustento do sacerdote. A nível nacional tudo indica que a prática é a mesma. Feitas as contas, os 3 500 sacerdotes das 19 dioceses que têm paróquias a seu cargo encaixam, uns mais outros menos, é certo, qualquer coisa como 30 milhões de euros (seis milhões de contos).

Se a divisão fosse equitativa, podíamos dizer que, para além das missas, casamentos, baptizados, sermões e outros serviços remunerados, os párocos estariam a auferir, cada um, um vencimento mensal de 715 euros (143 contos).

O problema é que, há os que têm paróquias muito habitadas e com grande número de praticantes, que são capazes de receber, de direitos, mais de 20 mil euros, e outros, em zonas menos povoadas e de menor pendor católico, que contabilizam a módica quantia de três mil euros.

As novas indicações da Igreja, em prática em muitas paróquias das dioceses de Aveiro, Beja e Braga, advogam que todas as receitas revertam para o chamado ‘Fundo Paroquial’, de onde saem também os pagamentos de todas as despesas, incluindo o vencimento do pároco, que está fixado em 625 euros (125 contos) por mês.

O padre João Correia, pároco de Frossos, em Braga, disse ao CM que as novas regras são mais justas e mais transparentes. É que, diz este sacerdote, “assim, a paróquia tem conhecimento das contas, do dinheiro que entra e do que se gasta”. Para além disso, e essa é prática de quase todos os párocos, quem pagar a sua contribuição, tem direito, ao longo do ano, a todos os serviços, como casamentos e baptizados, sem pagar um único cêntimo. Por uma questão de justiça, quem não pagar os direitos, terá de pagar esses serviços sempre que deles necessitar.
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