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Correio da Manhã

Portugal
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Trabalhador e dirigente sindical avança para tribunal contra Novo Banco devido a despedimento

Sindicato dos Trabalhadores da Atividade Financeira acusou o Novo Banco de promover o despedimento de um dirigente sindical "de forma persecutória".
Lusa 25 de Fevereiro de 2021 às 14:14
Novo Banco
Novo Banco FOTO: Lusa
O trabalhador Nuno Matos, dirigente sindical que afirma ter sido o único despedido pelo Novo Banco numa transmissão de estabelecimento devido à sua condição de representante laboral, vai avançar para tribunal para evitar ser o segundo desempregado na família.

"Eu vou para os tribunais, vai ter que ser. Não estou a ver outra saída neste momento, porque o banco está numa posição intransigente, acha que tem razão, e vamos para tribunal, como é óbvio", disse hoje o trabalhador Nuno Matos aos jornalistas, numa conferência de imprensa à porta da sede do Novo Banco, em Lisboa.

Na semana passada, o Sindicato dos Trabalhadores da Atividade Financeira (SinTAF) acusou o Novo Banco de promover o despedimento de um dirigente sindical "de forma persecutória", acusação que o banco rejeita.

Em causa está a migração do trabalho dos agrupamentos complementares de empresas (ACE) GNB - Serviços de Suporte Operacional e da GNB Recuperação de Crédito para o Novo Banco, que segundo o sindicato tem decorrido com normalidade, exceto para um trabalhador.

Hoje, esse trabalhador apresentou-se como sendo Nuno Matos, de Lisboa, que tem 51 anos, dois filhos, "um com 18 e outro com 15 anos, estão a estudar e precisam do apoio dos pais", e ainda uma "casa para pagar como 90% dos portugueses".

Segundo o trabalhador, a sua esposa, também dirigente sindical, já tinha sido despedida pela divisão de Recuperação de Crédito do Novo Banco em 2019, e "não é mais um desempregado em casa que vai ajudar".

"Isto foi um processo que me foi comunicado em novembro, quando eu acompanhei os meus colegas na integração, e foi-me comunicada uma proposta de dita rescisão amigável de contrato", cuja última comunicação da entidade patronal data de 15 de fevereiro.

O trabalhador diz-se disponível para fazer qualquer tipo de trabalho, indo "para o cofre limpar moedinhas, se for preciso".

"Eu tenho capacidade de trabalho, posso aprender, posso ir para outra área e receber formação. Desde 1995 que faço recuperação de crédito, portanto experiência de recuperação de crédito não me falta", tendo já trabalhado "nos mais diferentes tipos de créditos que existem".

Nuno Matos trabalha para o BES/Novo Banco desde 1998, diz que está envolvido em lutas sindicais desde 2009, "por questões da degradação das condições de trabalho".

O dirigente sindical entende que o seu despedimento está relacionado "com as propostas que o SinTAF fez anteriormente, de melhorias que podiam ser feitas na recuperação de crédito, num banco que tanto necessita", entendendo que essa divisão "tem sido apenas destruída para depois irem buscar milhões, e depois não sabemos nem porque é que estes milhões são postos, nem onde é que são aplicados".

Presente na ação de hoje esteve o deputado do PCP Duarte Alves, que classificou o caso como "perseguição sindical" a um trabalhador cujo "único crime foi ser dirigente sindical e delegado sindical", salientando que "a administração do Novo Banco procura não só despedir este trabalhador, mas também incutir o medo em todos os outros de lutarem pelos seus direitos".

Também José Casimiro, dirigente do BE em representação do grupo parlamentar, disse que "há aqui um problema de liberdade sindical, um problema de efetividade de direitos e também um problema de transmissão de estabelecimento", uma situação semelhante que já ocorreu na Meo/Altice e no setor da segurança.

Segundo o SinTAF comunicou na semana passada, fez queixa à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), que até então não se tinha pronunciado nem contactado quer o trabalhador quer o sindicato.

Questionada na semana passada pela Lusa, fonte oficial do Novo Banco afirmou então que "o trabalhador não exerce funções de recuperador desde 2014, pelo que não foi considerado do recrutamento por falta de 'skill set' para as funções disponíveis".

A instituição presidida por António Ramalho disse também que "não é verdade que tenha sido o único" a não ser integrado, acrescentando que "não havia funções para enquadrar todos os trabalhadores" e que "foram propostas três saídas de trabalhadores, tendo-se concretizado duas".

O Novo Banco afirmou que "já não existe qualquer estrutura a funcionar no ACE" e sim "apenas um delegado sindical, sem trabalhadores que represente".

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