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Correio da Manhã

Portugal
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Vieira informado sobre as ofertas a "toupeiras"

Convites para a Luz eram pedidos por mail com o conhecimento do presidente do Benfica.
Henrique Machado, Tânia Laranjo e Magali Pinto 7 de Março de 2018 às 01:30
Luís Filipe Vieira viu o seu braço-direito, Paulo Gonçalves, ser detido por corromper funcionários judiciais
Paulo Gonçalves
Buscas da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ à SAD do Benfica, na porta 18 do estádio da Luz, têm sido recorrentes nos últimos meses
Luís Filipe Vieira viu o seu braço-direito, Paulo Gonçalves, ser detido por corromper funcionários judiciais
Luís Filipe Vieira viu o seu braço-direito, Paulo Gonçalves, ser detido por corromper funcionários judiciais
Paulo Gonçalves
Buscas da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ à SAD do Benfica, na porta 18 do estádio da Luz, têm sido recorrentes nos últimos meses
Luís Filipe Vieira viu o seu braço-direito, Paulo Gonçalves, ser detido por corromper funcionários judiciais
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Paulo Gonçalves
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Luís Filipe Vieira viu o seu braço-direito, Paulo Gonçalves, ser detido por corromper funcionários judiciais
Quando pedia à funcionária Ana Zagalo, do Benfica, convites destinados a Júlio Manuel Loureiro, para que o funcionário judicial pudesse assistir, com amigos e familiares, aos jogos no estádio da Luz, Paulo Gonçalves enviava sempre os mails com conhecimento do presidente Luís Filipe Vieira.

O que mostra que Vieira estava por dentro das ofertas do seu braço-direito e responsável pelo departamento jurídico – contrapartidas que levaram ontem à detenção de Gonçalves. Responde por corrupção ativa, visto que, em troca, dois funcionários judiciais forneciam peças processuais do caso dos mails – e de outros, até que visassem os rivais do Sporting e FC Porto –, em que o Benfica e os seus dirigentes estão a ser investigados por corrupção desportiva, num esquema com alguns árbitros, por alegado favorecimento.

Foi assim, por exemplo, dias antes do Benfica-FC Porto de 1 de abril de 2017, num mail em que Gonçalves pede três bilhetes para Loureiro no segundo piso; e, uma semana depois, quando solicita quatro convites para que o funcionário do tribunal de Guimarães assista, com amigos, a outro jogo, no piso 1 – mais conhecido por anel VIP.
O presidente das águias sabia destas ofertas, como comprovam os mails tornados públicos – mas, como os documentos foram obtidos de forma ilícita, é uma prova que a Unidade de Combate à Corrupção da PJ e o DIAP não pode usar. E, também por isso, Vieira não foi, ainda, indiciado por corrupção.

Sorte diferente tiveram o braço-direito, Gonçalves, e José Nogueira da Silva, um dos funcionários que, nos tribunais de Guimarães e de Fafe, usava credenciais próprias, de colegas e de magistrados, para aceder ao Citius, base de dados da Justiça, na qual fez centenas de pesquisas sobre o processo dos mails e outros – tudo para servir o Benfica, que tentava acompanhar a par e passo as investigações.

Estão os dois detidos, por corrupção ativa e passiva, acesso ilegítimo, violação de segredo de Justiça, falsidade informática e favorecimento pessoal. E há outros arguidos – como o funcionário judicial Júlio Loureiro e o empresário de futebol Óscar Manuel Cruz, que fazia a ponte entre oficiais de Justiça e Paulo Gonçalves. Para os subornados, as contrapartidas eram convites para os jogos, a oferta de produtos de merchandising, como camisolas da equipa do Benfica, e, no caso de José Silva, o seu sobrinho Fernando iria receber um cargo no museu do clube.

Jurista criou as SAD do Porto e Boavista
Nascido no Porto há 48 anos, foi nos azuis-e-brancos que Paulo Gonçalves deu os primeiros passos no mundo do futebol. Foi um dos responsáveis pela criação da SAD do FC Porto, no final da década de 1990, logo depois de terminar o curso de Direito.

A entrada no clube fez-se pela mão de Alexandre Pinto da Costa, de quem era muito amigo, mas com quem se incompatibilizou anos depois. Outra zanga marcou o corte de relações com Adelino Caldeira, com quem tinha chegado a trabalhar no mesmo escritório de advogados. Em 2000, rumou para outro grande clube da cidade do Porto. No Boavista ajudou a criar a SAD e era diretor- -geral da mesma quando o clube então presidido por João Loureiro ganhou o campeonato. Paulo Gonçalves estava nos axadrezados quando rebentou o Apito Dourado e embora não tivesse sido constituído arguido, o seu nome surgiu de forma amiúde ligado ao escândalo que atirou o clube para a 2ª divisão.

Ainda no Boavista, foi apontado para a Liga de Clubes, para substituir Emanuel Medeiros, no cargo de secretário-geral. É a contestação do FC Porto que o obriga a sair de cena. Ao Benfica, Paulo Gonçalves chega em 2007, pela mão de José Veiga. Assume funções como assessor jurídico da SAD. Braço-direito de Vieira, é ele que, muitas vezes, representa as águias nas assembleias-gerais da Liga.

Benfica diz confiar "na legalidade" das ações do jurista
A Benfica SAD fez ontem um comunicado em que diz estar disponível para colaborar com a Justiça "no integral apuramento da verdade", tendo manifestado "confiança e convicção de que o Dr. Paulo Gonçalves terá oportunidade, no âmbito do processo judicial, de provar a legalidade dos seus procedimentos". Foi ainda anunciado que o Benfica vai pedir uma audiência à PGR pelas "reiteradas violações de segredo de Justiça", que, segundo o comunicado, visam o clube.

Buscas à SAD preparadas pelos advogados
Depois de Paulo Gonçalves ter conhecido o andamento do processo dos mails, a sociedade de advogados Vieira de Almeida chegou a dar formações a funcionários do Benfica sobre a forma de se comportarem em caso de buscas à SAD e, quando as mesmas aconteceram, em outubro, a PJ chegou a encontrar documentos processuais, que estão em segredo de Justiça, nas instalações do clube.
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