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Filha de Miguel Torga diz estar desolada com escultura do autor em raiz de negrilho

Clara Crabbé Rocha acrescentou que quem decidiu "homenagear Miguel Torga e assinalar o seu aniversário desta triste forma, não leu a sua obra".
Lusa 12 de Agosto de 2020 às 15:15
Filha de Miguel Torga diz estar desolada com escultura do autor em raiz de negrilho
Filha de Miguel Torga diz estar desolada com escultura do autor em raiz de negrilho FOTO: Lusa

A filha de Miguel Torga, Clara Crabbé Rocha, disse esta quarta-feira estar desolada com a intervenção que a Junta de Freguesia de São Martinho de Anta fez na raiz de um negrilho, onde foi esculpido o rosto do escritor transmontano.

"A intervenção na raiz do negrilho é uma profanação duma bela raiz centenária, duma obra da natureza que deveria ser exposta tal como era, de forma sóbria, apenas protegida das intempéries por um vidro com o poema de Torga gravado", afirmou Clara Crabbé Rocha à agência Lusa.

A escultura do rosto de Miguel Torga na raiz de um negrilho de aproximadamente três toneladas está a gerar polémica. A árvore, que secou há uns anos, ficou imortalizada na obra do escritor.

A iniciativa foi da responsabilidade da Junta de São Martinho de Anta, a escultura foi feita por Óscar Rodrigues e o objetivo foi homenagear Miguel Torga na data do seu aniversário, que se assinala hoje.

"Como muitas centenas de pessoas que se têm manifestado publicamente, estou desolada com a intervenção que a Junta de São Martinho de Anta decidiu fazer na raiz do negrilho. Todos sabemos que a melhor maneira de homenagear um escritor é lê-lo e dá-lo a ler", salientou Clara Crabbé Rocha.

A filha do escritor acrescentou que quem decidiu "homenagear Miguel Torga e assinalar o seu aniversário desta triste forma, não leu a sua obra".

"Não pode ter lido. Se a tivesse lido, teria compreendido o sentido do poema ´A um negrilho´, que é a interlocução entre um poeta e outro poeta", afirmou.

E citou o poema: "Na terra onde nasci há um só poeta. Os meus versos são folhas dos seus ramos. Quando chego de longe e conversamos. É ele que me revela o mundo visitado (...)".

"E o extraordinário é que vários de nós tentámos demover o presidente da junta quando nos pediu opinião. Nada feito. Deve estar feliz, porque teve o seu momento de glória nas notícias dos jornais. Mas não percebeu como expunha São Martinho de Anta ao ridículo", frisou.

E acrescentou: "a vila natal de Miguel Torga, a que o poeta deu literariamente a dimensão mítica dum centro do mundo, não merecia isso".

Clara Crabbé Rocha afirmou que, "se Miguel Torga fosse vivo, indignado com este atentado ao bom senso e ao bom gosto, pediria que acabassem de vez com esta triste história e que plantassem no largo um negrilho novo para as gerações futuras, o que ele próprio tentou fazer em vida".

Realçou, no entanto, que hoje, dia do seu aniversário, se deve sobretudo recordar a sua obra, traduzida em cerca de 20 línguas, que continua a ser lida em Portugal e no estrangeiro.

"Felizmente", na sua opinião, São Martinho de Anta "tem o privilégio de ter um Espaço Miguel Torga, obra da autoria dum Prémio Pritzker de Arquitetura (Souto Moura), que recebe anualmente milhares de visitantes", onde está patente uma exposição permanente sobre a vida e obra do poeta e médico e que possui uma "programação cultural muito dinâmica e sempre variada, graças à dedicação do seu diretor e dos seus colaboradores".

E lembrou que, em janeiro, foi ali apresentado, assinalando os 25 anos da morte de Miguel Torga e com a presença do Presidente da República, o livro "Cartas para Miguel Torga", que em breve vai ser reeditado.

O presidente da Junta de São Martinho de Anta, José Gonçalves, disse à Lusa que a raiz estava a entrar em podridão e que, por isso, "foi preciso agir o mais rápido possível", tendo-se optado pela escultura do rosto do escritor.

O autarca salientou, já na terça-feira, que não quer "alimentar mais polémicas" à volta desta intervenção.

Torga, cujo nome de batismo era Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de agosto de 1907 em São Martinho de Anta e morreu, em Coimbra, em 1995.

Entre algumas das suas obras destacam-se os "Contos da Montanha", "Bichos", "A Criação do Mundo", "Senhor Ventura" ou "Vindima", e na poesia "Rampa", "Abismo", "Lamentação", "Libertação" ou "Poemas Ibéricos".

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