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Correio da Manhã

Sociedade
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"A tentar recuperar a liberdade perdida": Médico Baptista Leite voluntaria-se para combater o coronavírus no 25 de Abril

Profissional de saúde conta como é estar na linha da frente do combate à pandemia.
25 de Abril de 2020 às 20:55
Batista Leite
Batista Leite
Em tempos de pandemia nem um feriado como o 25 de Abril abranda o movimento nos hospitais. O médico Baptista Leite voluntariou-se neste dia para ajudar a combater a Covid-19.

"Neste 25 de Abril, aqui estivemos desde as 8h da manhã. A tentar recuperar a liberdade perdida para este maldito coronavírus. Mais um dia como médico em regime de voluntariado junto dos meus colegas na linha da frente no Covidário do Serviço de Urgência do Hospital de Cascais.

Eu tenho vindo uma vez por semana. Eles estão aqui todos os dias. Junto dos doentes. Alguns desses doentes são suspeitos de infeção pela covid-19, outros confirmados.



Dezenas de doentes foram chegando ao longo do dia com falta de ar, tosse, febre... a maioria com mais de 70 anos. Muitos residentes em lares. Uma senhora com 90 anos veio de um lar onde vive partilhando o mesmo quarto com mais 3 pessoas de idades semelhantes. Todos dependentes de terceiros nas atividades da vida diária.

Respiramos todos de alívio na sala dos registos médicos quando soubemos que nenhum dos residentes naquele lar estão infetados. Esperemos que esta nossa doente não seja a primeira... Mas quando fomos observar a senhora, vinha de facto com uma dificuldade respiratória e muito debilitada. A gasimetria arterial confirma uma academia respiratória grave e a radiografia confirma uma pneumonia bilateral. Pouco mais de uma hora depois de chegar ao hospital, apesar de todos os esforços da equipa, a senhora faleceu com um quadro compatível com pneumonia. Não sabemos se infetada com covid ou não, nota pouco relevante para a família que teve de ser informada com o cuidado e dignidade que cada vida merece. Os colegas desta equipa médica são um exemplo na forma humanizada como falam com os filhos da senhora. Mas a informação sobre se a senhora estaria infetada pela covid-19 não é irrelevante para o lar. Por isso mesmo, tive que deixar essa informação escrita sobre a senhora no certidão de óbito que eu próprio preenchi. Supera-se o momento e continuamos em frente.

Mais 3 doentes na sala de espera para o covidário. Entre eles está um senhor com quase 60 anos, trabalhador da construção civil, atualmente desempregado. Vem cá quase todas as semanas com queixas de falta de ar. Têm dificuldades financeiras e vive apenas com um irmão. Precisa de apoio social. Volta aqui todas as semanas como que a pedir ajuda... e os serviços sociais estão a fazer o que podem. Não é positivo para a covid-19, mas com tantas vindas cá parece inevitável...

Por volta das 14 horas almoçamos uma refeições embaladas e oferecidas por um restaurante do concelho. Cada um almoça sozinho para podermos tirar a máscara sem colocar ninguém em risco. Os que trabalham no Covidário não podem ir ao refeitório. O circuito é outro. São dois mundos paralelos num mesmo hospital.

Assim, o hospital de Cascais tem conseguido manter um taxa baixa de infeções entre os seus colaboradores. Entretanto entraram vários doentes. Vários têm febre e são por isso "triados" para "nós" no covidário. Depois de colher a história clínica e de fazer o exame objetivo - o possível com tanto equipamento de proteção vestido que nem permite colocar o estetoscópio nos ouvidos - pedimos para fazer as colheitas de amostras para análises e para se fazer o famoso teste de pesquisa da COVID. Lá vêm os enfermeiros, a aguentarem o calor e desconforto de horas a fio com aqueles equipamentos de proteção vestidos, tapados da cabeça aos pés.

A zaragatoa com 10cm é enfiado na narina para colher a melhor amostra possível. O doente lacrimeja com o desconforto. Mas não se queixa. Sabe que aquilo que tem de ser, tem muita força. Há mais um senhor com prognóstico reservado. Informamos o filho que chora à nossa frente. Quer abraçar o pai mas não pode. Fazemos o possível para o confortar. Que dor. Vai correndo a tarde e o tempo não pára - impiedoso perante o cansaço e o sofrimento. Vamos tendo casos de doentes com infeção por COVID-19 confirmados e que vão sendo internados, muitos com outras doenças e que - depois de excluída a hipótese de serem covid-19 positivos - passam para a urgência geral. Outros têm alta. Outros partem desta vida. Fica a família para os chorar, lembrar e honrar. É assim a vivência nestes covidários por esse mundo fora. Como em todas as áreas. Profissionais a lutar pela vida dos doentes.

O humanismo e a solidariedade não dão espaço nem tempo para o supérfluo ou para a espuma dos dias. O nosso compromisso é apenas e só com os doentes. E todos nós voltamos para casa onde temos esquemas para nos despirmos destas roupas, tomarmos banho e só depois voltarmos ao convívio familiar. Só depois é que abraçamos os nossos filhos. Há mesmo profissionais de saúde que optam por não voltar a casa para não arriscar infetar os seus entes queridos. Não se queixam. Fazem o que é preciso. É assim no 25 de Abril. É assim todos os dias do ano, 24 horas por dia. Viva a liberdade. Viva a saúde de cada um de nós".

A pandemia do coronavírus em Portugal já provocou 880 mortes e mais de 23 mil infetados, desde o início do surto, no início de maio. Há também a contabilizar mais de 1000 pacientes recuperads.
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