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Correio da Manhã

Sociedade
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Alunos de colégios privados são os principais "clientes" dos bancos de manuais

Movimento pela reutilização nasceu em 2011 e, em apenas quatro anos, surgiram mais de 300 bancos de livros em todo o país.
Lusa 30 de Julho de 2019 às 09:19
Manuais escolares
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Os alunos dos colégios privados tornaram-se nos principais utilizadores dos últimos bancos de livros, criados durante a crise económica, que têm desaparecido com o alargamento do programa estatal de distribuição gratuita de manuais, segundo os promotores da iniciativa.

O movimento pela reutilização nasceu no verão de 2011 e, em apenas quatro anos, surgiram mais de 300 bancos de livros em todo o país.

Mas são cada vez menos os que se mantêm ativos. Com o alargamento progressivo do projeto do Governo de gratuitidade dos manuais escolares, que começou em 2016 com os alunos do 1.º ano, os bancos de livros têm vindo a diminuir.

Mas há exceções: no centro de documentação do Edifício Central do Município, em Lisboa, o banco de livros continua a funcionar normalmente.

"Até agora recebemos cerca de 60 pedidos para o próximo ano letivo", conta à Lusa a responsável pelo serviço, Teresa Pereira, explicando que a procura é feita essencialmente através do email troca.livro.escolar@cm-lisboa.pt.

A diferença é que os alunos dos colégios passaram a ser os principais utilizadores do banco, porque o programa estatal não incluiu o ensino privado, explica Teresa Pereira.

Em setembro, o programa do Ministério da Educação (ME) vai chegar, pela primeira vez, a todos os alunos da rede pública. Serão cerca de 1,2 milhões de estudantes.

Em Lisboa, esse alargamento já aconteceu porque a autarquia decidiu oferecer os manuais aos estudantes dos anos de escolaridade que ainda não estavam abrangidos.

No entanto, o trabalho do banco não acabou, garante Teresa Pereira. Além dos colégios, também os alunos das escolas públicas apareceram à procura de cadernos de atividades, dicionários e até de livros que fazem parte do Plano Nacional de Leitura.

O serviço foi ainda procurado por quem tinha mudado de escola ou precisava de manuais novos, recorda.

Mas existem bancos que parecem ter sido esquecidos pela população: em Odivelas, o Projeto "Dá P´ra Aproveitar" está suspenso, conta à Lusa a responsável Isabel Teixeira.

A funcionar na Biblioteca Municipal D. Dinis desde 2013, o programa de reutilização teve um tempo em que os funcionários não tinham mãos a medir e as filas de pais e alunos eram intermináveis, recorda.

No depósito da biblioteca ainda estão guardados muitos manuais prontos para serem usados, mas Isabel Teixeira garante que o serviço está parado. "Este ano não tivemos nem pedidos nem doações", revela.

Com o alargamento do programa estatal a procura foi reduzindo: primeiro desapareceram os pais dos alunos mais novos e, no ano passado, também os do 5.º e 6.º anos.

Agora que o projeto chegou até ao 12.º ano, Isabel Teixeira imagina que não vá aparecer ninguém a bater-lhes à porta.

Além dos manuais serem emprestados pelo Governo, a responsável conta que as famílias já se começaram a habituar a deixar os manuais nas escolas quando acabam as aulas. Também é nesse sentido o conselho do Ministério da Educação.

Mas estes hábitos não foram enraizados por todos. Na clínica "Veterinários Ericeira", por exemplo, ainda aparecem famílias a entregar manuais.

"Este ano já vieram entregar, mas ainda ninguém veio levantar nada", conta a veterinária Catarina Pereira, enquanto faz um tratamento.

A procura por manuais tem vindo a diminuir e Catarina Pereira acredita que este ano a tendência se intensifique ainda mais.

No entanto, a veterinária mantém o serviço a funcionar. No passado ano letivo ainda surgiram alunos que tinham perdido os livros ou que andavam à procura de manuais em melhor estado do que aqueles que tinham recebido.

Apesar de suspeitar que o projeto que pôs de pé está em vias de extinção, Catarina Pereira sente-se feliz, com a noção de missão cumprida.

O objetivo do "Movimento Reutilizar" era conseguir que os alunos tivessem acesso a manuais gratuitos e que não houvesse desperdício, recorda o fundador do movimento que apareceu no verão de 2011, Henrique Cunha.

Numa ronda por dezenas de bancos que ainda estão inscritos no site do Movimento Reutilizar, a Lusa encontrou muitos espaços já inativos ou em vias de acabar.

Um dos objetivos do projeto, levado a cabo por cidadãos anónimos, sempre foi passar a pasta ao Governo. Henrique Cunha lembra que estes bancos devem ser os únicos no mundo que "nasceram com o objetivo de falir".
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