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Correio da Manhã

Sociedade
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Animais do Ártico mudam comportamentos devido às alterações climáticas

Estudo reúne 150 investigadores de 100 instituições, entre os quais o biólogo José Alves, da Universidade de Aveiro.
Edgar Nascimento 5 de Novembro de 2020 às 19:00
Animais do Ártico
Ártico
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Ártico
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As alterações climáticas que levaram o Ártico a entrar num novo estado ecológico já provocaram alterações na dinâmica espácio-temporal dos animais que habitam a região. A conclusão é de um estudo que reúne 150 investigadores de 100 instituições, entre os quais o biólogo José Alves, da Universidade de Aveiro, e que é publicado na edição desta sexta-feira da revista científica Science.

O trabalho demonstra que o impacto das alterações climáticas afeta tanto aves como mamíferos. Aves migradores alteraram os seus padrões migratórios e populações de renas mudaram a sua "fenologia reprodutora". Por outro lado, ursos, alces e lobos não modificaram as suas taxas de deslocação em resposta à precipitação, embora os alces se movimentem mais com as temperaturas mais altas no verão, sugerindo diferenças nestas respostas em diferentes níveis tróficos do ecossistema ártico.

Para chegar às conclusões agora apontadas no estudo internacional, os investigadores recorrem a dados de monitorização obtidos a partir de transmissores GPS. Atualmente, 201 espécies do Ártico já transportam mini-transmissores, os quais permitem registar os movimentos com precisão e quantificar alterações nas deslocações.

Para José Alves, investigador no Departamento de Biologia e no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), um dos laboratórios Associados da UA, e co-autor do artigo, "no Ártico o aquecimento global tem-se manifestado de forma muito notória, pois as temperaturas têm aumentado nos polos de forma mais acentuada do que no resto do globo, um fenómeno denominado por amplificação polar ártica". O fenómeno, aponta o biólogo, "coloca os animais que habitam esta região na linha da frente dos efeitos das alterações climáticas".

José Alves, que estuda as aves limícolas na Islândia desde 2006, indica, por exemplo, o caso do ostraceiro, uma ave migradora que tem uma proporção cada vez maior de aves residentes, ou seja, que passam o inverno na Islândia, enquanto as restantes migram para o Reino Unido, Irlanda e continente europeu durante os meses mais frios do ano. Esta alteração de comportamento não é alheia aos invernos cada vez mais amenos que se têm vindo a fazer sentir no país. Contudo, explica José Alves, "quando há um inverno mais rigoroso, como no ano passado, várias destas aves acabam por morrer. E esse é um preço muito alto a pagar". Esta alteração no comportamento e movimentos migratórios dos indivíduos desta espécie que se reproduzem na Islândia faz com que esta seja a latitude mais a norte onde passam o inverno.

Existem também alterações na fenologia destas espécies. O maçarico-de-bico-direito tira partido da antecipação da primavera chegando às zonas de reprodução na Islândia cada vez mais cedo no ano. Contudo, a janela mais larga de temperaturas favoráveis durante esta época do ano tem feito também com que os agricultores expandam a área agrícola. Ao perderem habitat natural, os maçaricos colocam cada vez mais os seus ninhos nas zonas agrícolas. Mas o crescimento rápido destas plantas não permite que haja tempo suficiente para incubar os ovos e fazer com que as crias sejam grandes o suficiente para escapar às máquinas quando se inicia a ceifa. "O tempo de incubação e crescimento das crias é praticamente o mesmo independente da temperatura. Estes ritmos não se alteram muito devido a factores extrínsecos", explica José Alves. O investigador adianta que "são processos que estão ajustados aos habitats naturais no ártico e sub-ártico, mas desadequados para feno de crescimento rápido plantado nestes habitats artificiais, que se têm expandindo devido às alterações climáticas que aí se fazem sentir". O investigador sugere que a Europa promova "esforços para reduzir as emissões de carbono", limitando assim o aquecimento global que se faz sentir de forma muito prevalente no Ártico. "É preciso dar tempo a estas espécies de responder às alterações que enfrentam, para que se evite a cada vez mais evidente 6ª vaga de extinção, que é consequência da ação humana", apela.

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