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“Aqueles com quem quer falar não são seres humanos”: Ativista portuguesa expulsa do Sahara Ocidental por autoridades marroquinas

Isabel Lourenço pretendia acompanhar a situação de famílias dos presos condenados pelos tribunais marroquinos.
Susana Pereira Oliveira 11 de Dezembro de 2019 às 18:38
Isabel Lourenço
Isabel Lourenço
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Isabel Lourenço

Isabel Lourenço, uma ativista portuguesa dos Direitos Humanos, foi esta terça-feira, dia 10 de dezembro, expulsa dos territórios ocupados do Sahara Ocidental pelas autoridades de Marrocos. A cidadã portuguesa, de Lisboa, viajou para esses territórios com o objetivo de acompanhar a situação de famílias de presos condenados pelos tribunais marroquinos.

Apesar de apresentar passaporte válido e todas as autorizações necessárias para viajar em Marrocos, Isabel Lourenço foi impedida de sair do avião assim que chegou ao Aeroporto de El Aiune, no Sahara Ocidental.

Em declarações ao Correio da Manhã, a ativista que acompanha o conflito no Sahara Ocidental há 20 anos explicou toda a situação.

Após aterrar, Isabel Lourenço pretendia dirigir-se para Agadir para conseguir falar e acompanhar a família de Mansour El Moussaui, um jovem de 19 anos, e da prima Mahfouda Lefkir, de 34. Ao CM, a ativista contou que esta mulher foi condenada a seis meses de prisão depois de ter dito em tribunal, no final do julgamento do primo, que tudo o que estava a acontecer era uma injustiça.

No entanto, após ter aterrado, Isabel Lourenço foi barrada. "Quando cheguei disseram a toda gente que podiam sair do avião, excepto eu. Perguntei porquê e disseram-me apenas eram ordens e que não podia sair. Fizeram uma barreira humana", começou por explicar a ativista. "Disseram-me depois que tinha de voltar para Marraquexe, mas recusei", disse. Isabel recusou sempre o regresso à cidade marroquina e explicou às supostas autoridades, que nunca se identificaram e disseram apenas ser "altos responsáveis", que não a podiam "obrigar a ficar num avião com um destino para onde não queria ir".

Foi depois de uma discussão que durou "cerca de 40 minutos" que Isabel Lourenço conseguiu abandonar o avião. Foi levada para uma sala onde carimbam passaportes. A sala estava vazia e foi nesse local que lhe retiraram os dois telemóveis e o computador que tinha com ela. "Apagaram tudo o que tinha lá dentro. Reconfiguraram-me tudo de tal maneira que agora nem consigo ativar o número de telemóvel do cartão português", revelou.

Pediu várias vezes para falar com a Embaixada Portuguesa e para ligar à família. Os pedidos foram recusados. Isabel Lourenço foi revistada e, nesse momento, foi informada de que era uma "pessoa non grata" e que o que estava ali a fazer era um "ataque à soberania".

Isabel Lourenço foi depois obrigada a viajar num táxi coletivo para Agadir. No entanto, este táxi não tinha como destino final Agadir. Isabel ficou em Inezgane, uma zona conhecida como sendo um "subúrbio do crime". Para realizar esta viagem, a ativista portuguesa exigiu que lhe dessem o passaporte. Durante a viagem, que durou cerca de dez horas, ainda lhe disseram que "aqueles com quem queria falar não são seres humanos", revelou. "Pode falar com toda a gente, mas não com aqueles", diz Isabel ter ouvido.

"Passado meia hora, já dentro do táxi, consegui meter um dos telemóveis a funcionar e começaram a ligar-me da Emergência Consular, porque o meu marido e os meus amigos não sabiam o que se passava e começaram a ligar para lá", contou.

Chegada a Inezgane, Isabel foi mandada abandonar o táxi onde seguia e teve de "às 04h00 da manhã" conseguir arranjar outro meio que a levasse para Agadir. "Consegui e pedi que me levassem para uma cadeia de hotéis que não fosse de marroquinos", disse. "E aqui estou, dentro de um quarto de hotel, à espera que passe a noite para amanhã [quinta-feira] de manhã ir para o Aeroporto de Agadir, seguir para Casablanca e depois para Lisboa", revelou Isabel ao CM.

Enquanto aguarda o regresso para Portugal, Isabel Lourenço mantém-se em contacto com o Consulado Português. Ao CM, a ativista explicou que toda esta situação surge na sequência dos relatórios que tem publicado, mas para Isabel, "isso é uma questão de liberdade de expressão". "Se os países nos vão impedir a entrada por termos opiniões diferentes das deles, estamos mal", contestou.

Isabel Lourenço relembrou ainda que Marrocos é um país que "recebe milhões da União Europeia, entre os quais alguns dedicados à melhoria da Democracia e dos Direitos Humanos".

Isabel Lourenço disse ter sido "apanhada de surpresa" e não percebe o porquê de isto estar a acontecer. Está previsto que a ativista portuguesa chegue esta quinta-feira a Lisboa.

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