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Correio da Manhã

Sociedade
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"As saudades da família": Micaela Ferreira é fisioterapeuta e está na linha da frente contra o coronavírus

Jovem descreve dias intensos nos Cuidados Intensivos do Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa.
Daniela Vilar Santos 14 de Maio de 2020 às 17:09
Micaela Ferreira trabalha na UCI do Hospital São Francisco Xavier. Fotografia captada antes da pandemia do Covid-19
Micaela Ferreira trabalha na UCI do Hospital São Francisco Xavier. Fotografia captada antes da pandemia do Covid-19 FOTO: Direitos Reservados

Em fevereiro de 2016, Micaela Ferreira entrou pela primeira vez como profissional de saúde no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa. Aos 27 anos, é uma das fisioterapeutas da Unidade de Cuidados Intensivos que luta na linha da frente contra o coronavírus.

"Estamos presentes em todo o processo, desde o inicio do internamento, na mobilização precoce, no desmame ventilatório e no retorno à funcionalidade", explica Micaela sobre o trabalho desempenhado como fisioterapeuta.

A jovem afirma que o importante é nunca esquecer que os doentes não são números, "são pessoas, famílias e uma vontade enorme de voltarem onde pertencem".

Portugal estabeleceu medidas para lutar contra a Covid-19 e forçou hábitos para que não houvesse uma catástrofe semelhante a Itália ou Espanha. E tal como Micaela, muitos foram os profissionais de saúde que viram a vida dar uma volta de 360 graus para conseguirem dar o seu melhor no trabalho e protegerem a família.

"Muita coisa mudou, sem dúvida. Todas as manhãs religiosamente ia até Carnaxide à BOX351 para a minha atividade física diária, faz falta o convívio com o treinador e amigo, os parceiros de treino e as risadas matinais que carregavam energias para o dia de trabalho", conta a fisioteraupeuta que acaba por recorrer ao namorado, um dos seus grandes pilares, para não desmotivar e treinar em casa.

"A parte mais difícil, as saudades, saudades da família, dos almoços de domingo em casa dos pais, do abraço deles, do abraço do mano mais novo, dos beijinhos e do sorriso da avó", acrescenta.

Os dias nos hospitais são intensos mas nos cuidados intensivos tudo se duplica. Micaela revela que "quase todos os dias" há pessoas ou situações que marcam os profissionais de alguma forma.

"Tivemos dois familiares internados na unidade em simultâneo e após alguns dias de coma induzido, ainda com muitos sinais de dificuldade respiratória, sedação e confusão, a primeira preocupação de um deles foi olhar a cama do lado e perceber se o familiar com quem tinha entrado ainda estaria lá", revela.

Micaela acredita que as medidas do Governo chegaram na altura certa e elogia o Serviço Nacional de Saúde: "o SNS preparou-se da melhor forma possível, não tenho dúvida". A fisioterapeuta recorda a fase de preparação do hospital para receber doentes infetados e admite que "foram dias assustadores".

"Recebemos informação e formação diária, que quase nos "força" a não desligar quando saímos do trabalho. Chegamos a casa e queremos ler mais, falar com colegas, tirar dúvidas, queremos ser melhores no dia seguinte, queremos perceber melhor esta doença que ainda estamos longe de conhecer intimamente", explica.

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