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Correio da Manhã

Sociedade

"Aterrador": O testemunho de um enfermeiro do hospital Curry Cabral que vive num hotel para proteger a família

Nuno Moreira relata o medo, as saudades de casa e as histórias dos doentes que o marcaram.
Marta Ferreira 3 de Abril de 2020 às 15:30
Nuno Moreira
Nuno Moreira
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Nuno Moreira

"Aterrador". É desta forma que Nuno Moreira, enfermeiro no serviço de infecciologia do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, descreve a sensação de estar na linha da frente de uma pandemia mundial de coronavírus. Para proteger a família, viu-se obrigado a viver num hotel perto do hospital. 

Nuno assume ter medo, sentir falta de casa e do "mundo", admite que estamos todos, incluindo os médicos e enfermeiros, a descobrir o vírus e a encontrar soluções para os pacientes que chegam aos hospitais. 

A adrenalina e a exigência de estar na linha da frente

O dia de Nuno, enfermeiro há 10 anos, começa com a passagem de turno onde recebe todas as informações do estado clínico e terapêutico de cada doente. Seguem-se horas intensas de trabalho com sentimentos ambíguos.

"Se por um lado é desgastante, por outro alimenta-nos a adrenalina. Se por um lado é exigente e lidamos com o desconhecido, por outro nunca tivemos que ser tão firmes e seguros de nós mesmos", explica o enfermeiro ao Correio da Manhã. Nuno afirma que não têm sido meses fáceis pois os relatos que lhes chegavam, a ele e à equipa médica que o acompanha, da China e Itália revelavam informações por vezes incoerentes, mas que lhe davam uma certeza: "lidávamos com algo que ninguém, nem nenhum país ou sociedade, por mais desenvolvida que fosse, estaria pronta para saber lidar e estrategicamente conter e combater".

As informações que têm vindo de fora têm sido, no entanto, uma vantagem para Portugal, segundo Nuno. "Conseguimos ganhar alguma vantagem e conquistar já algumas batalhas", garante acrescentando que esta vantagem tem servido para experimentar, uma vez que não há, ainda, um tratamento certo para este tipo de vírus.

Os primeiros doentes, as histórias que deixam marca

"O vírus é tão rápido e silencioso", explica afirmando que quando este chega a alguma região, rapidamente se instala. Nuno trata de dezenas de casos todos os dias. Os primeiros eram na sua maioria pessoas com mais de 60 anos e várias patologias associadas. Muitos dos que se seguiram, sem patologias associadas, tinham viajado nos 15 dias anteriores à deslocação ao hospital para sítios de risco. Cada doente, inevitavelmente, marca Nuno, de uma forma ou de outra.

"Todos os nossos doentes são únicos. Quando começamos a receber doentes que por uma qualquer razão se assemelham a pessoas que nos são queridas, ou porque são colegas de trabalho, ou porque nos apercebemos que podíamos ser nós exatamente naquela situação, ou porque simplesmente sentimos uma empatia inexplicável de real preocupação e carinho pelo próximo, é como se levássemos um murro no estômago. E isso aconteceu e acontece comigo, muitas e muitas vezes", descreve.

"É impossível não nos sentirmos perante casos e casos de pessoas que chegam até nós relativamente bem e que de um momento para o outro somos o apoio que os leva até à unidade de cuidados intensivos para passarem a ter ajuda para fazer o que é inato e que fazemos sem nos apercebermos ou sequer valorizar: respirar".

Mas o que o marcou foi o caso de um jovem que se encontrava bem de saúde e rapidamente ficou em estado crítico: "Entrou no serviço com o que diria ser condições razoáveis de saúde, sem outras doenças conhecidas e que de repente descompensou e teve de ser levado para os cuidados intensivos. Foi de imediato ventilado e chegou mesmo a estar em estado crítico. Ninguém é imune a isto, ninguém tem defesas para isto".

O jovem acabou por melhorar e já está a recuperar em casa, mas Nuno não o esquece.

Da emoção dos aplausos dos portugueses às saudades "do mundo"

Nuno ficou conhecido foi partilhar uma fotografia sua com uma outra enfermeira num momento de "pausa" para poderem respirar e continuarem a lutar. Foram os aplausos dos portugueses que o levaram a partilhar esse momento, e outros que se seguiram, nas redes sociais.

"Sempre preservei e resguardei a minha atividade profissional nesse meio [Instagram], porém houve um momento em tudo mudou... Foi no sábado, dia 14 de março, na noite em que os portugueses saem à rua para aplaudir e agradecer o esforço de todos os profissionais de saúde. Foi um momento que me tocou, comoveu, e me fez sentir que realmente fazia a diferença, como tantos outros fazem, e que as pessoas o valorizavam, reconheciam", relata.

A luta tem sido feita de momentos bons, como o reconhecimento dos portugueses de que fala Nuno, mas também de momentos menos bons, inevitáveis numa altura em que o país está em Estado de Emergência.

"Sinto falta do mundo. Sinto falta das minhas pessoas. Sinto falta do básico mas tão importante, do que nos distingue enquanto seres – sinto falta de sentir. Sentir o abraço, o toque, o calor. Sentir o cheiro a casa. Mas, tal como eu, outros também não sentem agora, para que todos possam sentir no futuro, inclusive e", descreve ao CM.

O medo e as decisões difíceis

Como tantos outros profissionais de saúde, o enfermeiro do Hospital Curry Cabral assume também ter medo.

Estão até ao dia de hoje, 3 de abril, mais de 1000 profissionais infetados, um número que tenderá a aumentar uma vez que o contacto com os doentes é próximo. Nuno tenta encarar esse medo como uma ferramenta para se tornar mais "alerta e vigilante"

"Sim, tenho [medo]. Mas neste momento encaro o medo como um combustível para me manter alerta e vigilante, para assegurar que tenho capacidade de reação e resposta adequada ao que me é exigido e expectável. Este medo que sinto faz com que seja meticuloso e me assegure sempre, mas sempre, que não corro nem ponho os outros em risco. Este medo fez-me tomar uma opção dura e difícil: deixar a minha família e ficar alojado num hotel disponibilizado para profissionais de saúde, muito próximo do Hospital".

O que falta no SNS

As declarações de António Costa, no dia 23 de março, de que nada faltava ao Serviço Nacional de Saúde causaram alguma polémica entre os profissionais de saúde, muitos com equipamentos de proteção escassos para as necessidades da batalha que enfretam.

Nuno, considera, no entanto, que o primeiro-ministro português, António Costa, não pode assegurar o que faz falta.

"Neste momento, se falta algo aos médicos e profissionais de saúde, não será certamente possível ser assegurado pelo António Costa. Podia dizer que nos falta esperança ou força, mas também não é verdade, pois é isso que nos segura e move. Equipamentos de proteção individual, procedimentos de desinfeção e limpeza também não, não abundam, mas não vivemos numa bolha ou somos inconscientes ao ponto de não enquadrar o problema tal como ele é: o mundo está a lidar com isto. Todos precisamos do mesmo, os meios não são inesgotáveis, e por isso devem ser geridos com cuidado e estratégia", comenta o enfermeiro salvaguardando que "as ondas de solidariedade de cidadãos e empresas tem sido excecionais".

"O que faz falta aos médicos e enfermeiros e a todos os cidadãos que também lutam contra este vírus: sermos mais humanos, sermos mais solidários, sermos mais mundo e menos China , EUA ou Europa, sermos mais sociedade e menos capital. Faz-nos falta 'mais saúde e mais para a saúde' para que no final do dia não nos deparemos com questões éticas e deontológicas de quem pode e deve ter acesso a quê", conclui.

A mensagem para os portugueses

Nuno acredita ainda que os portugueses estão a perceber a gravidade da situação em que nos encontramos, mas revela algumas preocupações. O enfermeiro teme que no futuro, tudo isto pareça normal e se deixem de tomar as devidas precauções.

O enfermeiro pede que "sem alarmismos, mas conscientes, deveremos estar preparados para tempos difíceis e incertos" e a melhor forma "de o fazermos é ficando em casa e seguir todas a recomendações da DGS".

"Temos que ser conscientes e temos que acreditar que vamos todos conseguir ultrapassar este momento difícil. O que posso apelar e pedir a todos é que fiquem em casa, cuidem dos seus, e nos permitam cuidar de todos. Por favor, sigam as recomendações da DGS", conclui.

Nuno entrou ao serviço esta sexta-feira às 7h00 para mais um dia a lutar contra o vírus que deixou a vida e o mundo suspensos.

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