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Correio da Manhã

Sociedade
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Embaixador israelita pede a Portugal definição de antissemitismo mais concreta

Raphael Ganzou apelou a Portugal para ir além de "uma legislação genérica contra o racismo".
Lusa 13 de Fevereiro de 2020 às 19:11
Bandeira de Israel
Bandeira de Israel FOTO: Getty Images
O embaixador de Israel em Lisboa apelou esta quinta-feira a Portugal para ir além de "uma legislação genérica contra o racismo" e adotar uma definição de antissemitismo mais concreta, numa cerimónia evocativa do Holocausto na Assembleia da República.

Raphael Ganzou sugeriu que Portugal adote a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), organização a que o país aderiu há cerca de dois meses, que integra entre os exemplos do moderno antissemitismo a comparação entre a política israelita atual e a da Alemanha nazi.

"É mais importante do que nunca que a autoimagem de um Portugal tolerante, que não é, aliás, incorreta, não entorpeça a necessidade de estar 'en garde' (alerta)", declarou o diplomata.

Ganzou indicou que "até em Portugal existem elementos nas franjas mais extremas do espetro político e social que, sob a camuflagem da liberdade de expressão, da liberdade de criação ou da crítica falsamente legítima (...) legitimam as abominações que são o racismo e o antissemitismo".

Expressão de "puro antissemitismo" foi como o embaixador se referiu a "declarações de um militante político contendo insultos de caráter dirigidos aos judeus e, não menos graves, insultos a Aristides de Sousa Mendes".

"Felizmente, o seu partido entendeu que este tipo de posições não tem lugar na sua liderança", adiantou, numa referência a Abel Matos Santos, que abandonou a direção do CDS na semana passada, depois de ter sido noticiado pelo Expresso que defendeu, de 2012 a 2015, em publicações na rede social Facebook, elogios a Salazar e à PIDE, e apelidou de "agiota dos judeus" o cônsul de Portugal em Bordéus Aristides Sousa Mendes, que ajudou a salvar milhares de judeus durante a II Guerra Mundial.

Outro dos exemplos apontados por Ganzou foi o do cartoon "Crematório" do português Vasco Gargalo que mostra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a empurrar um caixão, coberto com a bandeira palestiniana, para um crematório onde está inscrito "Arbeit Macht Frei" ("O trabalho liberta"), replicando a frase que está na entrada do campo de concentração nazi de Auschwitz.

Publicado 'online', na plataforma Cartoon Movement a 15 de novembro de 2019, o cartoon foi republicado há cerca de duas semanas num comentário ao plano de paz norte-americano para o conflito israelo-árabe.

Numa carta dirigida a semana passada à revista Sábado, com a qual Vasco Gargalo trabalha, o embaixador de Israel em Portugal, tinha acusado o cartoonista de ter feito um cartoon "atascado de ódio e banalização" do Holocausto e apelado à publicação para se desvincular do autor.

"E a todos aqueles que nos 'media' sociais exprimem o seu pesar pelo facto de Adolf Hitler não ter acabado 'o serviço', eliminando todo o povo judeu, posso prometer que estamos aqui para todo o sempre e que, infelizmente para tais racistas, vamos continuar a lutar, a prosperar, a contribuir para o progresso da Humanidade e para um mundo melhor", afirmou hoje o embaixador israelita.

Assinalando o Dia de Memória do Holocausto, é também inaugurada a exposição fotográfica "Além do Dever: diplomatas reconhecidos como Justos entre as Nações", promovida pela Assembleia da República, em parceria com a Embaixada de Israel e o Yad Vaschem -- The World Holocaust Remembrance Center.

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