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Correio da Manhã

Sociedade
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Empresa portuguesa produz nitrato de amónio, o composto químico que provocou as explosões em Beirute

Substância é produzida em Portugal para adubo pela ADP Fertilizantes, mas em concentrações baixas. Risco de explosão é nulo.
Lusa 5 de Agosto de 2020 às 18:05
Nitrato de amónio
Nitrato de amónio FOTO: Getty Images
O nitrato de amónio, que terá estado na origem das explosões de terça-feira em Beirute, é produzido em Portugal para adubo, mas em concentrações baixas e o risco de explosão é nulo, garantiu hoje uma empresa fabricante à Lusa.

João Paulo Cabral, administrador da ADP Fertilizantes, explicou à Lusa que a empresa é a única a produzir o adubo em Portugal, embora haja outras que também o importam, e que o faz há mais de 60 anos, não havendo qualquer risco.

O responsável explicou que há dois tipos de nitrato de amónio, o técnico, com uma concentração acima de 28%, e o normal, com uma concentração abaixo, sendo esse que é produzido pela ADP, uma empresa que resultou da compra em 2009 pelo Grupo Fertibeira da CUF-Adubos de Portugal.

O nitrato de amónio técnico, segundo João Paulo Cabral, é matéria prima para "certo tipo de explosivos", porque se trata de "um oxidante forte" e intensifica a explosão, no caso de haver um detonador. Na explosão de Beirute as imagens indicam que tenha havido um detonador.

"Ninguém faz em Portugal o nitrato de amónio técnico, mas pode ser importado", disse o administrador, explicando que o produto, com uma concentração de 34,5%, é usado por exemplo em minas ou em túneis.

O nitrato de amónio feito em Portugal pela ADP tem como limite os 28% de concentração e com essa concentração não há perigo de explosão, frisou João Paulo Cabral, acrescentando: "Os fertilizantes não explodem".

"É um produto perfeitamente banal e não é perigoso em condições normas de armazenamento", garantiu também o responsável.

Questionado se as 2.750 toneladas armazenadas em Beirute e que terão estado na origem da explosão que devastou a cidade era um valor muito elevado, João Paulo Cabral disse que não, que há barcos que transportam até 10 a 12 mil toneladas, e admitiu que o produto armazenado em Beirute fosse nitrato de amónio técnico.

"O que se diz de Beirute é que o produto estava lá há seis anos. Não sei como estava armazenado", disse, acrescentando que o nitrato de amónio, como qualquer outro produto químico, deve ser manuseado com cuidado e que com esse cuidado "não acontece nada".

"Mesmo armazenado não é perigoso", frisou.

A ADP produz por ano cerca de 300 mil toneladas de adubo e tem auditorias periódicas, além de cumprir a legislação, disse João Paulo Cabral, reforçando que não é produzido pela empresa nitrato de amónio técnico, que no entanto é utilizado como fertilizando na agricultura em países como os Estados Unidos, Brasil ou Reino Unido.

Além disso, acrescentou, o nitrato de amónio técnico em Portugal só pode ser vendido a profissionais.

Sobre as explosões de Beirute e o súbito interesse pelo nitrato de amónio João Paulo Cabral afirmou: "Vimos sempre com apreensão estas situações, porque há uma mistura de conceitos. As pessoas preocupam-se mas não há razão".

Duas fortes explosões sucessivas sacudiram Beirute na terça-feira, causando mais de uma centena de mortos e mais de 4.000 feridos, segundo o último balanço feito pela Cruz Vermelha.

As violentas explosões deverão ter tido origem em materiais explosivos confiscados e armazenados há vários anos no porto da capital libanesa.

O primeiro-ministro libanês revelou que cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio estavam armazenadas no depósito do porto de Beirute que explodiu.

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