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Correio da Manhã

Sociedade
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Festas de verão, bailaricos e farturas: setores vivem futuro incerto devido à pandemia

Estação mais quente do ano é a altura de maior faturação, sendo que a perspetiva agora é de rendimento quase zero.
Lusa 17 de Maio de 2020 às 10:11
Festas e bailaricos de verão
Festas e bailaricos de verão
Festas e bailaricos de verão
Festas e bailaricos de verão
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Festas e bailaricos de verão
Festas e bailaricos de verão
Festas e bailaricos de verão
Teclistas, tocadores de concertina e bandas que animam os bailes e romarias de verão viram o seu principal rendimento desaparecer. Sem perspetivas de qualquer rendimento, há quem já pense em mudar de profissão.

Não são os grandes nomes que normalmente compõem os cartazes das grandes festas, mas são parte fundamental de uma máquina que ajuda a dar forma aos bailes e romarias que se realizam um pouco por todo o país durante o verão.

Para todos os artistas contactados pela agência Lusa, o verão é a altura do ano de maior faturação, sendo que a perspetiva agora é de rendimento quase zero até ao final do ano.

"Eu trabalho todo o ano, mas no inverno é só para manter e aparecer", explicou à agência Lusa Graciano Ricardo, músico de 44 anos de Pombal, que há dez vive exclusivamente da música e que normalmente dá cerca de 80 concertos na zona Centro entre maio e setembro.

O último concerto que Graciano deu foi em Paris, em 14 de março, sendo que o segundo que ia dar na capital francesa, no dia seguinte, já não se realizou devido à pandemia da covid-19.

Mesmo a receber o apoio da Segurança Social para recibos verdes, Graciano Ricardo já começa a pensar em procurar trabalho noutra área.

"A partir de junho, tenho que pensar em trabalhar numa outra área, como a pintura na construção civil, onde cheguei a trabalhar quando era mais novo. É incomportável ficar em casa à espera que isto passe", vincou.

Marco Gomes, jovem acordeonista do Algarve, que vive exclusivamente da música há cerca de quatro anos, diz que desde meados de março que só recebe chamadas para cancelar presenças em bailes de verão.

"Eu meti na minha cabeça que vou esperar mais um mês ou dois. Se continuar assim, atiro-me para outro trabalho para aguentar isto, porque estar parado não dá com nada", salientou Marco Gomes.

Já o veterano Leonel Nunes, músico da Guarda com mais de 40 anos de carreira, diz que ainda tem meia dúzia de concertos que não foram cancelados, apesar de saber que não se vão realizar.

"Graças a Deus, tinha um verão preenchido", comentou.

"Agora, tem que se apertar mais o cinto e esperar que para o ano esteja melhor", disse Leonel Nunes, esperando que, a partir do final de setembro, já possa fazer alguns concertos.

Para Tiago Silva, tocador de concertina da Pampilhosa da Serra, o rombo não foi tão grande, porque tem um 'part-time' na Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC), onde dá aulas de música.

"Com o 'part-time', consigo olhar com um pouco mais de tranquilidade para o futuro. Quando isto passar, espero retomar as festas com o dobro da força para trabalhar naquilo que me dá alento e muito gosto", afirmou Tiago Silva, que tem aproveitado estes dias também para compor e preparar um novo disco.

Também Álvaro Lopes, líder do grupo Oásis Trio, de Castelo Branco, não vive exclusivamente dos concertos. Porém, o resto do trabalho que tem é ligado à música e, com o setor quase todo parado, a faturação que regista não chega.

"Quando me deito só penso numa alternativa à música, em arranjar um negócio ou trabalho noutra área que não seja esta", admitiu o único músico do grupo que vivia da música.

Se a maioria dos profissionais a trabalhar nas feiras e bailes têm empresas unipessoais, há também casos de empresas com alguma dimensão que trabalham não apenas a vertente do espetáculo, como toda a área de produção e montagem de palcos associada às romarias.

Em Vila Verde da Raia, Chaves, a Trazmúsica emprega 54 funcionários, entre músicos de quatro bandas, técnicos, pessoal de montagem de palcos e a linha de produção de camiões-palco.

Os trabalhadores estão em layoff3 e quase todos aqueles que eram recibos verdes deixaram de receber em abril, contou à agência Lusa o responsável da Trazmúsica, Mário Nuno Teixeira.

"Temos que fazer um plano financeiro muito rigoroso porque serão pelo menos seis meses sem faturação. Custa-me imenso não poder pagar aos colaboradores a recibo verde, mas não há empresa que aguente isto", justificou.

Ruizinho de Penacova, que conta já com 20 anos de carreira, deixou o emprego de carteiro para se dedicar por inteiro à música a partir de 2006.

"No verão, é tocar, trabalhar e dormir. São quase 90 dias a esgalhar, sem parar", explicou.

Desde 06 de março que não tem qualquer concerto.

"Eu vou comendo e bebendo do que está dentro da panelinha, mas não dura para sempre. O que é que eu tenho que fazer? Tenho que arregaçar as mangas e trabalhar noutro ramo. Tenho que descer as escadas do estrelato e arranjar outra coisa, nem que seja a roçar silvas", disse à Lusa o músico.

Graciano Ricardo não tem ilusões em relação ao futuro e acha que mesmo retornando os concertos em outubro ou novembro, serão noutras condições e com 'cachets' mais baixos.

Para além disso, há também a discussão sobre o que é cultura e que cultura deve ou não ser apoiada.

"As pessoas esquecem-se que nós também somos cultura. O povo mais velho vai às nossas festas. Deviam ir às aldeias e ver como tiramos os idosos de 80 anos de casa e os pomos a dançar", realçou.

Apesar da esperança que no verão de 2021 já tudo esteja relativamente normalizado, Graciano Ricardo tem dificuldade em olhar para o futuro.

Só na semana passada, dois meses após o último concerto que deu, é que teve coragem de tirar os teclados da caixa e ensaiar.

"As pessoas conheciam a minha alegria no palco e querem diretos, mas não tenho sentido motivação para isso. A frustração é tão grande para quem gosta disto, para quem deixa a pele no palco", afirmou Graciano Ricardo.


"Não temos outro meio de subsistência": Pandemia "roubou" sustento a vendedores de farturas em feiras e romarias

Farturas polvilhadas de açúcar e canela, e pães com chouriço acabados de sair do forno geram habitualmente filas nas feiras e romarias portuguesas, muitas das quais não se realizarão este ano, deixando quem os vendia sem saber como sobreviver.

"Numa situação normal, por esta altura, teríamos praticamente tudo pronto para começarmos a trabalhar em Vila Real", contou à agência Lusa Carlos Gonçalves, das Farturas de Lisboa - Brunato.

Ao Santo António de Vila Real, seguir-se-iam as Gualterianas de Guimarães, a Feira de São Mateus de Viseu, a Feira dos Santos de Chaves e o São Martinho de Penafiel.

Mas, devido à pandemia de covid-19, este não está a ser um ano normal e, por isso, Carlos Gonçalves e a família estão parados.

"Há mais de 40 anos que vivemos disto, não temos outro meio de subsistência. Costumávamos sair a partir deste mês, até novembro", contou.

Por esta altura, estariam a trabalhar "três ou quatro funcionários, mais a família", e, para julho e agosto, a equipa teria de ser reforçada com "dez ou doze pessoas".

Para já, Carlos Gonçalves não consegue fazer uma estimativa do prejuízo, sabendo apenas que é bastante grande, até porque o negócio está parado desde novembro de 2019, mas "mantêm-se as despesas dos seguros, da logística, dos camiões, das rulotes" e da vida familiar.

"Somos como a formiga, juntamos durante o verão para gastar no inverno. Mas o que ganhámos no verão praticamente já foi", lamentou o empresário, que mantém ainda a esperança de conseguir fazer as festas de Chaves e de Penafiel, em outubro e novembro, para ver se consegue "amealhar um bocadinho para o próximo inverno".

Também António Oliveira está preocupado com o negócio da família, cujo sustento provinha da venda das farturas nas Festas Gualterianas e na Feira de São Mateus.

Só na Feira de São Mateus, que dura cerca de cinco semanas, a família Oliveira costuma ter entre 40 a 50 funcionários a trabalhar.

"São funcionários temporários. Muitos deles já vinham trabalhar connosco há vários anos, quer em Guimarães, quer em Viseu", contou António Oliveira à Lusa, acrescentando que eram sobretudo "estudantes universitários que aproveitavam para juntar um dinheirinho para o tempo de aulas".

Também O Tomarense, conhecido pelos pães com chouriço em forno de lenha e pelo caldo verde, está há meio ano sem fazer negócios.

"Quem vive só das festas e romarias e investe as poupanças para ampliar e modernizar o negócio está a sofrer grandes consequências", afirmou Manuela Santos.

Num ano normal, os seus pães com chouriço teriam começado a ser vendidos no final de abril, na Festa das Cruzes de Barcelos, e terminariam em outubro, na Feira de Santa Iria de Tomar.

Pelo meio, poderiam ser saboreados nas festas do Senhor de Matosinhos, no São João de Braga, nas Gualterianas e na Feira de São Mateus, num "ciclo de rendimentos" de cerca de seis meses que este ano não se vai cumprir.

"Felizmente, a minha empresa é sólida. Tenho todos os meus impostos em dia, terei o ativo suficiente para fazer liquidez aos malditos impostos que, independentemente de não estar a trabalhar, tenho que pagar, mas a nível pessoal as coisas têm de ser muito mais controladas", admitiu.

Habitualmente, tinha onze pessoas a trabalhar consigo, mas hoje "estão todas no fundo de desemprego".

Dos pontos de venda de Márcio Saraiva também costumam sair aromas que atraem miúdos e graúdos aos crepes, 'waffles', bolachas americanas e tripas de Aveiro.

O negócio começou na Feira de São Mateus, em Viseu, que é o grande evento que o consegue sustentar durante o ano, mas costuma também participar noutros, como feiras do queijo e festas da cidade, muitas das quais foram canceladas.

"Ainda não fiz contas, mas o prejuízo será muito grande", frisou.

Outro produto muito apreciado é a ginjinha, que Eunice Batista vende, quer em grandes certames, como a Feira de Março de Aveiro e a Feira de São Mateus de Viseu, quer em pequenas festas de aldeia.

"Quando isto (a pandemia de covid-19) começou, ia arrancar a época forte", disse Eunice Batista à Lusa.

Ainda que consiga ir realizando alguns eventos durante o inverno, o cancelamento da Feira de São Mateus é "o que mais transtorno causa, porque é uma feira muito intensa, muito boa".

"A época de inverno é muito mais fraca. A partir de março/abril, até setembro, é que realizamos dinheiro para os meses em que não trabalhamos ou trabalhamos menos", contou.

Com os lucros deste verão perdidos e poucas esperanças depositadas no que acontecerá a partir de outubro, estes empresários não conseguem vislumbrar o que o futuro lhes reserva.

"Nunca estive tão ansiosa que chegasse dezembro, para ver se 2021 nos traz mais tranquilidade, muita bonança e a vacina", frisou Manuela Santos.

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