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Correio da Manhã

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"Há casos em que o vírus consegue invadir o cérebro": neurologista alerta para sequelas da Covid-19

Cientistas e médicos estão a estudar a hipótese do coronavírus poder deixar sequelas neurológicas.
Vanessa Fidalgo 11 de Abril de 2020 às 10:08
Isabel Luzeiro é neurologista
Isabel Luzeiro é neurologista FOTO: Direitos Reservados

A presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, Isabel Luzeiro, alerta para potenciais sequelas neurológicas após a infeção por Covid-19.   

Que influência tem a Covid-19 a nível neurológico?
- Pensa-se que pode ter diversas implicações neurológicas a nível do Sistema Nervoso Central (SNC), do periférico (SNP) e da própria fibra muscular. A perda de olfato (anosmia) e a perda de paladar (ageusia) tem sido referidos como sintomas da infeção por SARS-CoV-2, o que revela atingimento de nervos cranianos. Análises sanguíneas feitas a pacientes infetados podem revelar níveis elevados de uma enzima (designada por creatina cinase, frequentemente conhecida apenas por CK), como resultado de destruição das células musculares. Já foram descritos casos em que se detetou o vírus no líquido cérebro-espinhal (que envolve o SNC), o que significa que ele tem capacidade para invadir o compartimento intracraniano.  Têm sido reportados alguns casos mais graves, em que se documenta uma invasão pelo vírus do cérebro (encefalite).

- A longo prazo pode deixar sequelas neurológicas?
- Ainda é cedo para saber isso, mas tudo aponta para que tal possa acontecer. Pode ocorrer miopatia (doença da fibra muscular) por causa da permanência nos Cuidados Intensivos e há ‘agressões’ que podem ser cumulativas e potenciar o dano do SNP. Algum tempo depois da doença (Covid-19), podem surgir outras patologias envolvendo o SNP, tal como o síndrome de Guillain-Barré (uma fraqueza de aparecimento súbito e caráter ascendente, causada pelo próprio sistema imunitário que, equivocado, começa a agredir o SNP).

O MEU CASO
José Rosa, presidente da URPI da Ameixoeira 
"Uma grande tristeza para todos"
José Rosa é o presidente da União de Reformados, Pensionistas e Idosos da Ameixoeira, que costumava reunir mais de uma centena de sócios todas as tardes, em amena cavaqueira e convívio. Com a chegada da pandemia, a rotina dos seniores - grande parte a viver sozinhos na cidade de Lisboa - mudou. "É uma grande tristeza para todos, porque era aqui que se distraíam e combatiam a solidão. Muitos não têm família. A outros dispensávamos uma sopa para o jantar e mais um pão do lanche, porque sabíamos que tinham carências. Agora, não pode ser...", lamenta José Rosa, que já está a preparar-se para o embate com o futuro. 

"As carências vão aumentar e já nos estamos a preparar para isso. Mas antes, quando tudo isto acabar, vamos fazer um grande almoço de convívio! E organizar uma noite de fados com fins solidários", garante José Rosa. Ele próprio, embora habituado a lidar com as questões associadas ao envelhecimento e à longevidade, enfrenta novos desafios na sua família. "A minha mãe, de 92 anos, está num lar em Lisboa. Felizmente não há conhecimento de nenhum caso dentro do lar e eles têm tido o máximo cuidado diariamente, mas a distância custa-lhe muito. Estava habituada aos abraços dos filhos, aos beijinhos dos netos, à nossa comidinha aos fins de semana e agora nem isso... queixa-se muito", conta. A saudade é apaziguada com a ajuda das funcionárias do lar: "são incansáveis. Falamos para lá duas vezes por dia e, sempre que podem, põem-nos a conversar via Skype ou Whatsapp. É uma emoção!...".

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