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Correio da Manhã

Sociedade
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População de Montemor-o-Velho passou Natal a vigiar o nível da água

Moradores de aldeia de Ereira em risco de cheia passaram noite de Consoada em claro, preocupados com as habitações.
Paula Gonçalves 26 de Dezembro de 2019 às 08:12
Nível da água já baixou na localidade de Lavariz, Montemor-o-Velho, mas a população continua preocupada
José Pardal, 65 anos, foi obrigado a passar o Natal fora de casa
António Cabeça ficou com a casa inundada e teve de ser retirado
Aldeia de Ereira está rodeada de água
Nível da água já baixou na localidade de Lavariz, Montemor-o-Velho, mas a população continua preocupada
José Pardal, 65 anos, foi obrigado a passar o Natal fora de casa
António Cabeça ficou com a casa inundada e teve de ser retirado
Aldeia de Ereira está rodeada de água
Nível da água já baixou na localidade de Lavariz, Montemor-o-Velho, mas a população continua preocupada
José Pardal, 65 anos, foi obrigado a passar o Natal fora de casa
António Cabeça ficou com a casa inundada e teve de ser retirado
Aldeia de Ereira está rodeada de água
A população que reside na zona baixa de Ereira, Montemor-o-Velho, passou a noite de Natal em sobressalto, a vigiar o nível da água, que mantém submersos os campos agrícolas em redor da aldeia. Quirino Paulo, 69 anos, passou a noite em claro: "Às 00h00 fui ver o nível da água e tinha mais cinco centímetros de altura. Nem disse nada à minha mulher para ela não entrar em pânico." Não era o único habitante preocupado. Pelas 03h00 "estava tudo cheio de gente" junto à praia fluvial.

O nível da água baixou esta quarta-feira consideravelmente no vale do Mondego, à exceção daquela zona, onde subiu ligeiramente. "Continuamos em sobressalto porque ainda há muita água a montante e nas casas da zona baixa o risco mantém-se", diz Joaquim Sousa, presidente da Associação Cultural, Desportiva e Social.

Fernando Leite, de 73 anos, comprou casa na Ereira e mudou-se para a aldeia há seis meses. "Se me tivessem dito que isto ia acontecer nunca teria comprado casa aqui", assegura, ao lembrar que passou as últimas quatro noites sem descansar. "Tenho medo e como não sou de cá e nunca passei por isto, ainda pior. Andei a colocar os bens em locais mais altos, foi um desassossego", recorda.  

Joaquim Romualdo, de 73 anos, já enfrentou várias cheias, mas reconhece que desta vez a água está a permanecer mais tempo nos campos. "É aborrecido passar esta época desta forma atribulada". E acredita que se continuasse a chover "estávamos agora com água pelo pescoço".

Moradores revoltados com ministro
Alguns moradores do Baixo Mondego estão revoltados com as declarações do ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, que defendeu que "paulatinamente aquelas aldeias vão ter de ir pensando em mudar de sítio", sugerindo a sua deslocalização. "Eu mudo para o monte se o ministro me der dinheiro para construir uma casa", refere Joaquim Sousa, de Ereira, Montemor-o-Velho, aconselhando o governante a preocupar-se mais "com a manutenção das margens do rio em vez de andar a deixar as pessoas ainda mais aflitas do que já estão".

José Pardal, de Lavariz, afirma estar disponível para lhe vender a casa, "desde que o dinheiro seja suficiente para pagar uma nova". Na mesma localidade, António Cabeças, pergunta: "E para onde quer que vá? E quem compra?" Para os moradores as declarações do ministro são "ofensivas", e "já basta o que aconteceu".

Moradores com casas inundadas não regressaram
Os nove habitantes da parte baixa de Lavariz, Montemor-o-Velho, que tiveram de ser retirados das casas na madrugada de domingo após o colapso do segundo dique, ainda não regressaram. António Cabeça não se conforma com a situação: "O que mais me custa é passar noites fora de casa." Pede inclusivamente para não falarmos com a filha, que está a limpar a casa, para não "a empatar" e ela poder terminar o trabalho a tempo de conseguir ir dormir a casa. 

Habitante obrigado a sair de casa passou dia a limpar
José Pardal, 65 anos, de Lavariz, Montemor-o-Velho, passou a manhã de quarta-feira a limpar a casa onde a água chegou a atingir os 70 centímetros de altura. "Tenho tudo estragado", lamenta o habitante, que foi obrigado a passar o Natal fora de casa.

Ereira é uma aldeia cercada pela água
A povoação da Ereira é conhecida por ‘ilha’ por estar rodeada de água. "É uma zona muito bonita", reconhece Fernando Leite, mas com cheias "é assustador". Quem ali reside desde sempre já se habituou às cheias e a ter de tomar medidas sempre que há risco.

Nível das águas desce no baixo Mondego
O nível das águas continuou esta quarta-feora a descer no Baixo Mondego. Em Lavariz, onde a água invadiu quatro casas e deixou uma estrada submersa, a situação era esta quarta-feira mais calma, com a estrada já transitável.

PORMENORES
Trabalho intenso
Os meios dos bombeiros continuam de prevenção e a ser requisitados pela população para retirar água de algumas zonas ou remover árvores que foram arrastadas pelas correntes fortes.

IP3 já foi reaberto
A circulação no IP3, na zona de Penacova, já foi reaberta, mas apenas no sentido Viseu-Coimbra. No sentido inverso, a passagem continua interdita entre o nó de Espinheira e o nó de Miro. Na origem do corte de trânsito estiveram os efeitos da depressão ‘Elsa’: queda de terra e pedras na via.

Três mortos
Os efeitos do mau tempo, que se fizeram sentir ao longo da semana passada, provocaram a morte de três pessoas e deixaram 144 desalojadas. Outras 352 pessoas foram deslocadas por precaução. No total foram registadas mais de 11 600 ocorrências, sobretudo inundações e quedas de árvores.

A cheia mais grave
As populações do vale do Mondego que residem nas zonas mais baixas das aldeias estão habituadas às cheias. No entanto, referem que esta foi a mais grave, tendo atingido um nível superior à de 2001 em várias localidades. Por outro lado, antigamente "a cheia entrava e saía rapidamente, desta vez está a ficar mais tempo", contam.
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