Barra Cofina

Correio da Manhã

Sociedade

Socióloga diz que pandemia de coronavírus é a rutura mais extraordinária desde o 25 de Abril

Portugal está agora a funcionar à distância, organizando-se em teletrabalho, o que a investigadora vê como uma "sociedade aos quadradinhos".
Lusa 30 de Abril de 2020 às 08:58
Coronavírus
Coronavírus FOTO: Getty Images
A socióloga Ana Nunes de Almeida considera que a atual pandemia é a rutura mais extraordinária que viveu desde o 25 de Abril de 1974, provocando o sentimento inverso, de privação da liberdade e impedimento de abraçar o próximo.

"É um sentimento de prisão, de clausura, de claustrofobia, de isolamento. Não há como sentir na pele que as sociedades se organizam com base nas relações pessoais, emocionais, e não através das narrativas ou das imagens. Falta-nos o som, o olfato, os ambientes das pessoas juntas", afirmou em entrevista à agência Lusa a investigadora coordenadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

Tal como outros países, Portugal está agora a funcionar à distância, organizando-se em teletrabalho, o que a investigadora vê como uma "sociedade aos quadradinhos".

"A sensação que tenho é que quando estamos em frente do ecrã, está ali um somatório de pessoas (...) todos ao lado uns dos outros", sustentou Ana Nunes de Almeida, defendendo que em contacto direto o todo "vale mais do que a soma das partes".

A mudança resultante da pandemia de covid-19 "tem características e uma natureza completamente diferentes, mas foi também assim a sensação [em 1974] de um dia acordarmos e de ser tudo diferente", disse.

Como cidadã, a socióloga não tem dúvidas de que a atual situação, provocada pela pandemia de covid-19, é dos acontecimentos de rutura mais extraordinários que viveu: "Outra rutura mais extraordinária na minha vida acho que só o 25 de abril, com um sentido completamente diferente", recordou.

Enquanto o 25 de abril foi sobretudo "o sair para a rua", a rutura imposta pelas medidas destinadas a controlar o contágio pelo novo coronavírus resultaram num estado de emergência que mudou radicalmente a vida em sociedade, pelo confinamento social e pela paragem de muitas atividades.

Tal como no passado, vivem-se momentos de incerteza, de consequências ainda imprevisíveis, mas sem motivos para festejar.

"É uma grande incerteza e viver com incerteza é muito difícil para todos", sublinhou.

A rutura [com o regime] em 1974 foi "uma festa de alegria, de liberdade" na rua, com as ruas cheias, as pessoas a abraçarem-se, a sentirem-se próximas fisicamente umas das outras, lembrou Ana Nunes de Almeida. "Era uma coisa absolutamente extraordinária, era um sentimento de libertação, enquanto este é um sentimento de prisão", observou a investigadora que integra a equipa ICS-ISCTE que está a estudar o impacto da pandemia.

A nível global a pandemia de covid-19 já provocou mais de 217 mil mortos e infetou mais de 3,1 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Em Portugal, morreram 973 pessoas das 24.505 confirmadas como infetadas, e há 1.470 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), encerraram o comércio não essencial e reduziram drasticamente o tráfego aéreo, paralisando setores inteiros da economia mundial.

Face a uma diminuição de novos doentes em cuidados intensivos e de contágios, alguns países começaram a desenvolver planos de redução do confinamento e em alguns casos a aliviar diversas medidas.

Mais informação sobre coronavírus AQUI.

MAPA da situação em Portugal e no Mundo.

SAIBA como colocar e retirar máscara e luvas.

APRENDA a fazer a sua máscara em casa.

CUIDADOS a ter quando recebe uma encomenda em casa.

DÚVIDAS sobre coronavírus respondidas por um médico

Em caso de ter sintomas, ligue 808 24 24 24

Ana Nunes de Almeida Portugal questões sociais coronavirus covid19
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)