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Correio da Manhã

Tecnologia

Novas técnicas na urologia

Durante anos o cancro da próstata foi uma sentença de morte; a incontinência urinária uma vergonha; o aumento do tamanho da próstata um problema com tratamento arriscado. Hoje os avanços na tecnologia permitem olhar para muitos destes problemas com outros olhos.
3 de Junho de 2007 às 00:00
Novas técnicas na urologia
Novas técnicas na urologia FOTO: Mariline Alves
No bloco operatório a parafernália de instrumentos reduz-se, o tempo de internamento é mais curto, contrastando com a qualidade de vida dos doentes, cada vez maior. Responsáveis por isso são os avanços tecnológicos que, na urologia como noutras áreas, têm permitido aos médicos salvarem mais vidas.
“A urologia tem sido muito bem dotada tecnologicamente, com avanços em todas as áreas”, confirma ao CM o especialista Paulo Guimarães, do British Hospital. Uma delas tem sido a hiperplasia benigna da próstata – aumento do volume prostático – problema que, segundo o urologista, acaba por afectar todos os homens.
“Alguns não chegam a ter sintomas e outros, que os têm, são tratados com medicamentos.” Mas para trinta por cento a cirurgia é a única alternativa. E Portugal pode orgulhar-se de ter a tecnologia mais avançada para o tratamento.
“Há vinte anos tínhamos que fazer uma cirurgia aberta. Hoje temos a vaporização e os lasers, que permitem as cirurgias de um dia. Em menos de 24 horas o doente pode ir para casa.” As vantagens são inúmeras. Além do conforto do doente, que recupera rapidamente e com menos sequelas, há a poupança de recursos e dinheiro, já que o internamento é quase inexistente e deixou de haver necessidade de transfusão de sangue. A técnica, conhecida como VPF luz verde, usa um laser de última geração e permite vaporizar – ou seja, eliminar – o tecido, evitando, ao mesmo tempo, a possibilidade de hemorragia. Faz-se em Portugal há três anos, sendo o British Hospital, em Lisboa, o que mais doentes tem operado no País – cerca de 300. No entanto, contam-se ainda pelos dedos de uma mão as unidades de saúde que fazem este tratamento, insuficientes para fazer frente ao número de doentes.
CIENTISTAS PROCURAM ALTERNATIVAS
O cancro da próstata é a segunda causa de morte por cancro nos homens, logo a seguir ao do pulmão. Nesta área da urologia o investimento da Medicina, com a ajuda da tecnologia, tem permitido reduzir o número de mortes, aumentando a esperança e a qualidade de vida dos doentes. Desde a tradicional cirurgia até à braquiterapia – tratamento que recorre à radiação implantada directamente nos locais onde se desenvolve o cancro – passando pela criocirurgia, que consiste na congelação dos tecidos, o arsenal ao dispor dos médicos é cada vez maior, o que permite um maior optimismo. Segundo Paulo Guimarães, o futuro promete ainda mais novidades. “A nossa grande ansiedade é que se consiga criar medicamentos que evitem as cirurgias. Depois, há ainda a área da genética que, num futuro mais longínquo, vai permitir resolver muitos problemas”, disse ao CM o cirurgião do British Hospital
"TEMOS DO MELHOR QUE SE FAZ", Paulo Guimarães, urologista
- Correio da Manhã – Os doentes portugueses que sofrem de problemas urológicos, como a hiperplasia benigna da próstata, recebem, em Portugal, o melhor tratamento ou têm de procurar lá fora?
- Paulo Guimarães – Na minha área não precisam de ir ao estrangeiro para ter o mesmo tratamento. Por cá temos do melhor que se faz neste momento.
- A medicina tem conseguido evoluir muito graças, também, aos avanços tecnológicos. Mas tudo isto tem, obviamente, os seus custos...
- Sim, a desvantagem de muitas das novas técnicas é o custo da tecnologia de ponta. Mas é um preço que já sabemos que temos de pagar.
-Terá o Sistema Nacional de Saúde capacidade para fazer frente a estes custos crescentes?
- Penso é que devia haver um maior rigor nos gastos dos orçamentos. O investimento em determinada tecnologia pode ser elevado, mas há outros custos que, muitas vezes, não são equacionados.
- Entre os quais...
- Por exemplo, os gastos com internamento, as faltas dos doentes ao trabalho... Tudo isto, com as novas técnicas, pode ficar muito reduzido. Aliás, hoje em dia a medicina evolui cada vez mais para a cirurgia com recobro de apenas um dia, com menos gastos a todos os níveis.
APARELHO AVALIA RISCO DE INCONTINÊNCIA URINÁRIA
São mais de 650 mil os portugueses, sobretudo mulheres, obrigados a viver com as perdas frequentes de urina a que a medicina chama incontinência urinária, problema que força quem dele padece ao isolamento, por força da vergonha. Muitos são os que vivem a doença em silêncio, com consequências na vida social, familiar e laboral. Mas também nesta área da urologia os avanços da Medicina, com o auxílio de modernas tecnologias, têm permitido melhorar a qualidade de vida dos doentes, oferecendo-lhes, em muitos casos, o mais desejado: a independência das fraldas.
Além das já existentes, Portugal está a desenvolver uma técnica pioneira que resulta de uma parceria entre as faculdades de Medicina e de Engenharia do Porto, o Hospital de São João e vários centros internacionais. Trata-se de um aparelho que vai medir a força dos músculos do pavimento pélvico e avaliar o risco de incontinência.
De acordo com Teresa Mascarenhas, uma das especialistas que se encontram ligadas ao projecto, o aparelho está em fase de testes, pelo que se espera que a comercialização possa vir a ser feita num “futuro breve”. A grande vantagem é a possibilidade de um diagnóstico precoce que, por sua vez, pode levar a tratamentos igualmente precoces e a uma melhoria das condições de vida dos doentes.
Mas os avanços não ficam por aqui. Ao nível da investigação, cientistas canadianos deram também um passo importante, sob a forma de um trabalho realizado com células estaminais. Os autores, especialistas da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e do Centro de Ciências da Saúde Sunnybrook, em Toronto, submeteram oito mulheres com perdas de urina por esforço a uma biopsia de tecido muscular. Através das amostras recolhidas conseguiram isolar as chamadas células-mãe e multiplicá-las em laboratório. As pacientes receberam depois injecções das suas próprias células estaminais numa área situada à volta da uretra. Cinco delas asseguraram ter conseguido melhorar o controlo da bexiga, aumentando, desta forma, a sua qualidade de vida.
NÚMEROS
- 50 milhões de pessoas sofrem em silêncio, no Mundo, com incontinência urinária. Mais de 650 mil são portuguesas
- 76,1 por cento do total de mulheres portuguesas, de acordo com um inquérito nacional, já ouviu falar da incontinência urinária
- 1800 portugueses morrem, todos os anos, vítimas do cancro da próstata, de acordo com as estimativas nacionais
- 250 mil homens, em todo o Mundo, são diagnosticados todos os anos com cancro da próstata e dos testículos, revela a OMS
- 50% dos portugueses com mais de 60 anos e quase 90 por cento acima dos 80 sofre de hiperplasia benigna da próstata
- 30% dos que sofrem um aumento do volume da próstata têm de ser tratados com recurso a intervenções cirúrgicas
SINTOMAS E TRATAMENTOS DAS DOENÇAS DAS VIAS URINÁRIAS
RISCOS
As perdas de urina são duas vezes mais frequentes no sexo feminino. Entre os factores de risco destaque para a idade avançada, maternidade, tabagismo ou obesidade.
PERDAS
A incontinência urinária pode ser constante, sempre presente ou de esforço, o que acontece muito nas mulheres depois da menopausa, com consequências familiares e sociais.
TÉCNICAS
Para o tratamento da incontinência urinária há ainda o recurso a injecções de botox no músculo da bexiga. Os resultados da intervenção possibilitam um controlo que dura vários meses.
LASER
Com o tratamento VPF (Vaporização Fotoselectiva da Próstata) para a hiperplasia benigna da próstata, sequelas como a impotência ou a incontinência caem para os zero por cento.
INVESTIGAÇÃO
A investigação continua e os cientistas têm descoberto novos medicamentos para tratar o cancro da próstata, alguns dos quais prometem reduzir o número de cirurgias efectuadas.
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