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Trocaram o stress por uma vida zen

Não suportavam o que faziam e seguiram outro caminho. Quase todos ganham menos, mas dizem que são mais felizes.
Por Sónia Bento 27 de Novembro de 2019 às 07:00

Acordar de madrugada na China, apanhar um avião para Lisboa, comer um frango assado a correr, dormir num hotel – sem tempo de ir a casa – e apanhar outro avião para Nova Iorque na manhã seguinte. Está cansado só de ler? Sandra Correia também se fartou de viver entre aviões, conta a própria. E foi por isso que, em agosto de 2016, decidiu vender a empresa Pelcor para se tornar mentora espiritual. "Senti que já não tinha mais nada para dar à Pelcor e, como sou uma pessoa de missões, quis seguir o meu coração e ensinar as pessoas a serem mais felizes. Apercebi-me de que a maioria dos empresários eram muito stressados e que eu conseguia ter paz. No fundo, quis ajudar essas pessoas a diminuírem a sua ansiedade, a terem uma vida mais plena." Sandra conta que o "mentorismo" não nasceu de um dia para o outro – há 13 anos que pratica reiki e meditação, o que lhe permitiu manter o foco no trabalho.

Como empresária, a sua estratégia de marketing levou-a a tentar concretizar sonhos: em 2008, quando Madonna deu um concerto em Lisboa, fez-lhe chegar um saco de ginástica em cortiça, com um M desenhado. Ofereceu outra mala à cantora Pink e um guarda­-chuva e uma gravata ao Presidente Obama. "O meu objetivo era que tivessem contacto com a matéria-prima e com algo personalizado."

Depois de vender a Pelcor a angolanos, Sandra ficou um ano a descansar na sua terra, Vilamoura, no Algarve, e em 2018 mudou-se para Lisboa, onde vive com a sua cadela Corky. Registou a marca O Amor Existe e faz sessões de "mentoria" profissional sobretudo com empresários que, como diz, pretendem expandir os seus negócios e "não conseguem muitas vezes por bloqueios relacionados com a parte pessoal". Também faz iniciações de reiki e leituras de aura, que são as suas especialidades, e "mentoria pessoal", que é orientação de vida. Financeiramente, esta nova atividade não é tão rentável como a de empresária, mas não se arrepende: "Não ganho para luxos, mas não é isso que me motiva." O sonho de Sandra, de 47 anos, é ir viver para a Califórnia e diz ter a certeza de que o vai concretizar. "Percebo que possa ser estranho pensar assim, mas sei que estou em Lisboa de passagem. A minha cultura é muito americana, foi nos Estados Unidos que cresci espiritualmente." 

Mudar de vida, e mudar para uma vida muito diferente, é atualmente uma tendência. Dados de um inquérito do LinkedIn, de 2015, indicam que uma em cada três pessoas que mudaram de emprego também mudaram totalmente de carreira. Além disso, o número de candidatos ativos – aqueles que procuram todas as semanas novas oportunidades – aumentou para 36% nos últimos 4 anos. A psicóloga Catarina Mexia confirma esta tendência: "Optar por outra carreira é claramente uma característica dos nossos tempos, o que antes era malvisto em termos profissionais e até sociais. Hoje, é ao contrário. As pessoas perseguem os seus sonhos, querem fazer algo que lhes dê maior satisfação, mas muitas vezes as responsabilidades impedem­-nas de arriscar."

Vinho e queijos da terra
Ricardo Teixeira Gomes também conseguiu realizar esse sonho há seis anos. Fez carreira na Publicidade e no Marketing em diversas multinacionais (foi diretor para a área das tecnológicas na Ongoing), mas sempre se sentiu frustrado por não ter tempo para a família – e para ele próprio. "Era bem-sucedido, mas chegava a trabalhar 14 horas por dia – uma obscenidade – e não era feliz. Quando chegamos aos 40 começamos a refletir um pouco sobre isso e foi o que aconteceu comigo." Também está longe de ser caso único: segundo um estudo do dinamarquês Happiness Research Institute, as pessoas que se sentem mais felizes no trabalho são as que sentem que têm uma missão ou um propósito na sua profissão. E quando isso não acontece, sobretudo a partir dos 40 anos, começam a ficar mais ansiosas e a procurar carreiras com significado.

Em 2013, Ricardo visitou um amigo que se tinha mudado para Bali e encontrou a vocação que lhe faltava. Encontrou então um "spot incrível" para abrir um eco boutique­-hotel, um conceito que não existia na região. Vendeu a casa de Lisboa, construiu uma perto do hotel que estava a desenvolver e, em 2015, mudou-se para Bali com a mulher, que trabalhava na área da decoração, e os dois filhos, então com 6 e 13 anos. "Senti pressão da família e dos amigos pela decisão radical de largar tudo e ir para o outro lado do planeta abrir um hotel. Eu próprio tive receios, mais pelos meus filhos, mas hoje os dois agradecem-me. Estão superbem integrados, estudam num colégio australiano, praticam surf e já falam indonésio. Isso dá-me uma sensação de missão cumprida. Além de que o meu projeto não podia estar a correr melhor. Hoje, o Gravity, tem 15 bungalows e vai ter mais oito", contou por WhatsApp.

Aos 52 anos, costuma dizer que tem duas vidas, a de antes e a de depois de Bali: "Há 10 anos, era um homem obeso, porque tinha uma rotina sedentária de reuniões e almoços. Hoje, peso menos 30 quilos, deixei de fumar, faço ginástica e sinto-me muito bem." As imensas saudades da família, dos amigos e da comida portuguesa resolve-as com visitas regulares. "A Indonésia é um país lindíssimo, mas ainda está em desenvolvimento. Por exemplo, ir ao supermercado é uma tragédia. A qualidade da carne e do peixe não é boa e há muito pouca variedade de produtos. Em Lisboa, quando entro num Pingo Doce, sinto-me na Disneyland. Trago vinhos, queijos e bacalhau – mesmo à emigrante. Mas toda a gente diz que tenho uma vida fantástica. E tenho!" 

Dos conflitos de egos à paz
Após quase três décadas a trabalhar como chefe de guarda-roupa em anúncios de TV e cinema, e como produtora de moda em revistas, Maria João Pais, de 48 anos, tornou-se terapeuta de Quântica. Apesar de no início adorar o que fazia, com o tempo deixou de sentir prazer. "Aquele trabalho começou a fazer-me mal porque acordava muito cedo, andava sempre a correr, era um meio em que havia muitos conflitos de egos e eu nunca tive feitio para lambe-botas. Sentia-me sempre cansada e zangada, mas não tinha alternativa", revela – e não se via a fazer outra coisa.

Procurou ajuda psicológica até que, em 2008, uma amiga a levou à Terapia Quântica. Sentiu-se muito melhor e em 2017, em conversa com o seu terapeuta, foi desafiada a tornar­-se colega dele. Primeiro, achou que não se encaixava mas, de um dia para o outro, decidiu comprar a máquina e começar a formação. Investiu 20 mil euros no Biofeedback, um aparelho que, ligado a um computador, faz o diagnóstico através de fitas eletrodérmicas colocadas nos punhos, tornozelos e cabeça. "A máquina reequilibra o corpo ao nível físico e emocional. Estimula o sistema imunitário, equilibra o sistema hormonal e linfático, estabiliza o ritmo cardíaco, faz detox", explica. Apesar da "enorme diferença" entre o que ganhava antes e agora, Maria João não tem dúvidas: "Prefiro mil vezes viver assim. Até porque também mudei o meu estilo de vida. Encontrei uma paz imensa porque fazer terapia tem muito mais a ver comigo. Se pudesse, não cobrava a ninguém." A terapeuta faz sessões de Quântica no Clube VII, em Lisboa, em empresas e também ao domicílio. E ainda trabalha para duas revistas com as quais tem uma "relação afetiva".

Já Edméa Brigham foi repórter fotográfica desde a década de 80 em jornais e revistas, mas em 2009 – apesar de o salário ser muito compensador – decidiu deixar as redações para se dedicar à Medicina Tradicional Chinesa. "Depois de ter feito muita reportagem, que era o que eu gostava, passei a editora de fotografia numa revista de televisão. Só que não me identificava com estrelas de novelas, nem com serviços do tipo paparazzo. Sentia que estava a vender a alma ao Diabo, tinha um stress imenso", conta Edméa Brigham, portuguesa de origem cabo-verdiana, que faz 60 anos em julho.

Para aliviar a ansiedade, que lhe provocava insónias e problemas digestivos, praticava Chi Kung e Tai Chi com um mestre, nos jardins da Gulbenkian. Daí à Medicina Chinesa foi um passo. Gostava tanto daquilo que aconselhava as filhas das amigas a apostarem em cursos alternativos, até que pensou: "Porque não faço eu o curso?"

Decidiu propor aos diretores da publicação onde trabalhava um horário flexível, que lhe permitisse ir às aulas e assim conseguiu acabar o curso de cinco anos, com estágio na China, onde esteve por duas vezes. Entretanto, a irmã convenceu-a a irem as duas para o Brasil fazer turismo de saúde, com terapias e agricultura biológica. Largou tudo e instalaram-se na Bahia. Não correu bem: "Como faço alergia às picadas dos mosquitos, não me servia de nada, não conseguia fazer Chi Kung e Tai Chi ao ar livre porque era logo atacada pelos bichos." Voltou em 2012 e hoje trabalha em três sítios, em Caxias, Benfica, e nos Olivais, dá aulas de Chi Kung e tem investido cada vez mais em formações. Trata patologias ligadas aos ossos, dores musculares, ciáticas ou cervicais. "Ganhei mais do dobro do que ganho hoje, mas sou muito mais feliz com o que faço. Acho que o Universo nos sustenta quando fazemos aquilo em que acreditamos e temos a coragem de largar estereótipos. Aprendi imenso, tenho mais empatia com as outras pessoas e isso é muito bom", conclui Edméa Brigham.

O adeus ao gabinete
A engenheira eletrotécnica Ana Seruca, de 45 anos, também se especializou em Medicina Tradicional Chinesa depois de ter trabalhado cerca de oito anos em empresas na área em que se licenciou. Como sempre se interessou por Saúde, em 2004 decidiu ir fazer o curso "por brincadeira", em horário pós-laboral, apesar de nem sempre ter sido fácil sair do escritório, em Alcabideche, às 18 horas, e ir a correr para as aulas que eram nos Restauradores, às 19h. "A Engenharia Eletrotécnica não me estava no sangue. Fiz Erasmus na Alemanha, onde vivi três anos, e tive a facilidade de arranjar emprego na Siemens. Quando voltei a Portugal trabalhei numa área comercial que não me satisfazia, embora a remuneração fosse boa. Mas arrisquei e troquei uma situação estável para uma atividade que na altura nem tinha legislação, e não sabia se algum dia poderia exercer", conta Ana Seruca.

Trabalha em vários sítios onde dá consultas praticamente todos os dias, mas o que ganha não se aproxima do salário que tinha como engenheira. "Não me arrependo de nada. Adoro lidar com pessoas, além de não estar o dia inteiro enfiada num gabinete."

As compensações
A maioria adaptou-se a outro estilo de vida

Vegana
Maria João Pais "Deixei de ser consumista. Tornei -me vegana, reciclo tudo e só compro roupa em segunda mão."

Investimento
Ricardo Teixeira Gomes "Hoje ganho muito mais, mas tenho investido a aumentar o hotel e a melhorar a nossa casa."

Felicidade
Edméa Brigham "Ganhava tão bem que até tinha uma casa de fim de semana para limpar a cabeça, mas hoje sou mais feliz."

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