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Covid-19: Por que não se testa toda a população?

Não há testes de diagnósticos suficientes e Portugal não tem laboratórios para os processar. Mas se o panorama se alterasse poderia também não ser uma solução para a pôr fim à quarentena.
Por Susana Lúcio 15 de Abril de 2020 às 12:30
Coronavírus
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A Organização Mundial de Saúde pediu aos países que se concentrem na testagem das pessoas com sintomas de febre, tosse e dificuldade respiratória. Mas houve países que conseguiram controlar a pandemia – como a Coreia do Sul-, testando também quem teve contacto próximo com doentes infetados, ainda que não revelassem sintomas.

Em Portugal, o critério é testar apenas as pessoas que revelem sintomas. Mas agora, em que a transmissão do novo coronavírus é comunitária, isto é, é transmitido na comunidade e não apenas entre quem teve contacto com alguém infetado que tenha estado no estrangeiro, deveria testar-se toda à população?   

Não, dizem os especialistas e por várias razões.

Eficácia
Os testes usados para diagnosticar a Covid-19, designados de PCR, não são 100% cento fiáveis. "Dependendo da amostra e do dia em que é realizado, os PCR podem dar falsos negativos em 10 a 30% dos testes. É por isso que o teste tem de ser repetido", salienta o professor de microbiologia na Faculdade de Medicina de Lisboa, Thomas Hanscheid. Um resultado negativo não certifica que a pessoa não esteja doente.

Os testes de diagnóstico detetam a presença do vírus na amostra recolhida do nariz com zaragatoa. Primeiro problema: a recolha. "Tem de se inserir a zaragatoa 6 a 8 centímetros dentro do nariz para se chegar à orofaringe onde a concentração de vírus poderá ser maior", explica o microbiólogo. A sensação é desagradável e quem é sujeito a uma recolha bem realizada, usualmente, recua a cabeça em desconforto. "Prevejo que alguma percentagem dos testes é negativa porque a colheita não é bem executada, mas o vírus pode lá estar."

Timing do teste
O momento em que é realizado o teste também pode resultar em falsos negativos. A doença evolui durante duas a três semanas e nos primeiros dias a presença do vírus na zona da nasofaringe pode ser pequena. Se o teste for realizado nesta altura poderá ser negativo, embora a pessoa testada esteja infetada.

O mesmo acontece com as pessoas infetadas que não apresentam sintomas. "A probabilidade de falsos negativos é maior em pessoas assintomáticas", confirma o médico de saúde pública Lúcio Meneses de Almeida.

Risco de contágio
Mesmo que houvesse testes suficientes e capacidade laboratorial para testar toda a população os resultados poderiam ser enganadores e um perigo. "Com um resultado negativo as pessoas pensariam que podiam fazer a vida normal e se for um falso negativo estão a contaminar os outros. Pode dar uma falsa segurança", acrescenta Lúcio Meneses de Almeida.  

Ou seja, o isolamento e distanciamento social teriam de ser mantidos para desacelerar a transmissão do vírus. "O distanciamento social é como se fosse um dique que construímos. Se este romper, toda a água retida é libertada. Não queremos que isso aconteça."

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