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Mutações podem tornar a Covid-19 mais perigosa?

O novo coronavírus está a mudar em todo o mundo, Portugal incluído. E a mudança de material genético não é necessariamente má: ajuda a conhecer de onde veio o vírus, para onde vai, com que rapidez muda e se está a mudar para melhor, ou pior.
Por Diogo Camilo 24 de Maio de 2020 às 10:37
coronavirus virus
coronavirus virus

Numa altura em que o novo coronavírus já chegou a quase todo o mundo, surgem alertas para a maneira como este está a mudar: são muitas as mutações já observadas, algumas mais letais que o vírus da Covid-19 que afetou Wuhan, a cidade onde teve origem a pandemia. A rapidez com que a doença está a mudar pode retardar o aparecimento de uma vacina, originar novos sintomas e mudar tratamentos.

Como é que o vírus da Covid-19 muda e para que servem as mutações?

De uma maneira geral, todos os vírus têm mutações. Como os vírus não se conseguem reproduzir por si mesmos, utilizam as células do corpo humano para se replicarem. Ao "raptarem" as células do nosso organismo para reproduzir a sua própria informação genética, essa informação pode mudar. São os chamados erros de fotocópia, mutações aleatórias que fazem com que o vírus replicado seja diferente do original.

Este material genético está armazenado no genoma do vírus da Covid-19, o Sars-Cov-2, e cada mutação pode ser tão mínima como a diferença em um dos 30 mil pares de bares que compõem o material genético do coronavírus. 

Esta mudança de informação genética é algo que investigadores utilizam também para rastrear a propagação do novo coronavírus, conhecer cadeias de transmissão e estirpes mais ou menos virais.

Qual a mutação mais antiga da Covid-19?

De acordo com a plataforma Nextstrain, que está a fazer o mapeamento de mais de cinco mil genomas e mutações da Covid-19, o genoma mais antigo terá sido identificado a 3 de dezembro – e a maior diferença observada até ao momento entre genomas foi de apenas 40 destes 30 mil pares de base. Por sua vez, a primeira mutação observada data de 24 de dezembro, ainda antes dos primeiros casos reportados pela China. Algumas estirpes, no entanto, já sofreram mais de 20 mutações numa mesma cadeia.

Mas há quem coloque um início da história da Covid-19 em humanos mais cedo. Um estudo da University College de Londres identificou 198 mutações genéticas recorrentes que sugerem que o agente patogénico do vírus, a SARS-CoV-2, tenha saltado do seu hospedeiro inicial para o ser humano entre as datas de 6 de outubro e 11 de dezembro do ano passado. Este será publicado na próxima edição da revista científica Infection, Genetics and Evolution.

A que ritmo é que o vírus se está a mudar?

Em comparação com outros vírus conhecidos, o ritmo de evolução do novo coronavírus é relativamente estável. Em meados de março, investigadores britânicos descobriram que o vírus da Covid-19 apenas mudava, sensivelmente, duas vezes por mês.

Outra investigação, a mesma do University College de Londres realizada na passada semana, coloca a taxa de mutação em apenas 18 por ano numa só cadeia de transmissão. A quantidade de mutações que o Sars-CoV-2 sofre é um fator importante, porque diz-nos que o novo coronavírus está ainda no início da sua evolução.

O ritmo pode também ditar mudanças de comportamento do vírus e, assim, dificultar o desenvolvimento de uma vacina. Se este mudar muito rapidamente, é mais difícil combatê-lo com uma vacina porque, quando esta fosse desenvolvida, o vírus atual já seria muito diferente ao original criado para a vacina.

A vacina da gripe, por exemplo, tem uma taxa de mutação tão alta que é necessária uma vacina diferente a cada ano.

A Covid-19 varia de local para local?

Com as mutações genéticas a partir do vírus original de Wuhan, a doença que chega a cada parte do mundo é ligeiramente diferente da que se abateu sobre a China. Isto não é necessariamente mau, mas pode originar cenários mais críticos em certas partes do mundo.

Em abril, investigadores alemães identificaram e dividiram o vírus em três grandes grupos genéticos: A, B e C. O primeiro e terceiro situavam-se mais nas regiões da Europa e Américas, enquanto o segundo grupo era mais comum na Ásia.

A corroborar esta pesquisa está a investigação realizada por uma universidade chinesa que, ao estudar 31 mutações, concluiu que as estirpes mais letais eram geneticamente semelhantes às já observadas na Europa e Nova Iorque, cidade dos EUA mais afetada pela Covid-19.

Um outro estudo, apresentado a 8 de abril e noticiado pelo jornal New York Times, indicava que a estirpe de Nova Iorque havia sido importada da Europa, sustentando assim que a letalidade observada pela Covid-19 no estado norte-americano seria semelhante, senão pior, à observada em países europeus como Espanha, Itália e França.

A Covid-19 está a ficar mais perigosa?

Já várias mutações do novo coronavírus foram conhecidas e investigadores estão, inclusive, de olho em algumas estirpes específicas. Na Índia, investigadores de Austrália e Taiwan, observaram num paciente da Covid-19 uma mudança genética que poderia tornar o desenvolvimento de uma vacina "inútil". A mesma, publicada num estudo no portal biorxiv, destinado a artigos ainda não revistos por outros investigadores, referia futuras mutações poderiam levar a que os múltiplos epítopos [área da molécula do vírus que se liga aos receptores celulares e aos anticorpos] da Sars-CoV-2 aumentassem, facilitando a ligação do vírus às nossas células. Na altura, o governo indiano avisou que as mutações observadas não eram suficientemente grandes para causar alarme.

Entre os mais de 5.000 genomas do coronavírus estudados, duas acontecem precisamente na proteína espigada, que dá o aspeto coroado ao Sars-CoV-2 e a parte do vírus que se liga a recetor das nossas células ACE2 - enzimas conversoras de angiotensina 2 - que existem em células epiteliais dos pulmões, intestinos, rins e vasos sanguíneos.

Num outro estudo preliminar, cientistas da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, e do laboratório norte-americano de Los Alamos, no Novo México, encontraram mutações nesta proteína que, escrevem, pode ajudar a infeção a espalhar-se mais facilmente. A hipótese é, no entanto, contrariada por outros cientistas, que defendem ser ainda muito cedo para saber se alguma mutação está a dar força ao vírus da Covid-19.

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