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Verão vai ter pouco efeito na redução da transmissão da covid-19

Estudo revela que apesar de ter um efeito no novo coronavírus, o clima não impacta substancialmente a propagação da SARS-CoV-2. Vírus propaga-se melhor no frio e em climas secos.
25 de Maio de 2020 às 15:23
A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, avisou a 19 de maio que o vírus da Covid-19 pode não desaparecer com o calor no verão e que esta é a primeira vez que "passamos por um verão com este coronavírus", pelo que não é possível saber "se vai haver um abrandamento do surto". Um estudo publicado na revista científica Science revelou que existe, de facto, uma correlação entre o clima e a transmissão do novo coronavírus SARS-CoV-2. Segundo as primeiras conclusões deste estudo, um clima mais frio e seco potencia a transmissão deste novo vírus que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar o estado de pandemia mundial. No entanto, os autores referem que ainda é cedo para uma tese forte, já que os dados são ainda muito escassos.

De acordo com este novo artigo científico, o clima afeta a transmissão de dezenas de patogéneo já identificados previamente. Elementos como a humidade específica do ar (a quantidade de vapor de água numa determinada massa de ar) já se mostrou como essencial na eficácia do influenza (a gripe "comum") se espalha. Os cientistas lembra ainda que o vírus sincicial respiratório (VSR) se propaga de forma diferente de acordo com a humidade presente no ar. Em ambos estes casos, quanto mais húmida a atmosfera, mais facilmente o vírus se propaga.

No entanto, nem todos os vírus são mais eficazes na transmissão em climas húmidos. Alguns têm um grau de transmissão mais elevada nos meses de Verão.

Sobre o SARS-CoV-2, os autores referem que não conseguem ainda perceber a sensibilidade climática do novo vírus (ainda só passaram quatro meses desde que este foi isolado em laboratório). No entanto, há dados relativos a quatro outros coronavírus que existem atualmente como endémicos. Dois deles, o HCoV-HKU1 e o HCoV-OC43, são da mesma génese do que o vírus que causa a covid-19.

Analisando os parâmetros referentes à dependência climática para a transmissão e o tempo necessário até atingir a imunidade. O SARS-CoV-2 foi então analisado à luz de três modelos respeitando estas métricas conseguidas através do estudo de outros coronavírus.

Num primeiro modelo, os cientistas analisaram o novo vírus assumindo que este era tão sensível ao clima como o influenza.

Já no cenário dois e três, foi aplicado o modelo de transmissão do HCoV-HKU1 e do HCoV-OC43. Nestes dois coronavírus, o número de infeções aumentava à medida que a humidade específica diminuía (a humidade é, por norma, mais elevada no Verão do que no Inverno). O mesmo se observou relativamente à influenza.

Estes exemplos permitiram aos cientistas hipotetizar que o nível de transmissão do novo coronavírus irá diminuir quando a humidade específica do ar aumentar. "Mas não é ainda possível perceber a extensão dessa diminuição", acautela o estudo, lembrando que não há ainda sinais claros de que a chegada o Verão (altura em que há mais humidade específica no ar) possa resultar numa diminuição significativa do índice de transmissão do vírus.

Nas conclusões iniciais do estudo, os seus autores lembram que o clima pode desempenhar um papel na capacidade de transmissão do vírus, mas que a imunidade adquirida de uma população é muito mais importante para o combate do que a sazonalidade do vírus. E deixam ainda o aviso: as zonas tropicais, onde a humidade é bastante elevada, devem preparar-se para um tsunami de casos de infeções de covid-19.

Graça Freitas explicou que existem outros subtipos do coronavírus com comportamento sazonal, em que o vírus permanece adormecido no verão, mas que este pode não ser o caso da Covid-19, por estar ainda muito ativo.

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