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Novo vírus da China: há razões para alarme?

Saiba o que é, como se transmite e como se pode proteger deste novo vírus que começou num mercado de peixe.
Por Lucília Galha 16 de Janeiro de 2020 às 17:37
Doença respiratória na China
Doença respiratória na China

Há um novo vírus com potencial de transmissão entre humanos que já motivou um alerta por parte da Organização Mundial de Saúde (OMS). As autoridades de saúde a nível mundial estão avisadas de que, embora tenha começado na China – neste momento já há pelo menos um caso confirmado no Japão e outro na Tailândia – se pode alastrar para outros países.

Até quinta-feira, 16 de janeiro, existiam 41 casos confirmados e uma morte associada a esta nova doença – um homem de 61 anos que tinha outros problemas associados. Apesar disso, a Direção-Geral de Saúde (DGS) considera que não há razões para alarme. "Neste momento, estamos na fase descendente. Acredito que estamos muito próximos do controlo definitivo do surto", diz à SÁBADO o consultor da DGS Filipe Froes.

Como começou?
Terá começado num mercado de peixe de Wuhan, na China. Mas a fonte de transmissão não foram os peixes mas os animais vivos que também existem neste mercado, como aves ou um animal chamado civeta. "Todos os casos confirmados têm uma ligação epidemiológica ao mercado", explica o pneumologista. Até ao momento não há ainda confirmação do animal implicado na transmissão ao homem – já que este tipo de vírus infeta um número muito diverso de animais, como porcos, aves, bovinos, etc.

O mercado foi encerrado a 1 de janeiro de 2020. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o início dos sintomas dos 41 casos confirmados varia entre 8 de dezembro de 2019 e 2 de janeiro de 2020.

O que é?
É de uma família de vírus chamada coronavírus – que tem este nome porque, quando é visualizado ao microscópio, tem uma imagem semelhante a uma coroa. Esta família tem milhares de vírus e a maioria deles só afeta os animais. Mas há sete que infetam os humanos. "Este, que já tem nome, chama-se 2019 nCoV [o novo coronavírus], é justamente o sétimo", diz Filipe Froes.

Quatro destes sete vírus, que afetam os humanos, correspondem a constipações comuns. "Estão neste momento em circulação em Portugal, mas não têm nada a ver com este novo vírus", alerta Raquel Guiomar, responsável pelo Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge.    

Os outros dois podem gerar doenças respiratórias mais graves, como a síndrome respiratória aguda grave (SARS), detetada na China no final de 2002 e que afetou oito mil pessoas – morreram 800.

Esta nova estirpe atravessou a barreira das espécies, ou seja, conseguiu criar doença no homem. Segundo o pneumologista, "um dos animais do mercado devia estar doente e um comerciante ou comprador terá tido um contacto próximo e duradouro com este animal. Pelo que o vírus conseguiu entrar nas nossas células", explica.

Como se transmite?
"Ainda não está completamente provada a transmissão pessoa a pessoa", diz à SÁBADO Raquel Guiomar. Contudo, um dos funcionários do mercado conseguiu transmitir o vírus à sua mulher, o que significa que o vírus tem alguma capacidade de transmissão entre humanos – embora reduzida.

É preciso se conjugarem três fatores: transmissão de uma grande carga viral – ou seja, a pessoa tem estar doente, ter pneumonia –, proximidade e duração (um contacto prolongado). "Não me parece que um contacto no aeroporto com alguém que não tem ainda grandes sintomas seja suficiente", diz Filipe Froes.

Quais são os sintomas?   
Febre, prostração, tosse seca intensa e agravamento progressivo de falta de ar, que pode culminar no comprometimento das vias respiratórias. "Cerca de 5 a 10% das pessoas internadas com pneumonia precisam de ventilação mecânica", diz o pneumologista.

O que podemos fazer para nos protegermos?
"Nada, neste momento, não há necessidade de adotar qualquer medida em Portugal", acredita Filipe Froes. Contudo, se surgir uma suspeita de um caso, o laboratório de referência português, o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, já está preparado para dar resposta.

"Estamos a implementar um procedimento laboratorial para fazer o diagnóstico rápido deste novo agente, que deverá estar concluído mais tardar no início da próxima semana", diz à SÁBADO Raquel Guiomar, responsável pelo Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge.

A ideia é que os resultados estejam prontos em mais ou menos cinco horas. As amostras que poderão chegar ao laboratório serão secreções respiratórias, recolhidas do nariz, boca ou até mesmo dos pulmões.

Além de confirmar o diagnóstico, o INSA também tem capacidade de sequenciar o genoma das amostras que poderá receber para monitorizar se o vírus é igual ao que foi detetado na China.

A OMS criou um alarmismo desnecessário?
Pelo contrário, acreditam os especialistas. "Uma coisa que se aprendeu com a gripe A é comunicar com rigor o que se passa. O pior alarmismo é o da ignorância, de perder a oportunidade", diz Filipe Froes.

Até porque o vírus, à medida que vai infetando o homem, vai-se adaptando e começa a transmitir-se melhor de pessoa a pessoa, explica o pneumologista e consultor da DGS.      

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