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Um dia na vida de uma supernanny

Resolvem birras, brincam e impõem regras. Até vão a reuniões da escola. As agências de amas têm cada vez mais procura e há pais que as contratam antes de o bebé nascer.
Por Dina Arsénio 11 de Outubro de 2019 às 11:42
Crianças a atravessar a passadeira
Crianças a atravessar a passadeira FOTO: Getty Images
Não havia câmaras de filmar, mas a birra foi tão ou mais exuberante do que as do programa SuperNanny. Estavam nas galerias Victor Emmanuel, em Milão, quando Natália, de 5 anos, começou a dar o espectáculo. Espernear, dar pontapés e gritar: "Estou cansada! Não saio daqui!" Sentou-se no chão a fazer birra, enquanto as pessoas a olhavam. Não era preciso saber português para perceber o que se passava.

Aurora, a nanny holiday contratada pelo pai para o ajudar nas férias, teve de lhe pegar ao colo e sair dali. "Acho que as crianças são aquilo que os pais fazem delas. Se os pais conseguirem explicar o porquê das coisas, porque é que há um ‘não’ ou um ‘sim’, as crianças entendem", diz. Aurora Garcia, de 57 anos, que trabalha desde 2016 na Nanny4me, é uma ama experiente e conta que os desafios não são as tarefas de rotina, como as refeições e a higiene, nem a paciência para fazer jogos sem fim. As birras são o grande teste. Manter a calma e retirar a criança daquela situação é a solução mais eficaz. Mas Aurora sabe que quando um pai entra na equação muda tudo. "Se a menina estivesse comigo o comportamento era um; se estivesse com o pai era outro", recorda. Aurora lá deu a volta a Natália. Faz parte, como conta José Luís Canedo, diretor da Nanny4me.

Há cada vez mais serviços de babysitter e os pedidos mais frequentes são para nannys a tempo inteiro e para nannys afterschool – ir buscar as crianças à escola ou recebê-las em casa. Estão prontas para qualquer situação e as novas amas fazem muitas vezes o papel de pais. "Uma nanny é alguém que faz um serviço continuado, pode ser em part-time ou a tempo inteiro. Há várias situações em que temos pessoas que contratam uma nanny mesmo antes de a criança nascer para acompanhá-la desde cedo. Chamamos a esse o momento zero", explica José Luís Canedo. Em que consiste este serviço? "A nanny fica responsável por tudo, as roupas, a verificar se a criança precisa de ir ao médico, muitas vezes até falar com os professores. Há pais que têm vidas muito exigentes, não é que sejam maus pais, mas muitas vezes precisam de alguém que lhes dê apoio nesse sentido."

É com elas que crescem
Durante quatro anos, Joana Melo, de 34 anos, professora do 1º ciclo, foi nanny de três crianças. Acompanhava-as ao fim do dia e também as ajudava nos trabalhos de casa. "Estive com eles desde que o mais velho tinha 6 anos. Foi comigo que ele aprendeu muitas coisas", recorda. Assim como Aurora, a professora também afirma que as birras são mais frequentes quando as crianças estão na presença dos pais. "Normalmente, quando os pais não estão, não há birras. Não tive nenhum que me fizesse mais do que choramingar." A professora também acompanha as famílias nos passeios e nas férias.

Um hábito comum também a Ana Duarte, que depois de 11 anos como auxiliar de educação numa creche, passou a tomar conta de crianças, seja quando os pais precisavam de nanny à noite, aos fins-de-semana ou nas férias. E conta que criou o seu próprio sistema de lidar com birras quando acompanhou três crianças, com 8, 5 e 1 ano. "Os dois mais velhos eram birras atrás de birras. Comecei a ter um sistema com eles para conquistar a atenção. Por exemplo, o mais velho gostava muito de bolas e eu dizia-lhe: ‘Se fizer tudo o que a mãe pedir, a Ana promete que vai buscá-lo à escola e vamos ao campo de futebol’. Foi assim que comecei a conseguir que eles se vestissem e comessem sem fitas."

Neste momento, Ana está na agência de babysitters My Nanny a cuidar de trigémeos com 13 meses, em Lisboa, mas ainda recebe pedidos de outros pais. "Às vezes os pais pedem-me para ir lá a casa quando vão jantar ou sair, para passar a maior parte da noite." Por que motivo os pais preferem estes serviços, é fácil de perceber, diz Ana: "Os pais acham que o miminho da casa é sempre melhor do que num infantário."

Para Ana Fonte, diretora da empresa, um dos motivos para o aumento da procura destes serviços deve-se ao facto de as creches e infantários estarem lotados. Mas aponta outros motivos: "A educação em casa está em forte crescimento, uma vez que permite aos pais maior controlo sobre a aprendizagem dos filhos. Além disso, quando são mais pequenos [idade pré-escolar], é uma forma de proteção das doenças que, nos infantários, são bastante comuns."

Na My Nanny, trabalha também Fátima Costa, mãe de três filhos, que aos 49 anos toma conta de um casal de gémeos, com dois anos, das 8h às 16h, até a mãe chegar. "Há birras de sono, de fome, de cansaço, de quando estão chateados um com o outro. Um deles até se esfrega no chão", conta Fátima. O método mais eficaz? Virar costas e voltar passado um bocado, quando já está mais calmo. Fátima também tem outra estratégia: pedir um abraço. As crianças afeiçoaram-se tanto que não querem que a nanny se vá embora. "Muitas vezes em vez de quererem ficar com os pais, querem vir para a minha casa."
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