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A geração dos nem-nem. Quem são e como vivem?

Não estudam nem trabalham: muitas vezes por falta de opções ou de dinheiro para estudar. Retrato de uma geração esquecida e sem rumo.
Por Dina Arsénio 11 de Outubro de 2019 às 16:27
Os dias de Sara Ascenso começam cedo, por volta das 7h40. Faz o pequeno-almoço ao namorado, normalmente uma sanduíche, e às vezes até lhe prepara um lanche. Isto nos dias em que ele dorme na casa dela. A seguir, tenta comer alguma coisa e volta para a cama. Não tem motivo para ficar a pé tão cedo. Não há trabalho – mesmo depois de ter enviado mais de 30 currículos – nem aulas. Dorme mais umas horas até a chamarem. "Acordo com a minha avó a chamar -me para o almoço e a dizer: "Então, já não chega de dormir?", conta a jovem, de 22 anos, que vive em casa dos pais com a avó.

De tarde, trata dos animais da casa – dois cães, dois coelhos, duas tartarugas e um hámster –, em seguida vai buscar o irmão, de 16 anos, à escola. Muitas vezes faz o jantar, gosta de preparar uma lasanha caseira ou uns bifes com cogumelos. Depois sai para beber um café.

Os dias sucedem-se com a mesma rotina monótona. "Acho que devia ser uma pessoa mais ativa, mais ambiciosa. Os meus pais estão sempre a dizer que devia arranjar um trabalho. A minha situação torna-se chata para eles, porque vêem que não saio disto… É triste para eles e para mim."

Sara Ascenso é uma jovem nem-nem, não trabalha nem estuda, ou NEEF (que significa Nem Emprego, Educação ou Formação), mas não é a única. São vários os relatórios que fazem um retrato desta geração. De acordo com os dados do estudo Education at a Glance 2018, Portugal está em 10º lugar, no ranking de jovens nem-nem, numa lista de 31 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A conclusão é que um em cada sete jovens, dos 15 aos 29 anos, é nem-nem.

O sociólogo Elísio Estanque explica que estas situações estão marcadas também pelo insucesso escolar. Aponta ainda a falta de estímulos, o sistema de ensino ou situações específicas relacionadas com ambientes de maior dificuldade socioecónomica. "A falta de recursos acaba por contribuir para que se crie uma lógica de bola de neve, sempre a aumentar e muito difícil de deixar." Mesmo assim, o Eurostat revela que a percentagem de nem-nem não piorou, é exactamente a mesma que em 2007/08, ou seja, de 11,2%. "Houve aqui uma oscilação à volta de 10 ou 11 anos", conta Elísio Estanque. "Porém, durante o período mais intenso da crise, houve um aumento intenso do desemprego jovem e do número daqueles que não estavam a estudar nem a trabalhar, como resultado da crise económica e das dificuldades que o País enfrentou."

A psicóloga clínica Catarina Lucas diz que a maioria destes casos não são por escolha própria. E acrescenta que é nos jovens com menos habilitações que se registam números mais elevados de inactividade. "Talvez isso aconteça porque quanto mais formação o jovem tiver, mais oportunidades surgirão."

Trabalhar por menos de €3/hora
Sara Ascenso quis apostar na formação, mas nem tudo lhe correu como tinha imaginado. Estava a tirar um curso de massagista a partir do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), mas foi cancelado por falta de alunos. Esta era uma forma de concluir o 12º ano. "Tive de me desenrascar e procurar equivalência num curso à noite, que não dá continuidade à profissão", conta. Lá acabou por concluir os estudos a partir de um curso de Educação e Formação de Adultos (EFA), em Junho passado. E agora: continuar a estudar ou arranjar um emprego? "Pensei estudar mais, mas os meus pais não têm dinheiro para me pagarem um curso. Tenho de recorrer aos cursos financiados", diz.

Teve dois empregos, mas nenhum deles foi bem-sucedido. Trabalhou, enquanto estudava à noite, num cabeleireiro das 9h às 18h, sem contrato, para receber €200 ao fim do mês. Depois esteve num café para desenrascar. Ganhava €2,50/hora e trabalhava das 15h às 23h. Nenhum dos empregos durou mais de um mês. "Sempre que tinha oportunidade ia entregar currículos [em lojas e supermercados]. Fui a cinco entrevistas, mas nunca me chamaram. Uma vez fui à Pull&Bear e parecia mesmo que estavam a precisar. Criou-se ali uma ilusão. Disseram-me que me ligavam durante a semana, mas nada. Estou há 6 meses sem receber um telefonema", diz, desmotivada. E desabafa: "Sem experiência, ninguém me vai dar emprego."

A psicóloga Catarina Lucas explica que a forma como os currículos são escritos ou enviados prejudica as hipóteses de o candidato ser chamado. "É importante que nos diferenciemos, e isso, às vezes, está nos pequenos detalhes. Quando o jovem não é chamado, é importante que faça uma análise sobre os motivos para que isso esteja a acontecer e redefinir a estratégia ou empenhar-se no desenvolvimento de competências em falta e no que o mercado procura."

Existem culpados?
Se não trabalham nem estudam, a pergunta mais comum será: como é que a geração NEEF se sustenta? Na maioria das vezes, o dinheiro vem dos pais. Este é também o caso de Sara. "Não são grandes valores. Por exemplo, a minha mãe soube que eu ia sair no outro dia e deu-me 10 euros. Fui a Milfontes passar o fim-de-semana e os meus pais deram-me 40 euros." Mas acrescenta: "Podia pedir e eles podiam não me dar. Se calhar, isso era mais um incentivo para me fazer à vida. Lá está, estou acomodada."

Catarina Lucas diz que perante as dificuldades, os jovens habituam-se à mesada dos pais. "Não sei se podemos falar em culpados, mas ao longo dos anos temos assistido a uma tendência para o excesso de protecção dos pais, para um facilitismo através do qual não se aprende a verdadeira dificuldade das coisas. Foi ensinado a esta geração que podem ter tudo sem grande esforço, o que a tornou menos preparada para a adversidade. Além disso, foi vendida a ideia de que estudar garantia um bom trabalho, mas quando a altura chegou, não foi o que aconteceu, o que aumenta a frustração e a desmotivação."

Assim como Sara, também Jaime Brito, de 20 anos, assume que são os pais que lhe dão dinheiro. Porém, o percurso de Jaime é diferente. Fez a escolaridade pelo ensino regular [escolheu Humanidades], na Escola da Apela, na ilha da Madeira (Funchal). Depois, em 2017, foi para o continente tirar o curso de Comunicação Social, mas acabou por ficar apenas um semestre. "Não senti que fosse a minha vocação. Também não tive direito a bolsas e vindo das ilhas é complicado suportar custos", diz. Catarina Lucas explica esta falta de empenho. "É uma geração muito focada no agora, no prazer e na realização imediata. Tem pouca capacidade de se projectar no futuro e de traçar um caminho para lá chegar. É uma geração que não consegue encontrar um propósito para a sua vida."

Jaime está inscrito no Centro de Emprego. Não queria estar parado. Ainda só teve um emprego: num restaurante de sushi. Servia às mesas. "Estive lá cerca de dois meses. Tinha um vencimento de €650, mais gorjetas. Saí porque era muito stressante e não condizia com a minha personalidade. Experimentei o trabalho de cozinha, ou seja, fazer os rolos de sushi, lavar o peixe, escamar, picar, etc. Não tinha jeito."

Agora, está desempregado e, ao contrário de Sara, tem um objectivo bem definido. "Quero arranjar um trabalho mais calmo e poupar dinheiro. Assim que tiver o suficiente vou para o Porto ou Lisboa tirar o curso de preparador físico."

Geração com pressa
Joana (nome fictício), de 26 anos, fez o 12º ano a partir de um curso profissional, o de auxiliar de infância. Já teve alguns trabalhos diversificados: trabalhou numa creche como auxiliar durante dois meses, numa empresa de telemarketing por quatro meses e numa empresa de limpezas apenas dois. "Agora, o último trabalho que tive foi co-mo auxiliar de idosos, a cuidar de uma senhora. Estive lá durante oito meses", revela.

A jovem está agora desempregada. "Enviei mais de 15 currículos para todo o lado, mas só fui a uma entrevista". Joana confessa que mesmo que a chamassem não aceitava qualquer coisa. "Se as condições não são boas e pagam mal, não aceito", explica. Apesar de gostar de trabalhar com crianças, quer experimentar algo novo. O seu sonho é formar-se como maquilha-dora. "Tenho metade do dinheiro, são 1.500 euros. A minha mãe também me vai ajudar, mas quero arranjar um trabalho certo e conciliar com o curso."

O dia-a-dia destes nem-nem não é muito diferente. Todos costumam levantar-se cedo, para tentarem estar activos. Só Jaime costuma levantar -se por volta das 10h e depois de almoçar vai ter com os amigos. "Vou até ao café, tento abstrair-me dos stresses da vida. Ao fim-de-semana bebo um copo, mas são dias demasiado pacatos", revela o jovem de 19 anos. Joana, por vezes leva o sobrinho à escola e tem aulas de condução, enquanto espera por melhores oportunidades. "Esta é uma geração imediatista e pouco tolerante à frustração", explica Catarina Lucas. "Isso dificulta o processo de integração no mercado de trabalho. Há uma expectativa elevada por parte dos jovens– à qual o panorama actual de emprego não consegue corresponder."
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