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A minha filha sente-se um rapaz. O que posso fazer?

O despacho que regulamenta a Lei de Identidade de Género nas escolas gerou controvérsia. Falámos com três pais que contam como aceitaram e ajudaram os filhos transgénero.
Por Susana Lúcio 11 de Outubro de 2019 às 12:15
Maria Augusta desconhecia que, na escola europeia que então frequentava, na Bélgica, a filha quase sempre preferia ir à casa de banho adaptada a deficientes. Também não imaginava que a rapariga não se reconhecesse no sexo com que nascera. "Em criança não se interessava por bonecas, mas também não brincava com carrinhos. Gostava muito de ler", conta a mãe. Foi na puberdade que a mãe notou pela primeira vez que a filha sentia um desconforto crescente com o seu corpo. "Recusou lidar com a menstruação, era como se não estivesse a acontecer", lembra a mãe. Também não fazia a depilação e aos poucos foi recusando vestir saias e vestidos. "Preferia calções e T-shirt. Eu e o pai imaginávamos que poderia ser lésbica."

Na escola, a adolescente – que entretanto adotou um nome masculino e mudou de género no cartão de cidadão – tinha sido diagnosticada com um quociente de inteligência elevado e não tinha muitos amigos. "Era muito introvertido, fechado. Relacionava-se mais com os professores do que com os colegas", descreve a mãe, que usa o pronome masculino para se referir à então filha. "Quando se interessava por um tema era exaustivo e tinha um sentido de humor muito particular. Por isso, era mais apreciado pelos professores do que pelos colegas."

A mãe convencera-se de que o mal-estar da filha se devia a uma tendência depressiva e recorreu a uma psiquiatra. Mas, aos 15 anos, ela revelou-lhe o que se passava: sentia que era um rapaz e "tinha muito medo de dececionar os pais". Maria Augusta foi a primeira a saber e ficou em choque. "Felizmente disse logo que o amava incondicionalmente e pedi tempo para perceber melhor o que se estava a passar." Pediu ainda que as consultas à psiquiatra se mantivessem.

A filha tinha a certeza do que sentia e tinha muita pressa em mudar. Queria tomar hormonas para travar a menstruação e já usava o binder, uma espécie de cinta que aperta o peito, que tinha comprado online. "Tinha medo que também comprasse hormonas na Internet, mas penso que ele tinha consciência de que era importante ser acompanhado por um médico." Quis logo mudar de nome. "Foi muito querido. Trouxe uma lista de nomes para escolhermos juntos um. Tentei [usar o novo nome] desde o início, mas não foi fácil depois de 15 anos a chamar por outro. Falhei algumas vezes."

Na escola, exigiu que colegas e professores fizessem o mesmo. "Foi muito corajoso. Assumiu-se no Facebook e ninguém questionou. Os professores protegiam-no, mas ele tem um caráter afirmativo, não se via como vítima e não foi alvo de bullying." No baile de finalistas da escola, em vez do vestido longo, foi de fato. "Houve olhares, mas ninguém o confrontou." Os quatro amigos que tinha aceitaram-no.

Só quis contar ao pai – separado da mãe desde que ele tinha 12 anos - aos 18 anos, quando a psiquiatra autorizou os tratamentos. "O pai chorou. Afinal, tínhamos os dois ficado muito contentes quando soubemos que íamos ter uma menina", recorda Maria Augusta. Mas reagiu bem. Tal como a avó materna, que começou por perguntar por que razão a neta não usava um vestido. "Expliquei-lhe com todo o carinho que nos adolescentes transgénero a taxa de suicídio ronda os 50% e que eu queria que aquela pessoa que nasceu de mim – quer seja filho ou filha – fosse feliz e nunca chegasse a esse ponto de infelicidade. Ela compreendeu e disse logo que tínhamos de o ajudar."

Cirurgia e congelar óvulos
A primeira vez que marcaram consulta num hospital da zona onde viviam, francófona, não correu bem. "São mais conservadores e parece que tentaram adiar o processo. Desmarcavam consultas com pouca antecedência, queriam que ele fizesse uma terapia para ter mais atitudes masculinas." Foi por isso que mudaram para um hospital na parte flamenga do país, com uma unidade específica para transexuais. Aos 20 anos, o jovem iniciou a transição a nível cirúrgico. "O hospital congela alguns óvulos durante uns anos, caso ele decida ser pai."

Quando entrou na faculdade, em Inglaterra, e apesar de ainda não ter alterado o registo civil, o nome masculino foi aceite – e foi o que apareceu no diploma em História. Agora com 25 anos e um mestrado em Guionismo, fala quatro línguas, já viu peças suas encenadas e está a estudar para ser intérprete. "Costumo dizer aos pais que nos pedem ajuda na AMPLOS [grupo de pais de jovens LGBTI] que o meu filho mudou de género, mas é a mesma pessoa."

Sobre a polémica levantada pela regulamentação da Lei da Identidade de Género e que pede às escolas que garantam "que a criança ou jovem, no exercício dos seus direitos, aceda às casas de banho e balneários, tendo sempre em consideração a sua vontade expressa e assegurando a sua intimidade e singularidade", Maria Augusta considera ser sobretudo uma questão de privacidade. "Tenho um sobrinho-neto com 2 anos que se esconde quando está a fazer cocó na fralda porque quer privacidade. A lei é essencial para isso mesmo, para preservar a privacidade de todas as pessoas."

Evitar casas de banho públicas
Sandra Monteiro soube que a filha era diferente desde que ela era pequena. Mas só aos 15 anos e depois de uma depressão grave, com um episódio de automutilação, é que a rapariga conseguiu verbalizar o que sentia. "Disse-me que não gostava das suas mamas e que queria ser rapaz." Só nessa altura percebeu que Tânia evitava as casas de banho da escola e aguentava o dia todo até chegar a casa. "Chegava a casa sempre aflito, não sei como nunca teve um problema de saúde."

Há muito que no roupeiro da filha abundavam os calções e as T-shirts. Aos 6 anos, a menina rejeitava as saias e fugia sempre da secção feminina para a masculina das lojas de roupa. "Nós não entendíamos, mas demos-lhe a liberdade para ela se vestir como queria", conta. Também nas brincadeiras preferia jogar à bola com os meninos e no Carnaval queria mascarar-se de pirata e Homem-Aranha. "Quando brincava com os amigos aos pais e mães, era sempre o pai e quando imitava personagens de séries de animação com o irmão mais novo escolhia sempre personagens masculinas."

Na praia, não queria vestir biquíni e ficava no areal de calções e T-shirt. Aos 14 anos, o peito cresceu e para o dissimular usava dois soutiens desportivos dois números abaixo. "Há crianças que não gostam de alguma parte do corpo. Pensei que fosse isso." Um dia, a mãe mostrou-lhe um reality show sobre a vida de uma rapariga trans. "Perguntei-lhe se era assim que ela se sentia, mas respondeu-me que não."

Na escola, apesar do nome feminino, os amigos quase já o viam como um rapaz. Ainda que houvesse episódios constrangedores. "Um dia uma amiga perguntou a outra se achava que ele era menino ou menina." O pior foi quando mudou de turma, no 10º ano. "Saiu da área de conforto dele e foi quando a depressão se agravou."

Foi com a ajuda de uma psicóloga que o adolescente assumiu o que sentia. "Perguntei-lhe muitas vezes porque não me tinha dito mais cedo. Disse que tinha medo de me magoar." Pouco depois, recorreram ao centro de saúde para perceber como poderiam iniciar a transição, mas a médica de família teve receio de decidir e enviou-o para uma consulta hospitalar de sexologia. A primeira coisa que o médico receitou foi uma pílula que eliminou a menstruação.

O próximo passo foi mudar de nome. Escolheu Jaime, e na escola, no Porto, a transição correu sem problemas. "Informei a diretora de turma do 11º ano que ele estava em transição e que agora se chamava Jaime. Ela informou os outros professores e ninguém contestou", conta Sandra Monteiro.

No ano seguinte, a pauta ainda tinha o nome feminino e Jaime entre parêntesis. Os colegas não deram grande importância. "Estava à espera que algum deles fizesse um comentário. Mas os jovens têm uma mente mais aberta." O novo nome foi oficializado em setembro de 2018. "Houve um atraso no envio do Cartão de Cidadão, mas ligaram para Lisboa e com o comprovativo foi possível mudar o nome na escola."

Para o irmão, cinco anos mais novo, a única dificuldade foi o novo nome. "Expliquei-lhe que o Jaime queria ser como ele e foi fácil, desde pequeno que o desenhava sempre como rapaz." Numa visita ao dentista, foi o irmão a corrigir o médico quando este lhe perguntou pela irmã. "Disse-lhe que agora tinha um irmão e que se chamava Jaime." Não foi tão simples para o pai. "Ele nunca gostou que ela jogasse à bola e que não fizesse a depilação. Penso que tinha medo do estigma social." Mas assim que a avó paterna aceitou o neto, o pai assumiu a mudança. E houve quem reagisse com alívio, como uma tia que disse ter "finalmente uma resposta para ele se vestir de rapaz."

Em junho, e como ainda não tinha 18 anos, Jaime fez uma mastectomia num hospital privado – os pais queriam que gozasse o mais possível da adolescência que lhe restava. Houve quem procurasse uma explicação para a diferença entre a identidade de género e o sexo de Jaime, mas Sandra não perdeu tempo à procura de respostas. "Não interessa se recebeu testosterona a mais ou não. Porque hei de massacrar-me se ele o é. É, ponto final. Ver o sorriso rasgado dele quando saiu da cirurgia vale tudo, faz com que eu vá contra tudo e todos."

Rejeitados pela sociedade
António Ferreira, tal como Sandra, sabia que o filho era diferente, especial. Só não sabia bem em quê. Ele brincava só com raparigas, gostava de música, artes e dedicava-se muito aos estudos. "Até aos 20 anos pensávamos que era homossexual." Vestia-se de forma exuberante, muito diferente dos outros e foi vítima de bullying. "Uma vez, na aula de Educação Física esconderam-lhe as sapatilhas e os miúdos foram obrigados a contar onde estavam."

O mal-estar resolveu-se quando no 10º ano foi para uma escola de artes. "Desenhava muito bem vestidos e ali sentiu-se integrado." Terminou o curso de Artes e começou a fazer performances como atriz. "Saía de casa com as unhas pintadas e de saias. Achávamos estranho, mas não há um manual para isto."

Os pais ficaram mais atentos, mas nunca confrontaram o filho. "Esperámos que fosse ela a falar connosco. Quando casámos decidimos que as nossas filhas – temos outra mais nova – seriam o que quisessem tanto em termos de orientação sexual como profissionalmente."

O pai já andava desconfiado. "Via-o chegar a casa com livros sobre temas trans e queer. Fiquei intrigado e fui informar-me através da Internet." Entretanto, o jovem foi estudar para Lisboa e as fotos que publicava no Facebook, maquilhado e com roupas femininas, alarmavam ainda mais os pais. Questionado, o jovem respondia que ninguém tinha nada a ver com o que ele queria vestir.

Com o tempo António Ferreira percebeu que sempre que vinha a casa, o filho não vinha feliz. Passava os dias fechado no quarto. "Foi aí que tivemos de dar o salto. A nossa casa tinha de ser um porto de abrigo para a nossa filha."

Um dia, uma professora falou com os pais e revelou que o filho tinha muito medo de desiludir os pais. Aos 20 anos falou com a mãe. "Foi no Natal de 2017, chegou a casa e disse que não se sentia com o corpo que queria e que queria ser tratada como mulher." Tinha escolhido um nome feminino. A irmã mais nova, de 17 anos, assumiu logo o novo nome e os primos, mais pequenos, não questionaram. Pouco depois, iniciou o tratamento hormonal e já tem peito. Também tem todos os documentos necessários para fazer a cirurgia de mudança de sexo. "Pensou em fazê-la neste mês, mas por agora sente-se confortável como está."
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