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Casamentos a dois: a nova moda

Chama-se elopement, que se traduz do inglês como fugir para casar. Os noivos não querem a confusão dos grandes eventos, preferem cerimónias íntimas, em locais românticos e de difícil acesso.
Por Susana Lúcio 3 de Janeiro de 2020 às 12:48

A mensagem foi enviada pouco antes da cerimónia. "‘Vamos casar agora. Beijinhos.’ Depois desligámos os telemóveis", explica Inês Gomes. As famílias dos noivos estavam a par de tudo, mas à distância. Bernardo e Inês casaram-se na falésia do cabo Sardão, em Odemira, o ano passado. Estenderam um páreo no chão, rodearam-no com uma coroa de flores silvestres encomendadas numa florista e sentaram-se em almofadas para ouvir as palavras da notária sobre os deveres e direitos de um contrato de casamento. Estavam praticamente sozinhos – os dois, mais a notária e a fotógrafa. "O Bernardo também não queria fotografias, mas eu insisti", conta a noiva.

Há muito que o casal pensava casar-se. "Andávamos a adiar porque não nos apetecia tratar de tudo o que envolve um casamento tradicional. Queríamos fazer uma coisa só nossa, mais fácil e mais íntima." Em apenas um mês, a consultora, de 32 anos, organizou tudo. A primeira ideia era casarem numa praia deserta, perto do Almograve, na Costa Vicentina, onde passavam férias há anos. Mas a conservatória recusou. "É uma praia de difícil acesso, tem de se passar por dunas e descer por uma ribanceira e a notária não aceitou." A troca de votos passou então para a falésia.

Inês comprou um vestido bege, numa loja no Algarve, que custou cerca de 100 euros. Bernardo não gastou mais na camisa e nos calções de linho que escolheu. "Não tinha pensado em bouquet de noiva, mas acabei por levar umas flores do campo e um girassol." Trocaram de roupa numa herdade próxima, onde iam passar a noite de núpcias, e às 17 horas de uma quinta-feira de agosto – dia ditado pela disponibilidade da notária –, depois de partilharem uma foto do espaço com os pais, casaram-se com vista para o mar.

Quando a notária se despediu, a fotógrafa afastou-se e o casal ficou sozinho. "Lemos os votos que tínhamos escrito um para o outro e emocionámo-nos. Era o que queríamos, um ritual só nosso, num sítio nosso."

O plano não agradou aos pais e irmãos do casal. "Quiseram saber porquê? Depois tentaram convencer­-nos: ‘e se fossemos só nós?’", conta a noiva. "Mas estávamos os dois em sintonia e isso foi muito importante para que a ideia fosse aceite." Ainda assim, os noivos procuraram inclui­-los e pediram ajuda a escolher as flores, o vestido e a herdade onde passaram a primeira noite de casados.

Depois da cerimónia, os noivos desceram até à praia deserta com uma garrafa de champanhe. "Brindámos, entrámos vestidos na água e namorámos. Ficámos até ao nascer da Lua." No dia seguinte almoçaram com os pais e seguiram de lua de mel para a ilha de Madagáscar, em África.

No total, gastaram cerca de 1.000 euros. "Nunca sonhámos gastar tanto, mas à medida que íamos organizando percebemos que era um dia único e naquilo a que cada um dava valor não negociámos preços." A fotógrafa Adriana Morais foi a única testemunha do casamento.

Os casamentos a dois, ou o elopement, como são conhecidos no meio, têm aumentado nos últimos três anos. O conceito é fugir para casar (to elope, em inglês), longe de casa e da família. Por isso, a maioria das celebrações feitas em Portugal são protagonizadas por noivos estrangeiros, sobretudo norte-americanos e brasileiros. Adriana Morais fotografou cinco o ano passado e este ano tem planeados outros quatro. "É muito caro casar nos EUA e eles não são tão agarrados à família", justifica.

O primeiro casamento a dois que fotografou foi há cinco anos. "Era um casal bósnio que vivia na Áustria. Vinham passar férias e pensaram casar-se em Lisboa porque gostavam das pessoas, do sol e da comida."

Sem os gritos das mães
Casaram-se na Conservatória do Registo Civil. A noiva levava um vestido de renda e o noivo calças de fato e uma camisa de mangas arregaçadas. "Depois demos um passeio de tuk­-tuk por Lisboa. O plano era fazer a cerimónia na Praia da Ursa, mas estava mau tempo e dei-lhes boleia até à praia da Bafureira, no Estoril." Foi ali que trocaram votos ao pôr do sol. O casal e a fotógrafa mantiveram contacto via redes sociais. Foi assim que Adriana Morais soube que tinham regressado à Bafureira. "Tiveram um filho e fizeram fotos com a criança no local onde casaram."

Para quem trabalha no meio, a opção faz sentido. "Num casamento tradicional, os noivos passam pouco tempo juntos. Depois da cerimónia separam-se para irem cumprimentar a família e os amigos de cada um", salienta Adriana Morais. "Podem ser eventos stressantes para os noivos, com muitos gritos das mães. Assim é mais descontraído."

Foi isso mesmo que pensaram Nathalia e Rômulo, um casal brasileiro que se casou em Portugal. "Queríamos fazer algo diferente e mais íntimo e como tenho paixão pela literatura clássica portuguesa, em especial por Eça de Queirós, o Rômulo sugeriu Portugal", conta a noiva. Pensaram realizar a cerimónia no Palácio de Monserrate, em Sintra, e contrataram o organizador de casamentos Rui Mota Pinto para concretizar o sonho. Mas o preço pedido para alugar uma sala no monumento – entre os 1.500 e os 12.300 euros – tornou a ideia inviável. "Queríamos um local de património histórico, e o Rui trouxe-nos à Quinta do Torneiro" – situada em Oeiras, inclui uma casa senhorial do século XVIII e um jardim francês.

A cerimónia será presidida por um celebrante que sugeriu ao casal fazer o ritual da areia para simbolizar a sua união. A noiva escolheu um vestido de ateliê e o noivo vai de fato. "Optámos por troca de votos ditos na hora, porque acreditamos que o bonito do amor é ser espontâneo."

Rui Mota Pinto organiza elopements há 20 anos, mas este tipo de cerimónia tornou-se mais comum nos últimos tempos. "O elopement implica fugir da zona de conforto", explica. Por isso, 99% dos casamentos a dois que organizou foram protagonizados por estrangeiros, sobretudo norte-americanos, brasileiros e japoneses. A maioria casa pelo registo civil no próprio país e realiza aqui uma cerimónia simbólica. Os noivos mais desafiantes? Os japoneses. "Primeiro devido à língua. O inglês deles não é bom, trabalho com uma colega italiana que traduz." Além disso, são muito reservados e exigentes. "Gostam de palácios e espaços históricos. São apaixonados por azulejos, passam muito tempo a fotografá-los."

Os pedidos mais difíceis envolvem locais públicos. O caso mais complicado para o organizador aconteceu há dois anos e meio, quando dois norte-americanos quiseram casar-se no pontão rochoso da Praia de Nossa Senhora da Rocha, no Algarve. "Tive de pedir autorização à Capitania e à Polícia Marítima. Exige muita burocracia e demoram muito tempo a responder." Mais: os noivos pediram música ao vivo e foi preciso autorização para ligar os cabos do violonista à tomada elétrica da Capela da Senhora da Rocha.

Na praia e em palácios
Priscilla Santos criou a Diamonds Wedding & Events há cinco anos e, desde então, organizou três elopements. "Estou em fase de preparação para uma cerimónia na Comporta. É um casal brasileiro que pediu para casar na praia e jantar à luz de velas na areia", conta, a caminho da Costa Vicentina. "É a primeira vez que faço na praia. Tem de ser numa zona concessionada ou pedir uma licença à Polícia Marítima."

Já Michel e Marise Barreto, também do Brasil, escolheram Sintra. "Portugal sempre foi um dos nossos lugares preferidos, principalmente porque os meus avós e o meu pai são portugueses", diz Marise. Em outubro de 2017 aproveitaram uma viagem até à Europa para casar e escolheram o Palácio de Monserrate. O monumento cobra cerca de 600 euros para a realização de cerimónias nos jardins e quase 200 euros para a sessão de fotografias. O casal preferiu então trocar alianças no penhasco do Cabo da Roca – só manteve as fotos no palácio. Para além dos noivos e de Priscilla Santos (que desde há três anos é também celebrante), estava ainda o fotógrafo, Pedro Bento. "Foi um dia inesquecível com muitas risadas, alegria e amor", diz a noiva. Uns dias antes, descobriram que iam ser pais.

Ruta Akelyte e Vytis Vadoklis casaram-se pelo civil em casa, no Reino Unido, e abdicaram de um celebrante quando trocaram votos na Praia da Ursa, em Sintra, em agosto de 2018. Mas não foi fácil descer a escarpa de uma das mais bonitas praias do mundo, segundo o Guia Michelin. "Escolhemos Portugal porque tínhamos passado aí férias no ano anterior e adorámos as pessoas, a natureza e a cultura", diz Ruta. "O facto de o acesso à praia ser difícil só a tornou mais interessante e aventureira."

Adepto das caminhadas, o casal lituano não se atrapalhou. "A noiva calçou umas botas de escalada e desceu de vestido", conta Bruna Santos, uma das sócias da Muzza Weddings que organizou o elopement. "A descida demorou 10 minutos e custou mais ao staff. E só levámos o bouquet da noiva e a câmara do fotógrafo."

A cerimónia foi realizada no areal pouco antes do pôr do sol, só os dois, sem celebrante. Depois de uma sessão de fotos e de uma escalada de 15 minutos para sair da praia, seguiu-se um jantar no jardim da casa de hóspedes The Biester Charm House, em Sintra. "Como não tem restaurante, levámos catering. Montámos a mesa e a decoração e deixámo-los sozinhos."

O casal escolheu o elopement porque não queria gastar muito dinheiro e porque não gosta de ser o centro das atenções. "A nossa família e os amigos ficaram surpreendidos porque só lhes dissemos depois. Mas eles já contavam com isso, porque sabiam o tipo de casamento de que gostávamos", conta Ruta Akelyte.

A preparação de um elopment envolve muito diálogo com os noivos. As organizadoras selecionam os fornecedores – floristas, cake designer, fotógrafo e videógrafo – e fazem um projeto com palete de cores e texturas. Depois de aprovado, a equipa sugere copos, cerâmicas e talheres. "Às vezes encomendamos peças personalizadas que os noivos pedem para levar", explica Bruna Santos.

A tempestade ameaçou o evento
No ano passado, um elopement de um casal norte-americano nos Açores quase foi arruinado pela tempestade Leslie. "No dia anterior estava sol e estava tudo planeado para a Lagoa do Canário. Mas no dia da cerimónia, havia um nevoeiro cerrado e tivemos de seguir o plano B", conta Bruna Santos. Seria assustador se fosse um casamento tradicional, mas num elopement foi tranquilo. "Em termos de logística só levávamos o bouquet da noiva. E ainda conseguimos chegar à Lagoa das Sete Cidades antes do pôr do sol." Este ano, a Muzza Weddings vai organizar cinco eventos deste tipo.

Os videógrafos Vanessa e Ivo filmam dois a três elopements por ano. O mais memorável foi no Palace Hotel do Buçaco, no Luso, em setembro de 2017. O casal norte-americano, Lynn Ngo e Matt, alugou uma casa no Luso onde trocou de roupa e a noiva foi maquilhada e penteada. A cerimónia simbólica foi celebrada nas varandas do hotel, pelas 12h. "Vou esforçar-me para te tratar todos os dias como se fosse o teu dia de casamento", prometeu o noivo. "Juro escolher-te e continuar a escolher-te sempre, no início e fim de cada dia", disse Lynn. O enlace foi selado com o tradicional beijo e comemorado com champanhe. "É um ambiente informal e não existe o protocolo e os horários rígidos dos casamentos tradicionais", explica Ivo, da Vanessa e Ivo Handmade Films. Um mês depois o casal juntou a família e os amigos numa grande festa, onde revelou que tinha casado e mostraram o vídeo.

Os elopements ocorrem normalmente durante a semana – ao fim de semana os espaços estão ocupados com casamentos convencionais. São muito mais pequenos, mas ainda assim podem ser mais complicados. "Um casamento tradicional demora um ano a organizar. Os elopements são planeados com menos tempo de antecedência e não temos tempo para encontrar soluções alternativas", diz Joana Antunes, uma das quatro sócias da Como Branco Weddings.

Os chineses também escolhem Portugal para casar. "Fiz um elopement no Palácio de Belmonte [Lisboa] em que foi o noivo que preparou tudo. Fez uma serenata no terraço, foi muito bonito", conta Salomé Alcântara, dona do restaurante Casa da Comida, que pelo menos uma vez por ano realiza um elopement ou um casamento a quatro, com os padrinhos.

O mais complicado foi protagonizado por um casal brasileiro e teve como cenário a Torre de Belém. "As condições logísticas são muito difíceis. Não tem copa, por isso temos de criar todas as condições. Além disso, tem um pé direito baixo, o que dificulta o trabalho." Só alugar o monumento custou 7.000 euros. Para além dos noivos, a Torre foi ocupada por 16 funcionários - entre empregados de mesa, cozinheiros, fotógrafos, videógrafos e músicos. Depois do jantar, atuou um quarteto. "Nós estamos lá até ao fim do evento, mas sempre nos bastidores."

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