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Grávida sem saber: a Sol, o João e o bebé-surpresa

Há quem tenha 9 meses para se preparar, Solange teve algumas horas. As fortes dores de costas afinal eram contracções: não soube que estava grávida até ao dia do parto.
Por Maria Espírito Santo 11 de Outubro de 2019 às 12:57

Era uma manhã de trabalho normal. Solange estava cansada e com muitas dores de costas – nada de novo no duro regresso ao trabalho como enfermeira depois de duas semanas de férias. Mas nunca lhe passou pela cabeça que aquelas dores fossem, afinal, trabalho de parto. No espaço de poucas horas soube que ia ser mãe, deu à luz e encostou ao peito o filho de 26 semanas – "muito pequenino, um ratinho". A mais de dois mil quilómetros estava o namorado, João, que recorda bem humorado: "Vi-me dentro de um filme de terror, que depois passou a drama e que, no final, é uma autêntica comédia."

A história teve um final feliz mas nem sempre é assim, lembra Álvaro Cohen, médico ginecologista e obstetra e presidente da Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-Natal. "A prematuridade extrema pode ter consequências no neurodesenvolvimento, complicações respiratórias e oculares para o resto da vida." Lembra que, nestes casos, não são tomadas precauções pré­-concepcionais (para reduzir o risco de malformações) nem cuidados na gravidez ou ecografias para diagnosticar anomalias e problemas de crescimento.

Bernardo tem hoje dois anos, não ficou com sequelas e está a desenvolver-se normalmente. Os pais garantem que um dia lhe vão contar tudo sobre aquele mês de Maio de 2017. A história da aventura, na primeira pessoa, começa aqui.

Solange: "Tínhamos estado 15 dias de férias em Portugal. Fiz um voo de regresso à Alemanha completamente normal. No dia 1 de Maio voltei ao trabalho. Acordei às 4h da manhã, arranjei-me e tomei o pequeno-almoço, porque começava a trabalhar às 6h. Mal cheguei ao hospital – sou enfermeira – senti uma pontada muito grande nas costas quando me sentei. Como já sabia que ia ter um dia muito stressante automediquei-me, tomei um paracetamol. Mas quando me sentei outra vez senti a mesma pontada e aí decidi tomar um Voltaren, que é mais forte.

Comecei a fazer a minha ronda. Ao entrar no quarto de uma das doentes, deu-me uma náusea muito grande e fui a correr para o quarto de banho. Achei que tinha sido do choque de ter visto a doente – estava num estado muito degradante –, mas ao mesmo tempo estava com grandes dores, parecia-me que era rins, foi uma grande confusão. Entretanto uma colega minha viu-me e disse: ‘Tens de ir já às urgências.’ Lá, a médica apalpou-me e acabou por me dar analgésicos para o alívio da dor porque também achava que era uma crise renal.

Quando consegui fazer uma prova de urina tudo mudou. A médica percebeu pelos parâmetros que podia estar grávida. Perguntou-me quando tinha sido a última menstruação – respondi-lhe que estava a ter a menstruação naquele momento e que tomava a pílula. Foi a seguir que fizemos a ecografia. Primeiro deu-me os parabéns. Depois disse: "O bebé está em posição e vai nascer entre hoje e amanhã." Fiquei em estado de choque. O que eu estava a ter eram contrações, estava em trabalho de parto. Não fui capaz de dizer mais nada.

Não pensava em nada porque estava muito aflita e desconfortável. Nem tive tempo para assimilar a situação. O que queria, numa primeira fase, era não ter dor. Disseram-me que tinha de ser enviada para outro hospital, porque ali não havia serviço de neonatologia. A minha colega foi comigo, estava mesmo com muito medo. Na ambulância para lá já estava com contrações de 15 em 15 minutos. Quando lá cheguei disseram-me que estava com oito dedos de dilatação e que ia nascer nesse momento. Pedi à minha colega para ligar à minha mãe e lhe contar tudo.

Entrei no bloco para fazer uma cesariana. Deram-me anestesia geral e apaguei. Segundo o que me contaram, passados 20 minutos, o Bernardo nasceu, já na manhã de 2 de Maio. Quando acordei da anestesia, estava atordoada e só chorava. Só dizia: "Meu Deus, como é que isto foi acontecer. Não tenho nada preparado." O cirurgião disse-me que tinha corrido tudo bem e que tinha tido um rapaz muito forte. Ele nasceu com 26 semanas e teve de ir direto para os cuidados intensivos.

Quando me puseram o Bernardo ao peito era muito pequenino, um ratinho, só pesava um quilo e 200 gramas – foi um choque. Tanto foi que fiquei com ele só uns minutos, fazia-me muita impressão. Houve ali um período de 24h em que não reagi muito bem, estava completamente perdida. A primeira pessoa com quem falei foi com a minha mãe, depois com a mãe do João. Por último falei com o João. Parece ridículo mas não faço ideia do que falámos."

João: "Naquela altura, estava em Lisboa. Além de estar a terminar o curso de gestão no desporto, trabalhava num rent-a-car. Atendia um cliente quando o meu telemóvel começou a tocar. Não parava, era a minha sogra. Achei aquilo um bocadinho estranho e até pedi ao meu chefe para ir atender. A mãe da Sol estava num pranto, disse-me: 'Tenho uma notícia para ti.'

Claro que fiquei logo perturbado. Contou-me que a Sol tinha sido operada de urgência e só chorava, soluçava mas, ao mesmo tempo, dava-me os parabéns. Foi uma conversa muito estranha. Passaram alguns minutos até perceber o que se passava. Depois só me lembro de ter dito: "Isto está tudo maluco, isto não pode acontecer." Foram as primeiras palavras que consegui pronunciar.

Quando entrei dentro da loja, devia estar mais branco do que um fantasma porque o meu chefe mal me vê pergunta-me se me estou a sentir bem. Lembro-me de olhar para ele e abanar a cabeça. Ainda hoje recordo a forma como reagiu. Há duas formas de alguém reagir a uma notícia destas: é dizer, coitadinho, o que te foi acontecer – ou então fazer precisamente o contrário, que foi o que ele fez. Deu-me os parabéns, abraçou-me, disse-me que uma criança é uma coisa fantástica, que muda a vida para melhor. Lembro-me do sorriso dele que me deu ânimo. Logo me perguntou: ‘O que é que ainda estás aqui a fazer? Vai-te embora rapaz.’ A partir daí, a preocupação foi arranjar avião para a Alemanha. Entretanto, contei ao meu pai, à minha mãe, aos meus irmãos. O meu pai não queria acreditar, um dos meus irmãos chorava baba e ranho e teve de sair do trabalho que não aguentava de emoção. Naquele dia almoçámos em casa e mais ninguém trabalhou à custa do Bernardo.

No dia seguinte, 3 de Maio, apanhei o voo, a mãe da Sol veio comigo. Eu e a Solange chegámos a falar por telefone, mas não nos conseguimos lembrar do que falámos. A minha preocupação era com ela, perceber se estava bem física e psicologicamente. Dei-lhe algumas palavras de apoio. A minha preocupação era a 200% com ela. Afinal, o Bernardo estava a ser cuidado pelos especialistas, médicos ultracompetentes.

Quando cheguei ao hospital abracei a Solange, falámos e depois fui ver o Bernardo. Lembro-me de desejar que toda esta história acabasse bem, que ele ficasse saudável e sem mazelas. E claro que todos nós sonhamos. Adoro futebol e imaginei­-me logo a jogar com ele."

Solange: "Fiquei oito dias no hospital. Disseram-me que, como não tinha desenvolvido uma relação de afeto com o bebé, era mais fácil se inicialmente ficasse por lá, para o fazer aos poucos. O Bernardo ficou dois meses na incubadora por causa da parte respiratória, que ainda não estava completamente desenvolvida, e pela frequência cardíaca, que não estava estabilizada. Mas desde o nascimento que não teve qualquer tipo de problema.

Muitos cuidados não foram tidos em conta por ignorância, por não saber que estava grávida. No fim-de­-semana anterior tínhamos feito dois anos de namoro e eu tinha bebido álcool, bastante. Também comi marisco. Às vezes, por causa dos turnos, tinha insónias e tomava medicamentos. E mesmo ao nível do trabalho, estive exposta a imensos riscos. Trabalho no serviço de cardiologia, sou enfermeira­-chefe e faço reanimações diariamente, que são muito duras. Também estive em quartos isolados onde estavam doentes com bactérias multirresistentes. Se as tivesse passado para o feto era grave.

Claro que tinha preocupações. No meio disto tudo pensava: 'Como é que esta criança vai sobreviver?' E sempre que tinha uma preocupação o João apoiava-me. Também não consegui amamentar: tinha de tirar leite com a bomba e, entretanto, com o stress o peito secou. O João lembrava que havia suplementos fantásticos e que não era por isso que era pior mãe. Dava-me sempre respostas que faziam sentido."

João: "Sempre tive pensamentos muito positivos e aconselhei a Sol a fazer o mesmo, a ter calma. Lembrava-a que nada ia mudar entre nós, que íamos sempre gostar do Bernardo. Fiquei na Alemanha durante 10 dias e depois voltei para Portugal. Tinha de estudar para fazer um último exame para terminar a licenciatura. Depois de o fazer apanhei o voo, mesmo sem saber a nota. Poucos dias depois arranjei trabalho em Hamburgo, num banco português."

Solange: "As pessoas ficaram muito sensibilizadas com a nossa situação e as coisas foram aparecendo. A minha mãe veio os primeiros dois meses para nos ajudar. Os nossos senhorios, que tinham miúdas pequenas, emprestaram-nos quase tudo para uma primeira fase.

Às vezes fico a pensar... há coisas que não fazem sentido. Naqueles meses até tinha perdido peso. Não tive enjoos além de enjoar no carro – o que sempre aconteceu. Não tive barriga dura que é sinal de contrações. Mas há outras coisas que podem ter sido pistas. Às vezes eram oito da noite e já estava a dormir ferrada – mas podia acontecer porque estava a trabalhar muitas horas em turnos. E tive uma fase louca por fruta, só tinha vontade de comer ananás, melancia e melão."

João: "Se não tivéssemos estado em Portugal de férias, ninguém acreditaria em nós, diziam que tínhamos escondido a gravidez. Mas estivemos, fomos passear, estivemos com amigos, familiares, fomos à praia. Ninguém desconfiou de nada, a minha mãe até disse à Sol que se notava que tinha emagrecido."

Solange: "Agora qualquer coisa que sinta, um enjoo, acho sempre que estou grávida. Numa altura em que estava muito stressada no trabalho o período apareceu mais tarde e eu já estava doente de preocupação. Mas fiz o teste e deu negativo. Queremos muito que o próximo seja planeado. Neste momento tenho colegas grávidas e tenho imensa pena de não ter vivido a gravidez, de não ter feito barriga, de não ter organizado baby shower... Já disse: para a próxima quero saber no primeiro dia." 

Quatro perguntas ao médico obstetra Álvaro Cohen

Como se pode confundir dores de rins com as de um parto?
As dores do parto têm alguma semelhança com as cólicas renais uma vez que também têm irradiação para a região lombar (mas não só) e são dores que vão e vêm. E mais: com 26 semanas de gravidez e um bebé provavelmente com problemas de crescimento, o útero pode efetivamente não ser tão facilmente visível, sobretudo numa mulher com um índice de massa corporal superior ao adequado.

As análises mostram o quê?
A análise da urina deteta a presença da hormona beta-HCG. Já a ecografia é muito importante para tentar datar a gravidez. Quanto mais avançada for a gestação, mais difícil se torna datar rigorosamente a gravidez.

Como é possível continuar a ter menstruação na gravidez?
Tomar a pílula durante a gravidez pode também provocar pequenos sangramentos, sobretudo naquela semana em que não se tomam comprimidos. É bom que as mulheres percebam que todos os métodos contraceptivos, mas todos mesmo, têm falhas.

Quão comuns são estes casos?
São cada vez mais raras estas situações. O grupo em que mais ocorre é o das grávidas jovens/adolescentes. O último caso que recordo no meu consultório foi há cerca de três anos – a paciente veio à consulta porque não conseguia perder peso. Mal olhei para ela disse: "Está grávida." Respondeu que era impossível porque tinha dispositivo intra-uterino. Fiz--lhe uma ecografia e o casal ficou em estado de choque porque era uma gravidez muito perto de 30 semanas. A gestação correu bem e o parto foi a termo.

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