Barra Cofina

Investir tudo nos filhos até à universidade

Para algumas famílias, todas as escolhas têm um propósito definido, um objetivo que só acaba quando o curso estiver feito. Há sacrifícios e um preço alto.
Por Marta Martins Silva 11 de Outubro de 2019 às 15:31
"Mas porque é que eu tenho de estar a falar esta língua esquisita?", perguntava Maria, com quatro anos, enquanto tentava escapar à babysitter alemã contratada pelos pais para brincar com ela e com o irmão com a condição de não usar uma palavra de português.

Alexandra Fernandes e Luís Afonso, professores universitários, optaram por matricular os dois filhos na Escola Alemã de Lisboa logo no jardim-de-infância, apesar de nem um nem outro ter qualquer ligação ao país de Angela Merkel. Desde os quatro anos do mais velho que os irmãos têm o apoio de babysitters alemãs que respondem a dúvidas que os pais não dominam naquela língua. Quando eram pequenos vinham só brincar com eles. Agora, que já têm 13 e 17 anos, ajudam -nos fundamentalmente nos trabalhos de casa, em alemão, que para os pais são incompreensíveis.

"A escolha da escola foi sempre uma das nossas preocupações. Queríamos proporcionar-lhes a melhor educação e encontrámos o que procurávamos nesta escola internacional – se eles quiserem ir para o estrangeiro têm maior mobilidade porque serão bilingues para sempre. Esta escolha foi para nós uma opção estratégica: a Alemanha é uma potência mundial que tem muitas coisas boas e eles vão ter essas portas abertas", explica a mãe.

"À mensalidade da Escola Alemã [que ronda os 500 euros por mês] acresce o custo da babysitter, pelo que isto é o nosso maior investimento. Uma boa educação é a base para o futuro sem preocupações que queremos que eles tenham", acrescenta Alexandra Fernandes, professora de Gestão.

"Os pais actualmente preocupam-se mais, porque a pressão social dos tempos de hoje e a exigência do mercado de trabalho os leva a crer que o futuro não vai ser fácil e quanto mais recursos tiverem e mais bem preparados forem os filhos, melhor enfrentarão os desafios da vida. A educação sempre foi o foco dos pais, mas a educação orientada para a formação académica, neste momento, para a maioria dos pais tornou-se ‘a missão’: a de preparar o futuro dos filhos para vencerem na vida", afirma a psicóloga educacional Cristina Santos. Fala com o conhecimento de quem está habituada a escutar estas preocupações no seu consultório.

"A verdade é que – e isso está provado pelos estudos que a OCDE todos os anos divulga – o tempo de desemprego de pessoas mais qualificadas é menor e a remuneração, quando empregadas, é maior, por isso o investimento na educação é um bom investimento", observa Luísa Cerdeira, investigadora do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

"Agora é maravilhoso o investimento no imobiliário e na indústria ligada ao turismo, mas só vai ser seguro até certa altura… A educação não está tão sujeita a oscilações. Mesmo em momentos de crise, e podendo inclusivamente haver uma regressão na sua situação, este jovem em quem os pais investiram está melhor do que se não tivesse estas competências e esta formação", acredita a economista. "Não havendo nada seguro na vida, qualquer pai ou qualquer mãe pode acreditar que o investimento que faz na formação dos filhos é possivelmente dos investimentos mais seguros que ainda consegue fazer, até porque terá retorno", acrescenta.

E se no início Maria e Francisco fugiam das babysitters alemãs, "hoje já percebem o investimento e dão muito valor às escolhas" que os pais fizeram. "Percebem que esta educação é uma mais-valia", assegura a mãe. Além dos estudos, Alexandra sempre valorizou o desporto como parte da formação dos filhos.

Largar a carreira pelo filho
António Maria também reconhece o investimento dos pais. Neste caso não apenas a escolha da Escola Francesa do Porto, que frequenta desde os três anos – e a mesma onde a mãe estudou –, mas o facto de Sofia César Machado ter abdicado de uma carreira na advocacia para o acompanhar em todas as fases de crescimento ao longo dos seus 13 anos de vida. "O objectivo era criar um filho que pudesse ser feliz, e portanto precisaria de bases sólidas, de quantidades brutais de amor, de muita brincadeira e atenção, de convívio com toda a família, de ferramentas que lhe permitissem exprimir-se. Desenhos, pinturas, cores, visitas a museus, teatros, amigos franceses, chineses, russos, ucranianos, italianos…", enumera Sofia, de 45 anos, que a partir do próximo ano pensa voltar a trabalhar fora de casa.

António tem agora 13 anos, 1,72 m de altura e fala português e francês como línguas principais, às quais acresce o alemão e o inglês. É ainda jogador de basquetebol federado. "Tem uma capacidade de raciocínio fabulosa. Privilegia o trabalho de grupo, tem amigos em todos os cantos do mundo e caminha para fazer o baccalauréat (exame terminal), que lhe concederá acesso a quase todas as universidades do mundo muito mais facilmente, permitindo que escolha realmente a profissão que quer ter com toda a liberdade. Com isto, esperamos ter contribuído para que o António se torne num adulto mais feliz."

"Muitas vezes encontramos pais que no fundo gostariam de proteger os filhos das adversidades, mas é impossível evitar as contrariedades, a dor, a tristeza, os insucessos, o erro... tudo isso faz parte da vida. É importante que os pais estejam tranquilos, acreditamos que cada um fará o melhor que pode e consegue em determinada situação – com as competências que tem, com os recursos a que tem acesso, com as experiências de vida que teve até então...", sossega Sandra Belo, do Family Coaching, uma empresa que desenvolve a sua actividade na área do coaching aplicado ao contexto familiar.

"Nas nossas sociedades, talvez a relação com os filhos seja, do ponto de vista da afectividade, a relação mais estável. Em Portugal, temos índices de divórcio dos mais elevados da Europa e, portanto, estas relações menos sólidas, menos continuadas, fazem com que esta ligação com os filhos se torne ainda mais importante. No fundo, as pessoas precisam de ter alguma coisa estável e efectivamente os estudos feitos comprovam que os filhos são a prioridade dos pais", sublinha por seu lado a socióloga Margarida Mesquita, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e responsável por vários estudos nesta área.

Muitas vezes este investimento começa a ser planeado bem antes de os filhos nascerem. Maria e João começaram a namorar aos 18 anos e souberam desde o início que "sair de Portugal era uma oportunidade de abrir os horizontes".
"O nosso objectivo era evoluir nas nossas carreiras, ter filhos e trabalhar para lhes poder proporcionar, principalmente, duas coisas: boas escolas e capacidade de olhar e ver o mundo. Achámos sempre que indo para fora estaríamos mais bem equipados para lhes dar uma melhor educação no futuro, face a uma maior capacidade financeira. Durante o noivado, João arranjou emprego em Londres, num dos maiores gabinetes de engenharia do mundo e eu agarrei a oportunidade com as duas mãos", recorda Maria Amaral, uma arquitecta de 41 anos.

Ficariam na capital inglesa menos tempo do que imaginavam, porque cinco meses depois de nascer o filho mais velho João recebeu uma proposta de trabalho na Arábia Saudita, para onde a família se mudou há sete anos.

Valorização social e simbólica
"O nosso segundo filho já nasceu no Bahrain. O ensino é óptimo e muito desafiante, com a aprendizagem de inglês e árabe a ser estimulada desde os 2 anos. Vão a museus, inventam histórias, fazem teatros e concertos, aprendem a ler, a escrever, a contar, a cantar, a tocar instrumentos musicais. O meu filho mais velho até aprendeu na escola ferramentas para gerir conflitos intersociais: como reagir se o agridem, se não querem brincar com ele, se o interrompem, se lhe mentem, se mentem acerca dele, se são desagradáveis com ele... e como pedir desculpa, como se defender, como argumentar quando num conflito quiser expressar a sua opinião, ou fazer ouvir a sua voz", descreve, satisfeita, a mãe.

"Não temos televisão – nunca tivemos. Correm, andam de bicicleta, nadam, jogam à bola. Vivemos num condomínio com essa possibilidade e gostamos de os estimular para aquilo que o mundo oferece. Claro que não podemos garantir que vão ter um futuro melhor por causa disso, mas temos a sensação de que ficarão mais bem equipados com esta versatilidade: dominam línguas diferentes; viajam; dão-se com pessoas de todas as raças possíveis e não fazem distinções", acrescenta com orgulho.

"Colocados agora no centro da relação familiar, os filhos são objecto de uma enorme valorização social e simbólica e de um intenso investimento afectivo. O controlo da fecundidade é, justamente, um dos efeitos dessa mudança, subordinado ao desejo de se oferecer a cada filho as melhores condições de vida e de bem-estar possíveis, e as oportunidades que se crê mais adequadas", contextualiza Maria Manuel Vieira, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Por outro lado, acrescenta a socióloga, "o sucesso escolar dos filhos parece fazer prova de competência educativa dos pais e, para o alcançar, muitos não se poupam a esforços: o investimento em actividades extracurriculares escolarmente úteis, como a frequência de cursos de línguas ou de artes, ou o recurso a explicações, o controlo sobre os trabalhos de casa, as disputas com professores a propósito de notas ou comportamentos, a obsessão competitiva ou o mero incentivo oral ao estudo são práticas que denunciam o lugar acrescido que o investimento escolar dos filhos hoje ocupa no quotidiano".

Metade do orçamento familiar
O maior investimento de Mila e Igor Artysh, uma enfermeira e um médico de nacionalidade ucraniana que chegaram a Portugal no ano 2000, é com a educação do único filho, Daniel, de 14 anos. "Mais de 50% do nosso orçamento vai para a mensalidade da escola [470 euros] e para as actividades extracurriculares. Colocamos o ensino como prioridade e deixamos o luxo de lado para garantir os estudos. Com esse dinheiro podíamos ir à América de férias, mas este ano vamos optar por fazer uma semana de praia em Espanha, por exemplo", brinca a mãe, falando a sério.

A família vivia em Braga, onde o filho começou por frequentar um colégio internacional, mas mudou -se para o Porto quando descobriu uma escola com um currículo mais próximo daquilo que valorizavam. "Tanto que comprámos casa perto da escola que escolhemos e mudámos a nossa vida em função disso. Também achámos que o Porto teria mais oportunidades de futuro para o nosso filho", partilha Mila, que não poupa nas actividades em que inscreve Daniel.

Não poupa mesmo: "Faz música, desporto e até houve uma altura, quando ainda morávamos em Braga, em que o levava de propósito ao Porto para ele ter aulas numa academia de matemática, porque considerava importante ele ter outra visão da matéria além da que era dada nas aulas. E já fez cursos de informática, pode vir a fazer de pintura e no Verão vai fazer uma formação de arquitectura na Universidade do Porto. O nosso objectivo é oferecer o máximo que podemos, queremos que todas as portas estejam abertas. Ainda não sei onde vai levar este nosso investimento no futuro, mas nós estamos a fazer a nossa parte, ele depois fará a dele."
Relacionadas
Notícias Recomendadas