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Os dadores de esperma e óvulos que querem conhecer os seus filhos

Há quem não se importe de conhecer os filhos que ajudaram a gerar. Fomos conhecer uma mulher e um homem.
Por Lucília Galha 11 de Outubro de 2019 às 14:43
Se um dia uma, ou mais, das potenciais oito crianças que ajudou a gerar o quiserem conhecer, José ficará muito contente. Encara essa possibilidade como um privilégio. Não doou o seu material genético no pressuposto de ter mais filhos – já tem três, o mais velho com 23 anos e a mais nova com 17 –, nem considera estas crianças como tal, mas acredita que merecem o máximo respeito. "O dador não está à procura de direitos, o gerado é que tem o direito de saber as suas origens", diz.

A família acompanha-o nesta posição. "Eles sabem e, no outro dia, a minha filha disse-me: ‘Seria giro virmos a conhecer algum deles’", conta. Em Portugal, o número limite de recém-nascidos gerados com o material biológico de um dador homem é oito; José, 52 anos, começou a doar em 2008 e até 2012 fez cerca de uma dezena de doações. Trabalha na área do apoio social e acompanha situações dramáticas, esta foi a forma que encontrou de dar o seu contributo.

Ao contrário das opiniões que têm vindo a ser divulgadas, desde que a decisão do Tribunal Constitucional – de deixar cair o anonimato dos dadores de gâmetas, óvulos e espermatozoides – foi conhecida, considera que a mudança na lei da procriação medicamente assistida é muito positiva. "Finalmente que se está a legislar a pensar nos superiores interesses de quem é gerado desta forma", diz.

Mais: também acha que um dador que se sinta desconfortável em partilhar esta informação terá feito a sua doação com as motivações erradas. "É uma falsa questão: o pai é mais do que a entidade que dá o material genético. Estas pessoas vieram ao mundo porque houve uma família que as desejou muito; nós, dadores, só ajudámos as famílias a ter esse sonho", explica.

A identidade civil do dador
Na semana passada, na sequência do acórdão do Tribunal Constitucional, o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida recomendou que os 30 centros de fertilização existentes no País suspendessem os tratamentos com recurso a dadores anónimos. Aconselhou também a que se obtivesse autorização junto destes mesmos dadores para a utilização do seu material genético sem o pressuposto do anonimato. E anteviu que esta decisão levaria a uma "redução significativa das doações".

Contudo, o cenário não tem sido assim tão negativo. Num dos centros contactados, o IVI Lisboa, nenhuma das dadoras que estava em processo desistiu e, das 20 que foram a uma primeira consulta na semana passada, só duas ainda não decidiram se avançam. Já os homens não aceitaram tão bem, cerca de 90% não querem renunciar ao anonimato. "No entanto, dadores homens que vieram pela primeira vez à clínica na semana passada aceitaram essa possibilidade", confirma Sérgio Soares, diretor do IVI Lisboa.

Noutra clínica, em Coimbra, a situação é bastante parecida: todas as mulheres, sem excepção, aceitaram o não anonimato e, nos dadores de esperma, só houve quatro recusas, disse Vladimiro Silva, responsável pelo laboratório de procriação medicamente assistida do Ferticentro.

O embriologista clínico ressalva que o que está em causa é a identidade civil do dador. "Os dadores não vão ser pais das crianças e também não vão ser mencionados em nenhum documento legal. Aquilo que vai acontecer é que, aos 18 anos, a criança gerada poderá requerer informação sobre as suas origens", explica Vladimiro Silva.

Foi com essa convicção que Andreia, de 29 anos, decidiu continuar com o processo de doação, apesar do fim do anonimato. "Eu só estou a doar algo que pode ajudar uma mulher a ser mãe, a mãe é ela, não sou eu", considera.

Mais impacto para quem recebe
Decidiu ser dadora há dois meses, a desafio de uma amiga que tem dois irmãos resultado de doações de gâmetas. Também a sua irmã mais velha passou por tratamentos de fertilidade, antes de conseguir ser mãe de forma natural. "Poder dar a alguém a hipótese de ter uma criança que é tão desejada mexe connosco", diz.

Separada e mãe de duas meninas, com dez e 14 anos, avançou com a doação: primeiro fez análises e um mês depois, quando foi encontrada uma mulher compatível consigo (conta o grupo sanguíneo, mas também características físicas como etnia, altura, cor do cabelo e dos olhos e tom de pele), começou a estimulação hormonal. Durante uma semana, tomou diariamente uma espécie de pílula para acertar o seu ciclo menstrual com o da recetora e só depois começou com as injeções durante 12 dias.

Ao mesmo tempo fez análises e ecografias regularmente para avaliar a evolução dos folículos. Um dia depois de terminar as injeções fez a extração dos óvulos. "Entrei às 11h e às 13h30 já estava despachada. Sinto-me bem, só tenho um desconforto semelhante às dores menstruais", contou em entrevista um dia após o procedimento.

Assim que percebeu que a doação não tinha qualquer risco para a sua saúde, e também que não a impedia de ser mãe novamente, não hesitou. O anonimato nunca lhe fez confusão e até pondera um dia mais tarde contar às suas filhas. "Não digo agora porque seria confuso para elas, até porque a mais velha me tem pedido um irmão", explica. Acredita que a decisão do Tribunal Constitucional poderá ter até mais impacto nos casais receptores, "porque quem doa, fá-lo por razões altruístas".

Cláudia Vieira, presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade, também partilha a mesma preocupação. "Além dos dadores, é preciso perceber se os casais beneficiados querem receber material genético de um dador não anónimo", diz. Há pessoas com as vidas em suspenso, alerta a profissional, destacando aquelas que fizeram um investimento para fazer os tratamentos pelo privado, por falta de resposta no Sistema Nacional de Saúde.

Ao contrário do que se passa nas clínicas privadas, onde chega a haver centenas de dadores, o banco público, que fica no Centro Hospitalar do Porto, só tem atualmente 31 dadores efetivos (12 homens e 19 mulheres) – e na lista de espera nacional há mais de 300 pessoas inférteis.
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