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Quer um cão? Saiba qual o ideal para si

Há os que se adaptam bem a apartamentos minúsculos, são fáceis para quem nunca teve animais, mas não se dão com outros cães.
Por Ângela Marques 11 de Outubro de 2019 às 16:21
FOTO: DR
A tendência para ladrar, a fome de brincadeira, a tolerância aos comportamentos desajustados dos miúdos, a necessidade de exercício bem como de mimo e até a queda para o ciúme – há dezenas de características que definem a personalidade de um cão. E se a maioria das pessoas não as pondera na hora de escolher um, a ciência está cada vez mais interessada nelas: as publicações de ensaios sobre a personalidade dos cães duplicaram na última década. Objetivo: detetar as predisposições dos animais para fazer o match perfeito entre cães e famílias. Mas essas predisposições existem mesmo. Centenas de especialistas acreditam que sim.

Golden retriever é para mim?
Vamos chamar-lhe um charme. Muito inteligente, sociável, lindo de morrer e leal até às últimas consequências, o golden retriever é o cão mais amado nos Estados Unidos – e não é por acaso. O facto de nunca deixar de ter um comportamento infantil e ser altamente tolerante faz dele uma ótima escolha para famílias. Por outro lado, por ser um animal que aprende rápido, é perfeito para ser um cão-trabalhador. No entanto (e há sempre um no entanto), o golden retriever perde muito pêlo na Primavera e no Outono e não pode passar muito tempo sozinho, mesmo que a sua casa tenha um quintal. Pense: é isto que quer para si?

Nascido em São Francisco, o Dog Breed Center, da DogTime (que pode consultar em dogtime.com), é o lugar aonde se deve dirigir se quiser perceber que raça de cão se adequa mais à sua personalidade, casa e ambiente familiar. Isto claro, se não acreditar, tal como Cláudia Estanislau, fundadora da It’s All About Dogs (uma Escola de Treino Canino, Avaliação e Resolução de Problemas Comportamentais), na relevância do ADN canino nesta matéria. "Não sou muito crente em raças e famílias, acho que cada cão é um indivíduo e julgo que a pessoa que quer ter um cão apenas tem que pensar se quer um cão grande ou pequeno. O resto é muito trabalho de treino e sociabilização."

Para a treinadora, mais importante do que as características específicas de cada raça (até porque elas são imediatamente descartadas da equação quando falamos de cães rafeiros) é, repete, o tamanho "e a idade". Diz Cláudia Estanislau: "Acredito piamente que as pessoas deviam considerar a adoção de cães idosos. Eles dão menos trabalho e já chegam com personalidades formadas – muitos procuram sofás e sopas."

A opinião de Cláudia Estanislau é secundada pela ciência: em 2013, um estudo da Universidade do Texas demonstrou que a personalidade dos cães só fica formada na idade adulta, sendo difícil provar que um comportamento de um cachorro permitirá antecipar a sua personalidade como adulto. Assim, não podendo adivinhar, o melhor será contar com aquilo que se conhece de cada raça. O Dog Breed Center, da Dog Time, existe para ajudar novos adotantes nisso.

Com uma lista de 31 características aplicáveis a todas as raças, avaliadas numa escala de zero a cinco (com base na experiência de milhares de testemunhos e ensaios publicados sobre cada espécie), cada cão é descrito ao pormenor para que o potencial adotante (o site tem parcerias com alguns abrigos ainda que essa não seja a sua principal função) possa perceber que personalidade canina se adequa mais à sua. Entre essas características contam-se, por exemplo: Nível de energia, Saúde geral, Facilidade de adaptação a apartamentos, Potencial de aumento de peso ou Facilidade no treino.

101 Dálmatas – ou um é demais?
h Mundialmente conhecidos como os cães do sucesso da Disney 101 Dálmatas, estes cães têm uma história cheia de outras conquistas: a raça demonstrou já talento e habilidade em tarefas como as da caça, da ajuda a bombeiros e até da performance artística no circo. Segundo a DogTime, eles são distintos e palermas e de novo distintos enquanto se esfrega um olho. "Adoram ter um papel em todas as atividades da família", lê-se na descrição da raça. "No entanto, os seus níveis de energia podem fazer com que seja difícil acompanhá-los." Assim, se não gosta de correr, esqueça-os — se, pelo contrário, é adepto de treinos de corrida ou bicicleta, tem aqui um amigo para todos os quilómetros.

Se, seguindo a sugestão da Disney, está a pensar adotar ou comprar logo dois ou mais dálmatas, um aviso sério. "Se pretende adquirir mais um cão para fazer companhia ao seu cão atual porque acha que ele se sente triste sozinho, pense duas vezes, ou três, ou quantas forem necessárias", diz Ana Camacho, treinadora e especialista em comportamento canino, atualmente a trabalhar na It’s All Dogs. "Ter dois cães não é sinónimo de ter o dobro do trabalho já que cada cão é um cão e cada um tem a sua personalidade, a sua energia, as suas necessidades e características específicas."

Aliás, convida Ana Camacho, imagine que tem um labrador calmo, tranquilo, sociável com tudo e todos. "Pensar que ao adquirir um outro labrador este vai ser uma cópia do primeiro é um erro", diz. "É que o segundo labrador pode chegar a casa cheio de energia, ser um daqueles cães que roem todos os rodapés da casa e que saltam que nem loucos quando veem pessoas", continua. "O tempo que vai ter de dedicar a este cão será superior. Ele vai ter de aprender a ter os comportamentos corretos e para não ‘ensinar’ o seu primeiro cão a ter estes comportamentos também."

Por outro lado, se pensa ter dois cães porque o primeiro não consegue estar sozinho, destrói a casa e ladra compulsivamente, a probabilidade de lhe arranjar uma companhia e de ter depois dois cães com o mesmo problema é muito grande.

"É verdade que eles fazem companhia uns aos outros e como animais sociais que são gostam muito de estar acompanhados seja por seres humanos seja por outros cães, mas antes de pensar adquirir um outro cão dedique tempo de qualidade ao seu cão atual."

Como? Passeie-o, atire bolas, dê -lhe brinquedos de estimulação mental, treine-o, ensine-o a andar à trela sem puxar, a apresentar-se corretamente às pessoas e a outros cães, a saber estar sozinho em casa. "Modifique, com um treinador, comportamentos indesejados, empenhe-se, comprometa-se. E quando este seu cão tiver os comportamentos adequados para as diversas situações do vosso dia -a -dia, pense então se pode ou não adquirir outro cão, pois tudo o que passou com este primeiro deve passar com o segundo para então ter dois cães com comportamentos adequados", conclui a treinadora.

Beagle – gosta de teimosos?
Pequenos e compactos, parecem perfeitos para apartamentos pequenos. Atenção, contudo: apesar de tolerarem espaços pequenos, os beagles são cães de caça, o que faz com que sigam o seu nariz para todo o lado sem olhar a meios, o que os torna teimosos. Com eles é preciso dominar as técnicas de treino (convença-se de que pode levar um ano a treiná-lo em casa, se não recorrer a um especialista). Além disso, odeiam passar tempo sozinhos (pondere isso se tem um trabalho que lhe ocupa muitas horas do dia – a menos que queira chegar a casa e encontrar a cozinha virada do avesso) e babam-se imenso (é uma característica da raça e pode ser importante para a boa relação entre cão e dono, sobretudo se o dono tiver problemas com isso – é que o beagle não se vai ralar). O melhor destes cães: são cães alegres, que encaram toda a gente como o seu novo melhor amigo.

Buldogues – violentos?
São uma raça injustiçada. De facto nas suas origens há lutas de cães, mas hoje são ótimas companhias para crianças. Segundo a DogTime, um passeio e uma sesta no sofá são suficientes para fazer um buldogue feliz. Devido ao tamanho e temperamento, são óptimos companheiros para quem viva em apartamentos pequenos. Por não serem muito ativos, podem ter excesso de peso. São preguiçosos – em adultos podem não reagir de forma muito entusiasmada à ideia de ir à rua, pelo que terá de insistir com eles (até para não ganharem peso, terão de se mexer). No entanto, como gostam de brincar pode sempre puxar por eles. Não são grandes fãs de outras raças e preferem ficar junto das pessoas – o que faz deles perfeitos para pessoas que vivam sozinhas e passem muito tempo em casa.

Jack russell terrier – energia!
Espertos e independentes – são assim estes cães. São também charmosos e afectuosos. Mas, claro, não são um bouquet de rosas: difíceis de treinar, são mais aconselhados a adotantes que já tenham tido outros cães. Com altos níveis de energia e necessidades de exercício comparáveis às de atletas olímpicos, estes cães têm alguma tendência para uivar (o que pode fazer deles péssimos vizinhos – cuidado, se vive num prédio com paredes finas). Se há 200 anos caçavam raposas em Inglaterra, hoje os jack russell precisam de caminhadas de 30 a 45 minutos para ficarem satisfeitos. E se os seus filhos de 12 ou 14 anos vão adorá-los como companhia, não espere que os mais novos delirem – digamos que, com a incapacidade que demonstram em ficar quietos, estes cães roubam a cena.

Cão de água – o português
Em tempos, ia em barcos de pesca e ajudava a recolher as redes cheias de peixe, além de levar mensagens de barco em barco, nadando.

Era um trabalhador apesar de não parecer – o pelo comprido que lhe dava um ar brincalhão nunca o fez levar a vida a brincar. De porte médio, era mais um entre os pescadores. Ainda hoje adora a água e ter as patas dentro dela. Calmos e inteligentes, os cães de água são ideais para famílias que tenham piscina, um barco ou o mar perto de casa. Seja dentro ou fora de água, precisam de exercício ou ficarão frustrados e com tendência para destruir coisas (gostam especialmente de mastigar). Também podem ser um amigo ideal para quem viva sozinho, precisamente por requererem muita atividade fora de casa e acabarem, depois do exercício, por ser bastante calmos em casa. E, claro, são ótima companhia para um Presidente dos Estados Unidos da América, como demonstrou Barack Obama quando levou um para a Casa Branca.

O que diz a ciência?
"Os cães domésticos desempenham diversos papéis na sociedade. Muitos, treinados, são cães -guia, fazem parte de terapias e trabalham ao lado de forças militares e policiais; mas o papel mais comum dos cães, hoje, é fazerem companhia aos seus tutores", descreve um grupo de investigadores austríacos e húngaros num estudo publicado na revista científica Plos One em Abril. É a esses que a comunidade científica mais se tem dedicado.

Em Setembro, um estudo publicado na mesma revista, mas da autoria de uma equipa de investigadores holandesa, dava conta da relação de dois fatores – o comportamento do cão e a satisfação do tutor na relação com o cão – na pior resolução possível para a vida de um cão: o abandono. "A satisfação do dono de um cão tem um efeito direto na qualidade de vida de ambos – quando esta é seriamente comprometida pode levar ao abandono", defendem os especialistas.

O Natal é reconhecidamente uma época de risco para estes animais. "É nesta altura que muitas famílias, em especial as que têm filhos pequenos, decidem, por impulso e imbuídas do espírito familiar e de solidariedade, "oferecer" aos mais jovens – e não raras vezes a pedido destes –, um amigo de quatro patas", explica a provedora Municipal dos Animais de Lisboa, Marisa Quaresma dos Reis.

Problema: "Elas desconhecem, na prática, todas as responsabilidades que advêm da adoção do animal, designadamente: obrigações legais, gastos com comida e cuidados médico-veterinários, tempo necessário para estar com eles, tempo para os passear (o que tem de ser feito também nos dias de frio e chuva...), aspetos menos positivos como novos odores, novas necessidades de higiene em casa, as tropelias habituais de um animal (como destruir sofás ou afiar as unhas na mobília)..." Assim, "passando a época de Natal, voltando ao ritmo de vida normal e diminuindo o entusiasmo da novidade típica dos mais novos, algumas famílias arrependem-se e procuram desfazer a adoção", continua a provedora.

Este Natal, não adopte
Então, como resolver este problema? A solução mais simples, ainda que mais radical, sai da boca da provedora: "O ideal será, na época de Natal, não se realizarem adopções. O ideal é aconselhar o potencial adotante a aproveitar a quadra para uma reflexão mais séria e a esperar por Janeiro para tomar a decisão."

Claro que também é possível combater esse cenário de outras formas. Quais? "Através de um aconselhamento prévio junto dos canis municipais, das associações, de médicos veterinários e em particular de especialistas em comportamento animal." Estes, segundo Marisa Quaresma, "poderão ajudar a tomar a decisão, a escolher o animal com as características mais adequadas ao estilo de vida e disponibilidade de espaço, de tempo e capacidade financeira de cada família, bem como acompanhar a adaptação do animal à família e vice-versa."

Ana Camacho não podia estar mais de acordo. Sabendo que a altura do Natal é delicada, tal como os aniversários, quem quer ter um cão deve saber que ter um cão é mais do que aquilo que pode imaginar. Até já pode ter tido cães e ter tido experiências positivas ou menos boas, mas cada cão é um cão e seja ele de raça ou rafeiro tem a sua própria personalidade."

Para a treinadora, há algumas questões (ver caixa) que um adotante se deve colocar antes de decidir ter um cão. Uma das mais importantes: "Terei noção de que um cão é um compromisso para a vida?" Segundo Ana Camacho, é muito importante perceber que o compromisso é maior do que se espera: "É mais do que dar-lhe comer e levá-lo à rua, deixá-lo dormir em cima do sofá ou garantir que ele tem as vacinas em dia. Ter um cão é assumir a responsabilidade sobre um ser senciente que precisa de atenção, tempo de qualidade, carinho e afecto, exercício físico adequado, estimulação mental e brincadeiras, faça chuva ou faça sol, tenha de se levantar muito cedo para ir trabalhar ou dar banho aos filhos quando chega a casa."

A treinadora lembra que os cães, como nós, têm necessidades específicas ao longo da sua vida, dos primeiros passos como cachorro até à idade geriátrica – "e é para elas que devemos estar preparados, até no sentido de fazermos sacrifícios, inclusive financeiros".

Na saúde e na doença
A maioria das pessoas não pensa na responsabilidade de ter um cão todos os dias, defendem os especialistas. A memória é seletiva e a boa vontade também. "Não pense que por ter um pátio, quintal ou jardim não precisa de passear o seu cão ou que por tê-lo passeado três vezes num dia não tem de despender mais tempo a brincar com ele ou a cansá-lo com alguma outra atividade", diz Ana Camacho.

A treinadora explica porquê: "Mesmo que ele passe o dia a dormir, acredite que ele precisa de ter atividades a que chamamos de estimulação mental para se distrair e gastar energia ao longo do dia e não desenvolver comportamentos inapropriados."

São esses comportamentos inapropriados que, segundo o estudo da Universidade de Wageningen, na Holanda, mais preocupam os donos de cães – e que, de resto, os levam muitas vezes a abandonar os seus animais. Ao contrário do que se poderia esperar, a satisfação dos donos em relação à convivência com os seus cães revelou-se, no estudo, menos determinada pela obediência aos exercícios e às ordens dados pelos donos e mais pela inadequação do seu comportamento em presença do dono e de outras pessoas. "O facto de morderem pessoas e serem percecionados como demasiado ativos fez da maioria dos cães mais passíveis de serem abandonados", refere o estudo.

Estranhamente, de acordo com estes investigadores, grande parte dos donos de cães já esperava comportamentos desadequados dos seus cães. No estudo, 43% dos donos de cães holandeses reportaram pelo menos um problema comportamental do seu cão. O número cresceu quando se tratava de técnicos que treinavam cachorros para passear à trela (68%). Além disso, 48% das pessoas citaram pelo menos um episódio de comportamento agressivo em consultas veterinárias e 43% falaram sobre reações violentas na presença de familiares e de outros cães (40%).
As conclusões deste estudo apontaram diretamente para o mau comportamento como principal motivo para o abandono – o que é curioso se pensarmos que o mesmo estudo diz que, para grande parte dos donos, os desafios perante comportamentos caninos desadequados já eram expectáveis.

Então, que soluções?
"Seria muito útil a implementação de um pequeno curso aos futuros adotantes sobre todas as implicações (legais e logísticas) inerentes à decisão de adotar um animal que poderia ser facilitado por qualquer entidade promotora da adoção e até por autarquias locais", sugere a provedora dos animais.

Percebendo o papel que a triagem deve ter neste processo, Marisa Quaresma reconhece: "A triagem para efetivar uma adoção nem sempre é rigorosa. A pressão para ‘escoar’ os animais de abrigos sobre lotados é grande e faz com que as entidades ‘fechem os olhos’ a muitos aspetos que deviam ser avaliados previamente. Infelizmente, poderá acontecer que esse mesmo animal lhes seja devolvido ou surja abandonado posteriormente o que, com uma triagem eficaz, podia ser evitado."

Nas condições ideais, diz, a adoção de um animal "deveria implicar sempre a assinatura de um contrato de adoção ou termo de responsabilidade e deveria ser precedida de entrevista e averiguação das condições logísticas (como o tempo que o detentor tem disponível para estar com o animal e o espaço que lhe é destinado e que deverá garantir o seu bem-estar e o do restante agregado familiar)." No futuro, será assim. Até lá, e para evitar o abandono, é preciso cruzar perfis e necessidades. Até para que no fim ganhem todos.
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