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Apneia do sono: A doença que levou Lucinda a adormecer três vezes ao volante

Parava de respirar mais de 100 vezes por noite e nem sequer dava conta. Doentes como ela têm três vezes mais probabilidade de ter um acidente de viação. No âmbito do Dia Europeu da Segurança Rodoviária, assinalado no início de maio, conheça este síndrome “silencioso”.
Por Lucília Galha 25 de Maio de 2020 às 15:20

Sentia uma moleza, tentava manter os olhos abertos, mas, sem se aperceber, já os tinha fechado e adormecido. Acontecia-lhe em várias circunstâncias, mas, sobretudo, quando conduzia. Por três vezes ia correndo muito mal. "Houve um dia em que vinha com a minha filha, o meu neto e um vizinho no banco de trás. Estávamos a conversar e não dei por nada. Já estava a atravessar a estrada quando ela me despertou, estávamos à beira de uma ribanceira", conta.

Lucinda Mesquita, 65 anos, sofre de síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS), uma condição caracterizada por paragens respiratórias que se repetem várias vezes ao longo da noite e que originam diminuição dos níveis de oxigénio no sangue. "Isto leva a uma má qualidade do sono, que se pode traduzir em hipersonolência durante o dia", explica Paula Pinto, coordenadora da Unidade do Sono e Ventilação Não Invasiva do serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte. 

Este sintoma representa um dos principais fatores de risco para acidentes de viação – estima-se que a sonolência diurna seja responsável por 10 a 30% de todos os acidentes de viação e também a principal causa de acidentes fatais. Doentes como Lucinda, mas que não estejam diagnosticados e tratados, têm três vezes mais probabilidade de ter um acidente de viação.

Durante 15 anos, a comerciante, que trabalha em feiras, não soube o que tinha e conviveu com estes sintomas. Houve mesmo uma vez que foi contra uma parede de terra, na berma da estrada, quando seguia com o seu pai. "Ele vinha a falar comigo, mas eu já estava sonâmbula", recorda. Felizmente, ninguém se magoou.

No início, ainda antes de fazer 40 anos, começou por sentir um cansaço extremo. Já saía da cama cansada e tinha bastantes dores de cabeça. "Eram muito intensas, parecia que o sangue não me chegava ao cérebro", descreve a sensação. Quando terminava de comer, sentia logo necessidade de deitar a cabeça em cima da mesa.

Como também é hipertensa achou que podia ter a ver com isso. Também chegou a ser seguida pela neurologia e a tomar calmantes, por causa de problema de saúde grave de uma pessoa próxima da família. Pensava-se que pudesse ter a ver com o stress, ou mesmo ser uma depressão. Chegou ao ponto de evitar conduzir, para não se pôr em risco a si, nem aos outros.

Trabalhava em duas feiras e deixou uma por causa desta condição. "O meu marido e filha iam para Espinho e eu, para Guimarães. Deixei de ir para não conduzir sozinha", diz. Até os 13 quilómetros que fazia da sua aldeia, Borba da Montanha, até Fafe, eram um suplício: parava várias vezes para lavar a cara e, mesmo assim, quando entrava no carro sentia-se logo sonolenta.

Parava de respirar mais de 100 vezes por noite
De noite, enquanto dormia, não se apercebia que lhe faltava o ar. Só se lembra de acordar uma vez aflita e ofegante. Mas ressonava bastante. Na verdade, faltava-lhe o ar muitas vezes: tinha cerca de 32 apneias por hora. Parava mesmo de respirar. Foi há precisamente um ano, a 29 de abril de 2019, que fez o exame que lhe trouxe o diagnóstico.

Estava há mais de um ano à espera de ser chamada pelo Hospital de Guimarães, mas, como nunca aconteceu, decidiu fazer o exame numa clínica privada. Pagou 200 euros pela polissonografia – que consiste na monitorização do sono realizada durante uma noite, e que permite avaliar a gravidade da doença.

Os resultados foram inequívocos: o exame registou 191 apneias por noite, 34 das mais graves, e a confirmação do diagnóstico de SAOS grave. A partir de então começou a dormir com um aparelho médico de pressão positiva contínua nas vias aéreas (o CPAP). É basicamente uma máscara que a ajuda a respirar durante a noite. "Se não dormir com ela, voltam logo as dores de cabeça", diz.

Lucinda Mesquita tem alguns fatores de risco que contribuíram para o desenvolvimento da doença, como o excesso de peso. "Cerca de 70% das pessoas que sofrem deste distúrbio respiratório são obesos. O aumento de 6kg/m2 no índice de massa corporal condiciona um risco quatro vezes maior de desenvolver apneia obstrutiva do sono", diz a especialista Paula Pinto.

Essa é a razão pela qual tem aumentado a prevalência desta doença na população – porque se tem verificado também uma maior prevalência de obesidade. A SAOS não tratada pode originar graves complicações cardiovasculares, como hipertensão, enfarte do miocárdio e arritmias. A diabetes também é frequente nestes doentes.

A pneumologista Paula Pinto alerta para os sinais de alerta da doença como o ressonar muito intenso, pausas respiratórias durante a noite, sensação de sono não reparador, alterações de concentração, atenção e memória e hipersonolência durante as atividades diárias.

Para Lucinda Mesquita, estes sintomas são uma recordação que prefere não lembrar. Estava em risco de morrer subitamente durante a noite, sem dar conta. Agora já tem distanciamento para recordar o assunto com leveza. "O meu marido também se queixava, coitado. Agora diz que dorme melhor porque já não me ouve", conta, divertida.   

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