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Sim, os pais também entram em burnout

"Não era este filho que eu queria". Se esta frase já lhe passou pela cabeça, não se recrimine, pode estar esgotado. Síndrome afecta 2% a 12% dos pais.
Por Lucília Galha 11 de Outubro de 2019 às 12:29
Dia do Pai. gestos, amor, afecto, Mário Cordeiro, atividades, especial, filho, pediatra, crianças, mãe
Dia do Pai. gestos, amor, afecto, Mário Cordeiro, atividades, especial, filho, pediatra, crianças, mãe FOTO: Getty Images
O seu dia era consumido por aquele pensamento: "Como é que posso fazer diferente?" Mas, a certa altura, já não conseguia arranjar alternativas e passava o tempo inteiro a matutar no que se tinha passado: "Ontem aconteceu, anteontem voltou a acontecer e hoje de manhã foi outra vez um inferno, e eu que tinha dito que as coisas iam correr bem e já gritei e me enervei outra vez." Emagreceu muito, mas só se apercebeu quando as amigas repararam e lhe disseram. Sentia-se sem energia e a fazer tudo errado – mais ainda sendo aquele o seu "trabalho" a tempo inteiro. A angústia era tal, e tão constante, que tinha o estômago embrulhado.

A certa altura, começou a perder o controlo. Da pior maneira, e por várias vezes. Não era só o bater, mas a forma como o fazia: ficava fora de si e nem se apercebia da violência do castigo. "Na fase pior cheguei a pensar: ‘Não era este filho, eu não nasci para ser mãe dele. Eu não sei ser mãe dele.’ Sentia que ele não estava a ter a mãe que precisava e que eu não tinha o filho que achava que devia ter", admite, com algum pudor.

Maria (nome fictício), 41 anos, mãe de três filhos, dois rapazes e uma rapariga (15, 13 e 9 anos, respectivamente), sofria de burnout. A conhecida síndrome que é caracterizada por um estado de exaustão física, emocional e mental, e que decorre de um stress prolongado no trabalho, pode afinal também acontecer num outro contexto. Nomeadamente, em casa e no exercício do papel parental. "Isto é burnout, é a tal exaustão emocional por excesso de trabalho, porque uma mãe trabalha 24 horas por dia, está sempre a pensar e a antecipar o que tem de ser feito", explica a psicóloga de adolescentes Bárbara Ramos Dias. O estado de Maria devia-se sobretudo à difícil relação com o seu filho mais velho, Gonçalo (nome também fictício), 15 anos. "Ele nunca foi uma criança fácil, sozinho desnorteia uma casa inteira porque é teimoso e dificulta tudo. Não fazia nada a bem: os trabalhos de casa eram um problema, tomar banho era um problema… Era capaz de ir para a casa de banho e ficar três horas para tirar uma meia", conta.

Superpais querem superfilhos
Um estudo feito recentemente pelo Psychological Sciences Research Institute da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, concluiu que o chamado burnout parental existe e que, em famílias com pelo menos um filho a viver em casa, a proporção de pais esgotados situa-se entre os 2% e os 12%. Com uma agravante: não há como fugir à paternidade. "Não se trata de um emprego do qual podemos desistir ou trocar", alerta a terapeuta familiar Catarina Mexia. A síndrome não é exclusiva das mães e pode estar relacionada com má organização ou falta de planeamento, condições financeiras, doenças crónicas ou problemas de comportamento dos filhos, insatisfação conjugal e até com o perfeccionismo parental. Os alegados superpais que querem criar superfilhos. "Além de os pais sentirem que têm de ser perfeitos, também acham que os filhos têm de ser perfeitos e isso leva ao esgotamento", diz Bárbara Ramos Dias.

Com a tarefa da educação dos filhos quase a seu exclusivo – o marido está apenas presente de manhã e aos fins-de-semana –, Maria foi sentindo cada vez mais dificuldades. Primeiro, começou a ser chamada com frequência à escola (o comportamento desafiador de Gonçalo também se replicava ali) e depois a entrar em confronto direto com o filho. "Ele sempre teve um grande poder de argumentação e eu dava-lhe azo a isso, culpa minha também", admite. A constante guerra com o filho mais velho tirava-lhe tempo e paciência para os outros dois. "Tratava das suas necessidades básicas, ninguém passou fome, mas não tinha disponibilidade para brincar com eles e a história que lhes lia antes de dormirem já era a correr e com um humor de cão", recorda.

O desligamento emocional
Além dos maus-tratos, mais do que físicos até verbais – e que podem ter consequências na auto-estima e na confiança das crianças, alertam os especialistas –, outra das consequências deste tipo de burnout é o chamado desligamento emocional. "Os pais continuam a ser funcionais, mas tornam-se menos envolvidos, recetivos e sensíveis emocionalmente em relação aos seus filhos", salienta o estudo publicado em Fevereiro no jornal científico Frontiers of Psychology.

Maria protelou a decisão de procurar ajuda o mais que pôde por achar que conseguiria lidar com a situação. Mas isso não aconteceu. A certa altura também deixou de falar com o marido sobre o assunto, porque se sentia incompreendida e julgada. Só há dois anos procurou ajuda psicológica para o filho, mas também para ela. Ganhou estratégias para aprender a lidar com ele e também aprendeu a ter momentos só para si, que funcionam como escape. "Fui para o ginásio, o que foi terapêutico para mim, e no ano passado também fiz voluntariado com o Gonçalo. Acho que fazermos coisas boas juntos também ajudou."
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