Barra Cofina

A portuguesa que lançou fatos de banho para mulheres mastectomizadas

Depois de ter sido submetida a uma mastectomia aos 36 anos, Rute Vieira fundou a MIHI, a primeira marca portuguesa a fazer fatos de banho para mulheres na mesma situação – e não só.
Por Vitória Amaral 18 de Dezembro de 2019 às 07:00

Uma mastectomia representa uma mudança física significativa, uma assimetria que se torna impossível de disfarçar sem a ajuda de próteses. Embora a reconstrução seja muito falada, na realidade continuam a haver muitos casos em que esta só é possível passados dois anos, se o chega a ser. Para Rute Vieira, tal como para muitas outras mulheres, a cirurgia marcou o início de um período de completa adaptação diária, inclusive no que toca ao uso de próteses e soutiens ou fatos de banho que tenham espaços para as mesmas. A designer lembra que encontrar algo de que gostasse e não parecesse demasiado ortopédico foi "tarefa inglória", com opções desatualizadas ou que simplesmente não refletiam o seu estilo pessoal, como é o caso da maioria das mulheres submetidas a mastectomias, o que ainda afeta mais a autoestima de quem já teve de passar pelos efeitos da doença.

Rute fundou a MIHI ("eu" em latim) e aliou-se a Ana Bee (Ana Paula Lopes), também afetada pelo cancro da mama, com quem divide a direção criativa da marca. Ambas sentiram na pele a importância de mostrar a quem enfrenta o problema que outras mulheres reais também passaram pelo mesmo, num tom de apoio. Apesar de garantir que se trata de uma questão de hábito, a designer esclarece que incluir as próteses torna-se custoso: "O soutien ou fato de banho tem de estar construído de forma a acondicionar a prótese de forma perfeita, oferecendo simetria de volume, de peso e conforto, para não criar incómodo ou insegurança à utilizadora". Apesar da evolução de materiais mais leves e confortáveis, com a transpiração chega um novo desafio. "Chegamos a ficar assadas, porque não deixar de ser uma coisa sintética normalmente de silicone, que está ali praticamente em contacto direto com a pele, sem a deixar respirar. É como ter um casaco impermeável vestido no verão".

Uma vez que cada vez mais mulheres jovens são confrontadas com a doença e após a cirurgia sentem este desconforto, as propostas da marca são bikinis, fatos de banho e até triquínis personalizáveis para cada cliente, para que esta possa misturar cortes modernos, cores e até padrões conforme o seu gosto pessoal. "Cada peça e´ desenhada para cobrir estrategicamente cicatrizes cirúrgicas e ainda assim manter uma estética feminina e delicada. As bolsas internas bilaterais, permitem colocar as próteses mamárias removíveis, bem como dar o suporte e cobertura adequada a uma mama reconstruída." As peças são fabricadas em Portugal usando a malha reciclada ECONYL, duas vezes mais resistente aos cremes e cloro, além de proteger contra os raios UV.

A MIHI pretende ser, além de uma marca de roupa, uma comunidade de entreajuda. "Queremos que assuntos como o cancro da mama, mastectomia e reconstrução sejam cada vez menos tabu, ou de que se falam praticamente apenas uma vez ao ano (…) Desejamos contribuir de forma positiva para o equilíbrio, serenidade e elevação da autoestima de cada mulher. De todas as mulheres, sem exceções", acrescenta Rute.

Mais do que lançar estas peças no mercado, a marca pretende melhorar-se constantemente através dos testemunhos das clientes e amigas. "É nossa vontade ter uma reunião trimestral, aberta, uma mesa redonda, que será organizada pela Ana Bee com outras mulheres que passaram por um cancro da mama, para se falar do produto MIHI, ouvir em primeira mão os seus testemunhos como utilizadoras e as suas expectativas e necessidades para melhorar o que temos". Em 2020, Rute Vieira também planeia alargar a oferta da MIHI em termos de modelos, tamanhos e apresentar uma coleção de fitness e hidroginástica, como um meio de incentivar hábitos saudáveis, e em 2021 os primeiros modelos de roupa interior. Assumindo-se como uma "Breast Cancer Friendly Brand", a marca usa modelos mastectomizadas e mulheres que nunca sofreram de cancro da mama. Oferece assim opções a todas, mesmo às mulheres que não requeiram prótese, enquanto reforça o alerta do rastreio. "A prevenção e deteção precoce continua a ser a nossa maior arma nesta luta, que continua ser ainda nos dias de hoje, demasiadas vezes, inglória."

Saiba mais sobre esta doença no guia prático Médico em Casa, todos os dias nas bancas com o Correio da Manhã.

Sintomas
  • Aparecimento de um nódulo ou caroço na zona dos seios ou nas axilas
  • Retração ou posição anormal do mamilo
  • Aparência escamosa, vermelha ou inchada da pele da mama ou mamilo
  • Secreção de líquido pelo mamilo 
  • Dor na mama ou na axila ou mesmo à volta da clavícula

Prevenção
  • Qualquer alteração da consistência, do toque e da aparência deve ser reportada e analisada. 
  • Realizar mamografias de rastreio de 2 em 2 anos, a partir dos 50 anos, ou antes, se os fatores de risco o justificarem.
  • Fazer exercício moderado.
  • Gravidez de termo (as gravidezes que não são de termo parecem contribuir para o aumento da incidência de cancro da mama).
  • A identificação de certas mutações genéticas familiares (nomeadamente o gene BRCA) pode levar à consideração da mastectomia (remoção das mamas) preventiva.
  • Alguns fármacos podem ser considerados pelo médico responsável se houver risco elevado. 

Algumas causas
  • Condições que aumentem a exposição a estrogénio, como menarca (primeira menstruação) precoce, menopausa tardia, nenhuma gravidez ou primeira gravidez tardia (essencialmente, quanto maior for o número de ciclos menstruais, maior será o risco).
  • Radiação terapêutica ou imagiológica, especialmente durante a adolescência.
  • Consumo excessivo de álcool.
  • Tabagismo.
  • Dieta rica em gorduras.
  • Fatores genéticos. 

Como se trata
Uma equipa multidisciplinar terá em conta o estadiamento da doença, o prognóstico e qualidade de vida do doente e encarregar-se-á da tomada de decisão. 
Habitualmente, o tratamento do cancro da mama começa por uma primeira abordagem cirúrgica, tanto à mama afetada como à axila, inclui terapêutica antiestrogénica e radioterapia. Se for necessário, recorre-se também a quimioterapia. 
Relacionadas
Notícias Recomendadas
Família

"A traição pode mudar um casamento para melhor"

Esqueça a velha história de que só os mal-casados são infiéis. Há gente feliz que trai para escapar à monotonia ou devido a uma crise de identidade. Por vezes, até une casais. No seu livro, a terapeuta Esther Perel explica tudo.

Bem Estar e Nutrição

Há quanto tempo não troca a sua almofada?

Não lavar a almofada de cama que usa para dormir está na lista dos piores erros de hábitos de beleza que se cometem sem querer. Eis o que descobrimos.