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Mini Bypass Gástrico: a terceira intervenção cirúrgica mais realizada a nível mundial no tratamento da obesidade

António Albuquerque, cirurgião especialista em obesidade, explica os pontos essenciais desta doença crónica.
Por Susana Pereira Oliveira 4 de Março de 2020 às 18:45
António Albuquerque, cirurgião especialista em obesidade
António Albuquerque, cirurgião especialista em obesidade FOTO: Direitos Reservados

Conhecida como uma doença crónica, a obesidade é igualmente um problema de saúde pública. A mesma pode ser definida como uma patologia em que o excesso de gordura corporal acumulada pode afetar a saúde.

Com origem em diversos fatores, a obesidade requer esforços continuados para que a mesma possa ser controlada. Constitui uma ameaça grave para a saúde e ainda um importante fator de risco para o desenvolvimento e agravamento de outras doenças.

Ao Correio da Manhã, António Albuquerque, cirurgião da Unidade de Tratamento Cirúrgico de Obesidade do Centro Hospital de Lisboa Central – Hospital de Curry Cabral, explicou os pontos essenciais desta condição médica, considerada a pandemia do século XXI, no dia em que se comemora o Dia Mundial da Obesidade (04 de março).

O também coordenador do Centro de Tratamento Cirúrgico da Obesidade do Hospital de S. Louis, em Lisboa, é considerado pioneiro da terceira técnica cirúrgica mais realizada a nível mundial no campo da obesidade, o Mini Bypass Gástrico. Em Portugal, já realizou mais de 20 intervenções por via robótica e mais de mil por via convencional.

O que é a obesidade
A obesidade define-se, do ponto de vista geral, por uma acumulação excessiva de gordura no nosso corpo. A gordura tem, por sua vez, o seu próprio peso e isso vai traduzir-se num aumento do peso corporal.

António Albuquerque explica que "as pessoas têm o chamado peso ideal quando o índice de massa corporal vai até aos 25 kg por metro quadrado". Para calcularmos esse mesmo índice basta recorrer a uma equação matemática: peso/(altura)2 (peso a dividir pela altura ao quadrado).

Quando os valores se encontram entre 25 e 30 kg por metro quadrado, "as pessoas já têm excesso de peso", avança o médico. Precisa-se que existe obesidade quando o valor fica a acima dos 30 kg por metro quadrado.

Classes de obesidade
A obesidade pode dividir-se em três grupos principais.

"Temos obesidade classe 1 quando a massa corporal está situada entre os 30 e os 35 kg por metro quadrado; temos a obesidade classe dois quando o valor está entre 35 kg e 40 kg por metro quadrado; acima de 40 kg por metro quadrado temos a chamada obesidade classe três ou obesidade mórbida", a mais grave, como explica o especialista.

Valores superiores a estes são sinónimo de um problema maior. Quando as pessoas têm acima de 50 kg por metro quadrado de índice de massa corporal, estamos perante uma "super obesidade". Acima dos 60, estamos perante um caso, embora "muito extremo", de "mega obesidade".

Riscos para a saúde
António Albuquerque explica "que quanto maior é o grau de obesidade, maior é a probabilidade de a pessoa ter um conjunto de doenças".

Associadas à obesidade podem surgir, entre outras patologias, a diabetes tipo II, hipertensão arterial, colesterol elevado, apneia do sono ou problemas articulares. Há risco ainda de outras situações como AVC ou enfarte do miocárdio.

O risco de desenvolver este tipo de doenças "é maior em quem tem obesidade, do que em quem tem peso tipo normal", avança o médico realçando que quem sofre de obesidade também ainda risco elevado de ter "um conjunto de cancros que são mais frequentes em quem tem obesidade do que em quem não tem". Entre os possíveis estão o cancro do intestino, do rim, da mama e da próstata.

Taxa de obesidade em Portugal e no Mundo
Segundo um estudo divulgado pelo Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge, 62% dos portugueses são obesos ou pré obesos. Estes são números que tendem a aumentar de ano para ano e que tornam urgente o desenvolvimento de novas soluções que possam tratar cada vez mais pessoas. Em 2019, Portugal ocupava o quarto lugar dos países da OCDE com população mais obesa.

De acordo com um relatório Health at a Glance da OCDE, pior do que Portugal e a Finlândia só mesmo o Chile, com 74,2%, México, com 72,5%, e EUA, com 71%. Já nos países com melhores percentagens do que a média da OCDE destacam-se o Japão, 25,9 %, seguido da Coreia do Sul, 33,7 %, e da Suíça, com 41,8%.

Como prevenir
A obesidade é considerada uma doença crónica à qual se associam um conjunto de outras doenças. "Doenças essas que podem retiram, em média, cerca de 10 anos de vida às pessoas", revela o cirurgião.

Relativamente à prevenção desta condição médica, António Albuquerque explica que essa "é uma aposta que é necessária no combate à obesidade, mas muitas vezes não depende só da própria pessoa". Ou seja, continua, "tem de existir uma prevenção mais global, que passa por um conjunto de medidas políticas e pela alteração de algumas situações na sociedade". Em causa estão pontos que de deviam "modificar", desde logo "a oferta alimentar, que hoje apresenta uma quantidade energética muito superior áquilo que são as necessidades do organismo".

António Albuquerque explica ainda que, atualmente, as pessoas tendem a aliar aquilo que consomem a um "estilo de vida cada vez mais sedentário", o que também não ajuda no combate à obesidade.

É importante que se desenvolvam atividades, que a atividade física seja priorizada e que se tenha preocupação com os estilos e hábitos alimentares.

Tratamentos possíveis
"O tratamento da obesidade é variável. E as medidas de intervenção do ponto de vista terapêutico são sempre diferentes", avança António Albuquerque, justificando que não pode propriamente "propor uma cirurgia a uma pessoa que tenha uma obesidade ligeira ou propor uma dieta e atividade física a uma pessoa com obesidade mórbida".

Na opinião do doutor, é preciso olhar para o tratamento da obesidade de uma "forma integrada", em todas as formas de tratamento têm o seu lugar em simultâneo ou de uma forma sequencial.

Intervir na obesidade pode ser feito através da recomendação de alterações dietéticas; é possível também realizar uma intervenção farmacológica, através de um conjunto de medicamentos - existem três no mercado nacional, não comparticipadas pelo Estado e "ainda caros"; há ainda a possibilidade de se intervir com um conjunto de terapêuticas endoscópicas,  que podem ser feitas através de uma endoscopia – tratamento limitado e igualmente não comparticipados; por fim, surgem as intervenções cirúrgicas, apropriadas para situações mais graves, como casos de obesidade classe 3 ou mórbida.

Nem todos os tratamentos são acessíveis a todas as pessoas. Como explica António Albuquerque, "o acesso a uma cirurgia de obesidade no SNS tem tempos de espera muito para lá daquilo que é recomendado, quer no que diz respeito ao acesso das primeiras consultas, quer no que diz respeito à cirurgia propriamente dita. Depois existe o facto de que, mesmo na atividade privada fora do SNS, essas intervenções cirúrgicas são dispendiosas e "não são comparticipadas pelas companhias de seguros, que entendem que a cirurgia de obesidade é uma cirurgia estética".

Mini Bypass Gástrico
A cirurgia é uma das únicas soluções para doentes com obesidade mórbida ou de classe 3 e existem vários métodos cirúrgicos, mais ou menos invasivos.  Um dos mais recentes tipos de cirurgia bariátrica, conhecida como o Mini Bypass Gástrico, já é realizada em Portugal e neste momento ocupa o 3º lugar como técnica cirúrgica mais realizada a nível mundial para o tratamento de obesidade. Esta cirurgia tem vindo a ganhar cada vez adeptos junto da comunidade de profissionais de saúde e foi desenvolvida em 1997. A principal diferença relativamente a outras soluções existentes é a de ter apenas uma ligação entre o estômago e o intestino, ao contrário do bypass convencional que por ser em forma de Y, acaba por ter duas ligações (uma para o intestino e outra para uma parte do intestino delgado). 

 Esta cirurgia apresenta ainda algumas vantagens: é uma técnica mais simples que envolve menos procedimentos; é rápida - duração inferior a uma hora, apresenta menos probabilidade de complicações após a cirurgia, sendo por isso mais segura, proporciona resultados melhores, com resultados que indicam uma maior perda de peso; e melhora a diabetes e outras doenças associadas à obesidade.

Casos de sucesso pós-cirurgia
"A probabilidade de uma pessoa ganhar peso depois de fazer uma cirurgia pode acontecer em qualquer intervenção", explica António Albuquerque. No entanto, "existe menor probabilidade nas cirurgias que acabam por ser mais eficazes, como é o caso do Mini Bypass Gástrico", também conhecido como Bypass de anastomose única. 

Antigamente era realizada, com bastante frequência, uma intervenção em que era colocada uma banda gástrica nos pacientes, no entanto, anos mais tarde o peso voltava a ser recuperado. Outra também conhecida é o ‘sleeve’, em que é feita uma redução do tamanho do estômago através do corte do mesmo. Nestes casos não são feitas ligações ao intestino. Acontece que neste tipo de intervenções, existe também um grande número de intervencionados que voltam a recuperar o peso.

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