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Sintomas de Leucemia Mieloide Aguda podem confundir-se com os de coronavírus

Albertina Nunes, hematologista do IPO de Lisboa, explica quais os sintomas e tratamentos.
Por Susana Pereira Oliveira 23 de Abril de 2020 às 10:40
Doente com leucemia
Doente com leucemia FOTO: Getty Images

O Dia Mundial de Sensibilização para a Leucemia Mieloide Aguda (LMA), um cancro raro e agressivo do sangue e da medula óssea que interfere no desenvolvimento de células sanguíneas saudáveis, assinalou-se esta terça-feira, dia 21. Num período em que se vive uma pandemia a nível mundial, a Associação Portuguesa Contra a Leucemia alerta para a importância de, mesmo durante estes tempos, diagnosticar e tratar o mais cedo possível esta patologia, de forma a que os doentes tenham maior probabilidade de sobreviver.

Considerada a mais comum das leucemias agudas, sendo responsável por cerca de 25% dos casos, a LMA apresenta sintomas poucos específicos, no entanto alguns deles podem ser confundidos com os da Covid-19. "Os sintomas que levam ao diagnóstico da leucemia são frequentemente relacionados com uma infeção ou com anemia pelo que não são específicos da neoplasia e se confundem com outras patologias", explicou ao CM Albertina Nunes. Quando a avaliação médica é feita de forma urgente, é possível a exclusão do diagnóstico de Covid-19 e o início da investigação que levará ao diagnóstico da leucemia.

Ao CM, a hematologista do IPO de Lisboa explica de que se trata este cancro que é mais frequente nos adultos, quais os sintomas e tratamentos, e deixou ainda conselhos aos doentes oncológicos que possam testar positivo para o novo coronavírus.

O que é a Leucemia e quais os seus subtipos

Há muitos tipos de leucemia e os mesmos podem dividir-se entre agudas e crónicas. "As leucemias agudas classificam-se primariamente em Leucemia Aguda Linfoide e Leucemia Aguda Mieloide", começa por explicar Albertina Nunes". Estas leucemias "resultam da acumulação de células malignas precursoras das células do sangue, a que se dá o nome de blastos", uma acumulação que acontece na medula óssea e no sangue periférico, podendo atingir outros órgãos como o baço, o fígado e a pele.

Falando especificamente sobre a LMA, esta "é uma entidade heterogénea que compreende vários subtipos com prognóstico diverso".

A leucemia mieloide aguda tem cura?

A cura na Leucemia Mieloide Aguda "está dependente de características da doença, nomeadamente das alterações genéticas das células leucémicas, e dependente de características do doente". Quando o doente sofre de outras patologias graves, o tratamento com intenção curativa é dificultado.

Sintomas, diagnóstico e avaliação do estadiamento

"Os sintomas das leucemias agudas são pouco específicos e relacionados com a diminuição das células normais do sangue", refere a hematologista dando conta de que "o doente pode ter cansaço pela anemia, hemorragias pela diminuição do número de plaquetas ou infeções pela diminuição dos neutrófilos". Os doentes podem também sentir dores ósseas ou febre relacionados com a acumulação das células neoplásicas na medula óssea.

"O diagnóstico é colocado quando o médico requisita análises ao sangue e, no hemograma, há alterações, podendo ser observados blastos, que são característicos da doença". No entanto, avança Albertina Nunes, "na análise podem ser referidos blastos e não se tratar de leucemia aguda".

Para se ter um bom diagnóstico "é necessário fazer mais estudos, nomeadamente, uma avaliação da medula óssea, que é onde têm origem as células do sangue. Quando se faz a avaliação medular fazem-se estudos complexos como a avaliação genética das células leucémicas que permitem confirmar o diagnóstico, permitem escolher o plano terapêutico e estabelecer o prognóstico".

Considerada "uma doença sistémica", o seu tratamento não está dependente do estadiamento. "O tratamento é individualizado de acordo com dados clínicos e a caracterização dos blastos".

Tratamentos possíveis

O tratamento da LMA evoluiu ao longo dos anos, alicerçado na compreensão da doença através de investigação laboratorial e clínica.

"Um subtipo, a Leucemia Aguda Promielocítica, tem um tratamento próprio, muito eficaz, utilizando um agente capaz de induzir a maturação das células leucémicas. Os doentes com outros subtipos são avaliados, na altura do diagnóstico, para se decidir se fará tratamento mais agressivo que permita ficar em remissão", explica a médica referindo que "ficar em remissão significa reduzir muito as células leucémicas, o que permite normalizar a análise do sangue".

O tratamento é consolidado com mais quimioterapia quando surge a remissão e, se necessário, com transplantação de medula óssea. "Esta terapêutica é complexa, mas tem como objetivo atingir a cura. Quando o doente é mais frágil o médico opta por tratamentos menos agressivos, realizados em ambulatório, que aumentam o tempo de vida com qualidade", continua.

Rotinas de um doente com LMA

O doente a quem é diagnosticada LMA e faz terapêutica de indução fica internado durante um período de cerca de quatro semanas. "A terapêutica menos agressiva é parcialmente realizada em ambulatório", diz a especialista referindo que "o doente deve evitar contacto com pessoas que estejam com infeções ativas, deve ter uma higiene pessoal cuidada e alimentação saudável".

Medidas a adotar em tempos de pandemia

Albertina Nunes avança que "devem ser seguidas as indicações do Ministério da Saúde e da DGS". "O doente com diagnóstico já conhecido de leucemia aguda tem uma equipa de Hematologia Clínica que dará as indicações precisas, de acordo com a fase da doença em que se encontra", continua.

"De uma forma geral, enquanto a doença está ativa o défice imunitário é significativo e o doente deve estar resguardado, e, quando tem qualquer queixa, deve comunicar à equipa responsável pelo seu tratamento", diz a hematologista revelando que "antes do início de cada ciclo de quimioterapia é feito teste de despiste da infeção e, sempre que o doente necessitar de internamento o teste será repetido".

O que fazer em caso de teste positivo ao coronavírus

"Se se identificar um teste positivo num doente com LMA que esteja no instituto este é referido a uma área específica onde fica em isolamento sob os cuidados de uma equipa só dedicada a essa patologia, aí são feitos os contactos para transferência para um serviço noutro hospital dedicado ao tratamento Covid-19", explica a médica. A equipa da hematologia vai depois manter um contacto regular com o serviço responsável pelo tratamento da infeção, tendo sempre em conta que cada situação clínica deve ser avaliada de forma individualizada.

Medidas adotadas para acompanhamento dos doentes

No IPO de Lisboa foram adotadas diversas medidas de proteção dos doentes. Albertina Nunes enumera que se criaram "circuitos independentes para doentes em avaliação de possível infeção e antes dos internamentos e antes dos tratamentos de quimioterapia são realizados testes de despiste à Covid-19". A consulta não presencial foi também expandida no caso de doentes em seguimento.

Desafios dos profissionais de saúde que acompanham doentes oncológicos nesta fase da pandemia

"Os desafios são múltiplos", afirma Albertina Nunes. Alguns deles passam por  "acompanhar a literatura médica que surge diariamente no contexto de um novo vírus, a escassez de dados sobre o comportamento da infeção em doentes com fragilidade imunológica, a coordenação das equipas de forma a manter a segurança dos doentes e dos profissionais, o esclarecimento dos nossos doentes que, mesmo em ambulatório, contactam com inúmeras duvidas, o não atrasar tratamentos que ponham em risco a vida do doente, como vamos trabalhar nos próximos meses".

Dados internacionais referem que a incidência da MLA é de cerca de 5 por cada 100 000 habitantes, com aumento da incidência em doentes com idade avançada. A idade mediana de diagnóstico deste cancro é cerca de 67 anos.

"À medida que aumenta a esperança de vida maior será a incidência da leucemia mieloide aguda", refere ainda Albertina Nunes acrescentando que "nos últimos anos surgiram novos medicamentos para a LMA que podem vir a melhorar o prognóstico desta doença. Alguns, já aprovados, fazem parte das opções terapêuticas no presente, outros estão em investigação e, com a participação em ensaios clínicos, espera-se que demonstrem relevância clínica para mais doentes poderem viver mais tempo"

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