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Correio da Manhã

Cultura
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Carlos do Carmo, um filho do fado que dele fez vida

O Mundo foi a casa de Carlos do Carmo e os cinco continentes o palco de uma das vozes que marcou gerações.
Iúri Martins(iurimartins@cmjornal.pt) 1 de Janeiro de 2021 às 11:25
Carlos do Carmo, um filho do fado que dele fez vida
Carlos do Carmo, um filho do fado que dele fez vida FOTO: Getty Images
Nasceu no meio do fado e do fado fez vida um dos nomes maiores da música portuguesa, Carlos do Carmo. Filho de Alfredo de Almeida, dono da casa de fados 'O Faia', e da fadista Lucília do Carmo. Cedo partiu para longe de Portugal após uma infância passada no bairro da Bica, em Lisboa, onde nasceu. Estudou no Liceu Passos Manuel antes de partir, aos 15 anos, para a Suíça. Foi na 'Helvécia' que se fez homem e tirou um curso superior de hotelaria e estudou várias línguas estrangeiras.

A trágica morte do seu pai, em 1962, levou Carlos do Carmo a assumir a casa de fados ' O Faia'. Ali deu os primeiros passos como artista e  como uma das vozes maiores do fado, tendo abraçado em definitivo a carreira de artista dois anos depois da morte de Alfredo de Almeida. A gravação de 'Loucura' ao lado de Mário Simões foi o início de uma carreira que viria a ser de sucesso. Em 1967 é distinguido pela primeira vez como Melhor Intérprete. Em 1970 é lhe atribuído o prémio Pozal Domingues de Melhor Disco do Ano. Foi também em 1964 - dois anos após a morte do pai - que Carlos do Carmo casou com Maria Judite de Sousa Leal, com quem teve três filhos.

A década de '70 traz as primeiras digressões internacionais para Carlos do Carmo. Angola, Estados Unidos e Canadá são alguns dos países que recebem o artista português. Em 1973, viaja para o Brasil onde se apresenta ao lado de Elis Regina, no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. "Uma Flor de Verde Pinho" - poema de Manuel Alegre com música de José Niza - a composição que Carlos do Carmo leva ao Festival da Eurovisão, na Holanda, em 1976. 

A subida a grandes palcos pela Europa e Mundo levam Carlos do Carmo a ser distinguido na década de '80 com o prémio 'Fadista' e o Título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro, em 1987.

Carlos do Carmo construía uma carreira ímpar com o passar dos anos e sem nunca esmorecer. Mas, no início da década de 1990, o fadista sofre um grave acidente durante um espetáculo em Bordéus, França, obrigando-o a parar de atuar durante largos meses.

Em estúdio, os êxitos sucedem-se. Na discografia do fadista estão clássicos intemporais como 'Lisboa, Menina e Moça', 'Os Putos' ou 'Por Morrer Uma Andorinha'.


Em 1997, Carlos do Carmo é condecorado com o Grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, no ano seguinte recebe o Globo de Ouro "Excelência e Mérito".

O Mundo foi a casa de Carlos do Carmo, os cinco continentes o palco de uma das vozes que marcou gerações. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República em 2016, fê-lo Grande-Oficial da Ordem de Mérito, numa cerimónia realizada a 3 de dezembro desse ano. O músico e artista somou ainda ao seu vasto leque de prémios, o Goya, que recebeu em Espanha, e o Grammy Latino, tornando-se no segundo artista português a ganhar um Grammy.

Em 2019, Carlos do Carmo lança 'Oitenta', uma compilação que reúne os grandes êxitos da sua carreira, sendo este o último registo discográfico do cantor.

Carlos do Carmo morreu esta sexta-feira, dia 1 de janeiro de 2021, no hospital de Santa Maria, em Lisboa, vítima de um aneurisma.


"Ninguém se agarra à quimera
Do que o destino encaminha
Pois por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera"
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