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Correio da Manhã

Cultura
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“De todas as paixões que tive na vida, a música foi a primeira”

A celebrar 50 anos de carreira, o músico, autor e compositor lança ‘A Memória do amor’, um disco que é uma história de vida .
Miguel Azevedo 28 de Fevereiro de 2018 às 20:39
D.R.
D.R.
Neste disco canta que ‘Tudo pertence ao tempo e o tempo passa’. Como é a sua relação com o tempo e em particular com estes 50 anos?
[Risos] Por um lado, parece-me que o tempo voou. Quando me olho ao espelho não sinto o peso destes 50 anos. Mas por outro lado, e olhando para todas as etapas da minha vida, também tenho a noção que não podia ter feito tudo o que fiz em dois dias. O importante é que não me sinto velho.

Este disco está recheado de memórias. É uma pessoa saudosista?
Eu não sou saudosista, o que eu tenho é as memórias muito presentes [risos]. Nós somos o resultado daquilo que vivemos.
Sabendo que ‘o tempo que passou não volta mais’, se pudesses regressar a um único período da sua vida qual é que escolheria?
[Risos] Eh pá, se isso fosse possível escolheria sem sombra de dúvida o período dos meus 15 anos, que foi quando tudo isto começou. Gosto muito dos tempos em que vivo mas não hesitava em voltar atrás.

Como era esse miúdo de 15 anos?
Na sua essência não era muito diferente daquilo que sou hoje. O que tinha era aquela alegria de viver própria de quem não tem preocupações [risos]. Recordo-me que tinha uma vontade louca de ser músico, algo que sempre quis desde criança.

E tornou-se num dos maiores em Portugal!
Eu nunca sonhei com isso. Nunca pensei, por exemplo, em ter 500 canções. Eu queria era uma viola na mão e um buraco qualquer para tocar. Se me perguntarem se tenho saudades desse tempo, claro que tenho.

E porquê a música?
Porque havia muita música lá por casa. O meu pai tocava viola muito bem, embora nunca o tivesse feito de forma profissional. Ele era diretor financeiro de uma companhia de seguros. Aprendi a ver o meu pai e o meu tio a tocarem e a cantarem nos serões lá em casa. De todas as paixões que tive na vida (e foram algumas), a música foi a primeira delas. Acho que comecei a dar especial atenção à música aí por volta dos meus três anos.

E o que é que uma criança de três anos ouvia no Portugal dos anos 50?
Para além das músicas que o meu pai tocava, ouvia muito as canções do teatro de revista e do cinema português. Eram os grandes êxitos da altura. Havia também as músicas de cariz étnico e folclore.

Nessa altura ainda não vinha música de fora!
Não. O Elvis veio mais tarde, mas passou-me completamente ao lado. Não liguei muito. Tinha sete ou oito anos e queria era jogar à bola. Brincava na rua até aparecer a polícia. Estamos a falar de Paranhos, no Porto, num sítio onde passava um carro de quinze em quinze minutos. Mais tarde vieram os Beatles e, aí sim, fui completamente apanhado. Lembro-me de estar de guitarra a tentar tirar os acordes.

E quando é que descobriu que podia ser o autor das suas próprias músicas?
Foi por acaso. Estava nos Pop Five e, antes de lançarmos o primeiro EP, o manager do grupo disse-nos que o que era engraçado era termos temas originais. Eu fui para casa a pensar nisso e apareci depois com uma canção que hoje ainda hoje acho que não é nada má. Como não podia deixar de ser, foi uma canção em inglês muito influenciada pelos Beatles.

Descobriu primeiro a escrita e a composição e só depois a voz!
Sim. Nos Pop Five não era eu que cantava. O vocalista era o Paulo Godinho, o irmão do Sérgio Godinho, embora eu e o David Ferreira também cantássemos. Na altura, o canto não era uma coisa que me interessasse muito. Eu queria era o instrumento, o baixo. E ainda bem que fiz essa opção porque é um instrumento fantástico.

Diz que nunca teve grande vocação para ser cantor. Isso quer dizer que nunca gostou da sua voz?
Eu gosto da minha voz porque é característica. É uma voz única que as pessoas reconhecem. Claro que não me posso comparar com quem canta realmente bem, mas o Bob Dylan também não é um grande cantor. Eu aprendi foi a usar a minha voz e a defender- -me, dando mais peso às palavras. Acho que quem não tem uma grande voz acaba por apostar na interpretação e foi isso que eu fiz.

Chama a este disco ‘A Memória do Amor’. De entre tudo o que fez na música, nunca se desencantou com este meio?
Não. Nunca me desencantei e nunca me desapaixonei. Claro que houve momentos que me deram mais prazer que outros. Houve alturas em que fui obrigado a cantar o que não queria, como aconteceu no Festival da Canção.

O que mais se orgulha de ter feito enquanto músico?
Orgulho-me de ter escrito algumas canções que atravessaram décadas, que resistem há 30, 40 ou mais anos e que as novas gerações ainda cantam. Acho que a longevidade é a maior prova de qualidade.

O Tozé Brito também passou por várias editoras, nomeadamente pela Polygram e BMG, abraçando o outro lado da indústria, o lado do negócio. Como é que alguém que é músico lidou com o lugar de editor?
Lidei com bom senso. Acho que foi uma mais-valia ser músico. Tinha vinte anos de experiência e sabia quais as expectativas e os anseios dos músicos.

Ainda hoje muitos artistas dizem que é difícil viver da música, mas o Tozé provou o contrário durante 50 anos. Teve de fazer muitos sacrifícios por causa da música?
Primeiro é preciso perceber que nesta área, provavelmente como em qualquer outra, é preciso ter uma ponta de sorte. Não chega ter talento e inspiração. Eu comecei com bons grupos e isso deu-me uma boa base. Mas houve momentos em que tive de fazer uma opção pela indústria, por questões economicistas, porque tinha uma família para sustentar. Eu optei pela via editorial, mas há outros músicos que seguem pela via do ensino, da produção, etc. Viver da música não é só fazer música.

Já que fala em família, o Tozé tem seis netos. Eles sabem quem é o avô e conhecem a sua obra?
Os mais velhos sim. O João, que tem 14 anos, até já me acompanha à viola. Quanto aos mais novos, começo agora a fazer com eles o trabalho que o meu pai fez comigo [risos].

Canta: ‘Já sofri tudo. Resta-me viver.’ O que gostaria de viver que ainda não viveu?
Fundamental, gostava de ter saúde. Não há nada pior do que estar vivo e não conseguir viver. Há muita vontade de continuar a escrever. E depois há ainda umas viagens por realizar. Nesse aspeto continuo a ser um miúdo de 15 anos com um caminho pela frente.

GURU DA MÚSICA EM PORTUGAL

Tozé Brito é provavelmente o homem que melhor conhece a música em Portugal e que mais a viveu por dentro e por fora. É músico (autor, compositor e cantor), mas também foi homem-forte da indústria, tendo trabalhado em algumas das maiores editoras. Foi A&R (responsável por artistas e repertório) e diretor de companhias discográficas durante quase 30 anos. Passou por Polygram, BMG e Universal. Assinou com artistas como Xutos & Pontapés, Mler Ife Dada, Afonsinhos do Condado ou Radar Kadafi. Foi ele que  criou as Doce, um dos maiores fenómenos da música portuguesa. Atualmente, faz parte da direção da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). Tozé Brito começou aos 15 anos como membro fundador dos Pop Five. Aos 18 anos já tocava no Quarteto 1111, um dos projetos históricos da música portuguesa, que lhe valeu em 2011 uma medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Coimbra. Ainda nos anos 70, formou os Green Windows antes de rumar para Inglaterra, onde estudou psicologia e trabalhou como tradutor. Foi em Inglaterra que casou e viu nascer a sua primeira filha. Inscreveu o seu nome em centenas de canções, para si e para terceiros. Entre elas estão ‘Vinte Anos’, ‘Bem Bom’ (Doce), ‘Pensando em Ti’, ‘Olá, Então Como Vais?’, (que escreveu para Paulo de Carvalho) ‘Papel Principal’ (Adelaide Ferreira) ou ‘Recordar é Viver’ (Victor Espadinha).  
Tozé Brito David Ferreira artes cultura e entretenimento música
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